A Cidade de Palaguin

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Na cidade de Palaguin
o dinheiro corrente era olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da porta para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicílio.
Havia pobres a aceitar como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.

Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
– a população banhava-se frequentes vezes.

Na cidade de Palaguin
havia Havia HAVIA…

Três vezes nove um milhão.

__________

Carlos Eurico da Costa, in ‘A Cidade de Palaguin’

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Invocation a la Momie Antonin Artaud

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Invocation à la Momie (Antonin Artaud)

 

 

Ces narines d’os et de peau
par où commencent les ténèbres
de l’absolu, et la peinture de ces lèvres
que tu fermes comme un rideau
Et cet or que te glisse en rêve
la vie qui te dépouille d’os,
et les fleurs de ce regard faux
par où tu rejoins la lumière
Momie, et ces mains de fuseaux
pour te retourner les entrailles,
ces mains où l’ombre épouvantable
prend la figure d’un oiseau
Tout cela dont s’orne la mort
comme d’un rite aléatoire,
ce papotage d’ombres, et l’or
où nagent tes entrailles noires
C’est par là que je te rejoins,
par la route calcinée des veines,
et ton or est comme ma peine
le pire et le plus sûr témoin.

Angelo de Lima do poeta

Ângelo de Lima (1872-1921)

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– Ângelo Vaz Pinto Azevedo Coutinho de Lima, nasceu no Porto a 30 de Julho de 1872.
– Em 1891 e 1892 participou como voluntário numa expedição militar – Moçambique.
– Em Novembro de 1894 – internado no hospital do Conde de Ferreira (Porto) onde permanece até 1898.
– Foi director artístico de «A Geração Nova».
– Em 1900 é internado no Hospital de Rilhafoles (Lisboa) – onde faleceu a 14 de Agosto de 1921
– Foi colaborador da revista Orpheu.

– Além fui – a Ninive da Piedade,
A cidade do Luto singular
E a sepultura da Semi-Ranil…
– E hoje…’stá por Ali, Vaga, a Saudade…
– E anda no Céu Supremo a Eterna Estar…
– E… Passa, às vezes, a Serpente… – Ali…

EU ONTEM OUVI-TE…

Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo,amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.

SONETO

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára m cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

ESTES VERSOS ANTIGOS

Estes versos antigos que eu dizia
Ao compasso que marca o coração
Lembram ainda?… Lembrarão um dia…
— Nas memórias dispersas recolhidas
Sequer na piedosa devoção

De algum livro de cousas esquecidas?
— Acaso o que ora canta… vive… existe
Nunca mais lembrará — eternamente?
E vindo do não ser, vai, finalmente,
Dormir no nada… majestoso e triste?

O MAR

Semelhante a Algum Monstro, Quando Dorme
— O Mar… Era sombrio, Vasto, Enorme…
— Arfando Demorado,
— Imenso sob os Céus!

— Tal Imenso e Sombrio, O Mar Seria
— E assim, Em Vagas Tristes Arfaria
No Tempo EM que o Espírito de Deus
— Sobre Ele era Levado!

OLHOS DE LOBAS

Teus olhos lembram círios
Acesos n’um cemitério…
Dr. Rogério de Barros

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris… Incendiados!…

Como os Clarões Finais… – Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados…
— Nas criptas d’um Jazigo Tumular!…

— Como a Luz que na Noute Misteriosa
— Fantástica – Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausoléu!…

— Mausoléu, das Saudades do Ideal!…

— Oh Saudades… Oh Luz Transcendental!
— Oh memórias saudosas do Ido ao Céu!…

— Oh Pérpetuas Febris!… – Oh Sempre Vivas!…
— Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!…

da poesia de arthur rimbaud

Comédie de la soif

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I

LES PARENTS

Nous sommes tes Grands-Parents.
Les Grands !
Couverts des froides sueurs
De la lune et des verdures.
Nos vins secs avaient du coeur !
Au soleil sans imposture
Que faut-il à l’homme ? boire.

MOI – Mourir aux fleuves barbares.

Nous sommes tes Grands-Parents
Des champs.
L’eau est au fond des osiers :
Vois le courant du fossé
Autour du château mouillé.
Descendons en nos celliers ;
Après, le cidre et le lait…

MOI – Aller où boivent les vaches.

Nous sommes tes Grands-Parents ;
Tiens, prends
Les liqueurs dans nos armoires ;
Le Thé, le Café, si rares,
Frémissent dans les bouilloires.
– Vois les images, les fleurs.
Nous rentrons du cimetière.

MOI – Ah ! tarir toutes les urnes !

II

L’ESPRIT

Éternelles Ondines
Divisez l’eau fine.
Vénus, soeur de l’azur,
Émeus le flot pur.

Juifs errants de Norwège
Dites-moi la neige.
Anciens exilés chers,
Dites-moi la mer.

