crocodarium editora apresenta-vos o kaos

queremos uma acção em que o corpo se exprima livremente e conquiste espaços de actuação que, no seu todo, possam vir a reflectir a dinâmica de um objecto estético em movimento
(sem história e sem estórias)

DA DESTRUIÇÃO

“A paixão pela destruição é uma paixão criativa”
in: “Estado e Anarquia” de Mikhail Bakunine

destrição2

a cultura e seus rituaisde absorção, de apropriação e de todos os impulsos críticos que podem interferir com o nosso quotidiano de miséria.

experimentemos a destruição…

destruir é, com efeito, um acto poético – um verdadeiro acto de criação – e há que devolver à arte o seu papel;
o da criatividade e da espontaneidade.

os nossos impulsos mais destrutivos e agressivos podem, até devem, ser base de (ou canalizados para) acções e experiências poéticas/dramáticas/pictóricas/sonoras – e ao “domar” essas forças maravilhosas e suas incríveis possibilidades contribuímos
cada vez mais
cada vez mais
cada vez mais
cada vez mais
para uma arte que será – sempre e como deve – efémera.

será um empurrar a arte para fora dessa passividade doméstica – esse apêndice apelidado de “cultural” agrilhoado a um sistema mercantil vazio.
completamente vazio.

a arte não é, não pode ser, um cartaz político. a arte é, isso sim, um acto espontaneísta
parte integrante do próprio processo de criação.

a defesa de uma estética destrutiva – desejada – pode ser o símbolo.

a destruição por mais subtil (ou mesmo extrema) desempenha um papel dominante no nosso quotidiano;
violenta-nos, é a razão de nossas dores, nossas úlceras, nossos assassinatos, nossos suicídios…
o rito – aqui – é, tão só, o ofertar o resultado das nossas destruições num grande cerimonial estético – e seremos nós mesmos resgatados
ao colapso “civilizacional”.

destruição

o espiritual tem sido historicamente objectivo e  território da arte.
as religiões usam e abusam da arte para se aproximarem do terreno
a arte deve fazer crescer o espectador ou pelo menos recordar coisas para além do visual e do terreno.

 

ACÇÃO ISOLADA I – sala de recepção com objectos vários. o público é convidado ao acto destrutivo – roupas, revistas, jornais, televisões, aparelhos de rádio e outros símbolos identificadores do consumismo instituído deverão ser alvos de pesquisa, manipulação e consequente destruição por parte dos intervenientes > um público activo e disponível para actuar de forma eficaz no acto (espontâneo). o resultado da acção é, de facto, poético. um grande acto poético (caótico) feito por todos.

ACÇÃO ISOLADA II – projecções audio-visuais do antes e do depois da intervenção. de máquinas em funcionamento (máquina de lavar roupa que “vomita” ondas de espuma vermelha (sangue), máquinas manuais de costura a actuar sobre largas tiras de tecido, betoneiras a derramar “massa” de cimento, montes de jornais e revistas em chamas, estendais de roupa sobre os quais personagens actuam com fogo, tintas, objectos cortantes, etc.).

esta acção privilegia, portanto, experiências no campo da “arte-destruição” multi-dimensional e, porque não, multi-sensual onde nos apercebemos dos nossos impulsos destrutivos e agressivos através de acções em arquivo ou captadas no momento da acção I

ACÇÃO FINAL – os espectadores – actuantes das duas acções anteriores são encaminhados para um segundo espaço.

espaço vazio – apenas sete painéis ou panos/papeis brancos nas paredes;

som – sons vários resultantes de gravações captadas no quotidiano (transito, máquinas várias, vozes imperceptíveis, comboios, gritos, grupos de adeptos desportivos, etc.);

equipamento – câmera de vídeo, projector, stroblight, aparelhagem sonora, projectores ou boa iluminação

destruição

 ACTO PRIMEIRO (da dimensão pictórica do corpo e não só) – quando os espectadores entram no espaço, apenas estarão presentes um “performer” e um operador de câmera. o performer deverá estar nu. entrará uma terceira figura com recipientes que deverão conter tinta (de uma ou mais cores) – despeja-os sobre o corpo do performer.

a terceira figura mantém-se no espaço > senta-se e, de um saco, retira um espelho e maquilhagem. inicia o seu ritual – o da pintura do rosto. após isso, levanta-se e sai. regressa com um alguidar e um balde de água. volta a sair, depois de pousar os adereços no palco. regressa com um banco (ou cadeira). deita a água no alguidar, descalça-se e senta-se. mergulha os pés no recipiente. constrói um barco de papel e coloca-o na água. passados alguns minutos de contemplação, destruirá o barco com os pés – num acto de raiva.

a captação da actividade da figura feminina (derrame da(s) tinta(s) e destruição do barco de papel) é fundamental – a câmera deverá estar ligada ao projector de vídeo de forma a que o acto possa ser visto (outro ângulo) numa das paredes da sala – no caso de haver mais projectores, seria interessante contemplar mais de uma das paredes – início do movimento

ACTO SEGUNDO (a dimensão pictórica do espaço – o corpo impresso no espaço) – o performer movimenta-se, de forma rítmica, ao encontro dos sete  painéis fixos na parede e, sobre eles, imprime o seu corpo coberto pelos pigmentos de cor (de frente, de costas, lateral esquerdo e direito, mãos, pés…) – início de movimentos vertiginosos 

ACTO TERCEIRO (a dimensão rítmica no espaço – a luz) – a máquina de lavar roupa jorra espuma vermelha (sangue), os braços agitados do performer iniciam um ritmo cada vez mais desesperado, os participantes tornaram-se parte da respiração… o batimento cardíaco será cada vez mais forte – como se tudo tivesse penetrado o cérebro. explosões, esmagamento de pequenos objetos lançados no chão, cheiro a incenso, luz intermitente dos stroblight, velas distribuídas aos espectadores, cheiros vários numa mescla (explosiva)…

os participantes mais uma vez se tornam espectadores e a destruição afirma-se como uma sublime realidade – serve as tradições humanistas fundamentais.