MOI – Non, plus ces boissons pures,
Ces fleurs d’eau pour verres,
Légendes ni figures
Ne me désaltèrent ;

Chansonnier, ta filleule
C’est ma soif si folle
Hydre intime sans gueules
Qui mine et désole.

III

LES AMIS

Viens, les Vins vont aux plages,
Et les flots par millions !
Vois le Bitter sauvage
Rouler du haut des monts !

Gagnons, pèlerins sages,
L’Absinthe aux verts piliers…

MOI – Plus ces paysages.
Qu’est l’ivresse, Amis ?

J’aime autant, mieux, même,
Pourrir dans l’étang,
Sous l’affreuse crème.
Près des bois flottants.

IV

LE PAUVRE SONGE

Peut-être un Soir m’attend
Où je boirai tranquille
En quelque vieille Ville,
Et mourrai plus content :
Puisque je suis patient !

Si mon mal se résigne,
Si j’ai jamais quelque or,
Choisirai-je le Nord
Ou le pays des Vignes ?…
– Ah, songer est indigne

Puisque c’est pure perte !
Et si je redeviens
Le voyageur ancien,
Jamais l’auberge verte
Ne peut bien m’être ouverte.

V

CONCLUSION

Les pigeons qui tremblent dans la prairie,
Le gibier, qui court et qui voit la nuit,
Les bêtes des eaux, la forêt asservie,
Les derniers papillons !… ont soif aussi.

Mais fondre où fond ce nuage sans guide,
– Oh ! favorisé de ce qui est frais !
Expirer en ces violettes humides
Dont les aurores chargent ces forêts ?

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Inimigo de hipócritas e frades […] Óleo de Fernando dos Santos, 1935

Lisboa, Café Nicola

“Consta nesta Intendencia que Manoel Maria Barboza de Bocage he o autor de alguns papeis impios, sediciozos, e criticos, que nestes ultimos tempos se tem  espalhado por esta Corte e Reino; que he desordenado nos costumes, que não conhece as obrigaçoens da Religião, que tem a fortuna de professar, e que há muitos annos não satisfaz aos Sacramentos, a que obriga o preceito de hir todos os annos buscar os Sacramentos da Penitencia e Eucharistia á freguezia onde vive.”

Não sou vil, vil assassino […] Óleo de Fernando dos Santos, 1935

Lisboa, Café Nicola

“E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.”

Auto-retrato

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

O botequim Nicola foi fundado pelo  italiano Nicola. Em 1790, o poeta Bocage começou a frequentá-lo… O café actual, situa-se sensivelmente no espaço do anterior e abriu portas em 1929, remodelado pelo arquitecto  Norte Júnior depois, em 1936, por Raúl Tojal. 

São da autoria de Fernando Santos os seis quadros que se encontram nas paredes do café. O tema dos quadros, subordinado à vida do poeta, estão devidamente legendados. Uma das legendas – a do 2° quadro da esquerda – é a celebérrima frase  dita  aos seus assaltantes que lhe perguntaram : -“Quem és e donde vens?”; – “Sou o poeta Bocage, venho do Café Nicola…”. 

Outra legenda – 2° quadro da direita – ” Inimigo dos hipócritas e frades, eis Bocage em quem luz algum talento”. 

A  estátua, datada de 1929, é da autoria de Marcelino Norte de Almeida.

poeta

– és poeta
perguntaste
– sou plagiador
respondi
… plagiei todos os poetas que li
e
naveguei o único poema que a(ssa)ssinei

um poema-cavalo branco que galopa as minhas veias
que ensaia estupendos saltos-precipícios
um poema-sexo-lamina-de-duas-faces
um poema-punheta
um poema-em-fuga
(foge todas as noites da minha cama para foder com outros)

– és poeta
perguntaste
e eu, esquecido de todas as lembranças, assolado pelas consternações do mapa-múndi, encalhado nas ruas de barcelona, sem música e sem geografia, sem ir à horta onde as raízes pensam e o vinho escorre por entre fábulas de almanaque… eu que não existo.

mesmo antes de estar morto, não existo.

só disse
– tu… há muito que dormes comigo, na minha cama. tudo começou muito antes de te conhecer.
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
fui surpreendido pela arquitectura do teu corpo-prazer-ócio.
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
que ainda me mantém vivo

– és poeta
perguntaste
e eu…
só disse
– não prolonguemos as civilizações mecânicas…

a obscuridade retrocede e o ciclo das estações em salas climatizadas…

a noite e o verão perdem o seu encanto e o romper da alba está a desaparecer.
já não há espaço para o sonho.
quero descansar nas ruínas do império
enamorar-me do rio que as atravessa
casar com ele
e
passearmo-nos por entre as velhas pedras
os nossos véus de noivado (negros) serão suportados por dois adolescentes
ele de marinheiro (como gosto)
ela desnuda (como convém)

sou, todo eu, um plágio. uma janela aberta por onde transparecem milhares de imagens roubadas

premeditadamente