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recordando um acto hoje

sob o tecto desconexo da tua infância
eu ……………………………………………..…. assombrado
soletro navalhas de corte ao meio ……….….. e
tu
……………………………………..…………… com os dedos num botão de prata
e
o porta chaves …………………………………. em silêncio
atravessas as escadas
alcanças uma ilha ……………………………… espantada
há sempre uma flor de fogo na parede
há espectros
há travesseiros
há arrepios
e ……………………………………………….….. ao vento
cabelos cheios de ideias
personagens de uma tragédia absurda por entre cinzeirosque sulcam a monotonia dos dias

arte performance algarve tavira

encontros de arte contemporânea algarve-andaluzia – um projecto da associação de artistas plásticos do algarve

mandrágora esteve presente – tavira, atalaia, 2011  (com m. almeida e sousa e gonçalo mattos)
a ideia
o projecto
envolveu o quotidiano – o espectáculo – como diria gui debord
e
prevemos as imagens

Ao viver sentimos que cada momento, cada instante, é fugaz. Quando construímos uma acção a partir das nossas vivências, também ela será fugaz, efémera como qualquer acção real. Na proposta tudo passa pela recriação do instante, ou pela sua imagem, a criação de uma acção, sem a intenção de outra coisa que não a acção em si mesma.
As vivências são, pois, a matéria prima e a criação é elaborada a partir de imagens (memórias). Tais imagens passam e a intenção será apreendê-las num “espaço-matéria”, de forma a que todos os momentos efémeros não o sejam tanto e não nos escapem com facilidade.
Os materiais são, como as acções, efémeros – ao passar pelo objecto abandonado na rua vem-nos à ideia a sua utilização na acção. Porém, se o não guardarmos, no dia seguinte ele foi levado para a lixeira.
A acção criada num palco ou num espaço pictórico é tão fugaz como o objecto que encontrámos na rua… o seu fim será necessariamente uma lixeira uma grande lixeira. Dessa acção fica-nos apenas um “souvenir” para o álbum de família.

mas
o objecto da nossa “alma” é o corpo, só esse corpo existe no acto.
O actor procura colocar-se num ponto e “organiza” a sua percepção do espaço circundante – dá-se início ao movimento

e
tudo o mais são adereços num espaço
a alternativa passa pela extenuante e constante busca de uma humanidade perdida e destruída. uma espécie de trágico visionarismo que descobre as imagens perdidas (entenda-se imagens como um todo poético a exemplo de António Maria Lisboa; “…Tudo são imagens…” ou se quisermos; na magia tudo é imagem, cor, ritmo, sonoridade, movimento – a abstracção é, pois, estranha a este fenómeno)

nota: esta acção de mandrágora contou com participação de m. almeida e sousa e gonçalo mattos – prevista inicialmente a participação de bruno vilão. um projecto em processo e progresso. um acto só possível graças ao apoio do quartel de tavira “atalaia” e da insistência e aposta de josé bivar no “novo”, no inovador.

notas soltas performance arte

         ao substituir a narrativa clássica – casual, diacrónica – provoca-se a deslocação de uma organização temporal para uma organização espacial. a sincronia provoca um sentido de atemporalidade que remete para uma obra aberta, universal, logo não temporal.

ainda que a relação – ou equivalência – seja clara entre linguagem e pensamento, nem sempre será cumprido o acerto de que toda a predisposição para o pensamento corresponde a uma forma determinada de falar. tudo passa pela atitude do usuário linguístico (intenção, ironia, etc.) e, pela capacidade de (ele) utilizar uma linguagem capaz de transmitir o dito, é dizer; o que alguns chamam de função poética da linguagem. somos, pois, levados pela sedução da palavra – o falante é responsável pelo que diz e em distinguir as relações entre o que se diz – dito – e o que procura dizer de forma a penetrar no jogo; – o que se fala, o que deve entender quem escuta.

portanto, uma poética acção – a poesia será aquilo que está em movimento e tudo o mais será “prosa”.  e o desejo é um estar em movimento, não parar, actuar… o exposto é tanto retórica quanto conceptual. a acção vai avançando de acordo com suas próprias fissuras, produto de múltiplos confrontos, directos e indirectos que, no terreno experimental, são realmente vividos. as chaves deste acontecer poético: o móvel e o estático.

cena 2 nota 1

          resumindo; a acção poética em processo e em progresso é aquela que contempla relatos e, num primeiro olhar, transmite uma sensação semelhante à que produz uma mesa posta com conhecimento e gosto… enfim, que só pode proceder de uma natural relação entre a pessoa que a pôs e os seus actos. nessa mesa que contemplamos,  repleta de iguarias, há muito mais que correcção, coerência e beleza. é fácil perceber que a disposição é dinâmica e que a vitalidade da imagem está ligada a poderosa expressão poética, na sua penetrante capacidade de sugerir outras leituras. leituras que, com a maior naturalidade, se expandem enquanto o observador se introduz no “quadro” e descobre que há espaço, mais que suficiente, para a imaginação. a sensatez é, neste caso, uma obra-mãe de depuração estilística.

a acção não se constitui num sistema fechado. são muitas e nem sempre complementares, as vidas desta vida.

imagens; performance de manuel almeida e sousa em tacira – associação “min arifa”