leio-te… submerso

em vez de me estender na cama a ler idas e voltas pela lôbrega  capital
leio-te submerso
e
brutalmente lobotomizado  pelo pós guerra

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vivo numa cidade de eléctricos lentos e cortes de luz onde reinam sem competência os burocratas  de pistola à cinta e mediocridades perversamente intelectuais  que só chegam a alcançar alguma relevância  porque a primeira fila da inteligência foi eliminada

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mitos e sementes

da mitologia greco-romana deméter & perséfone

 alfaces-1

 havia mesmo

um labirinto que não era messiânico uma vez que esse labirinto estava vedado a qualquer espécie de salvador 

o labirinto era (diziam) a própria salvação 
daí se dissesse à boca-pequena que o melhor seria dizer
dizer tudo o que nos apetecesse no momento 
para justificar o labirinto 
uma vez que ele (o labirinto) era construído pelas palavras de quem dizia o que pensava

esse espaço encerrava mistérios relacionados com a sexualidade sagrada – era uma cidade onde se celebravam rituais em honra das deusas deméter e perséfone
para quem não saiba (ou esteja esquecido) deméter é a grande mãe do mito grego a responsável pela fertilidade da terra e da agricultura
e
deméter tinha uma filha – resultado da sua união com zeus
e
essa filha chamada perséfone era (ao que parece) muito interessante e cobiçada por outros divinos senhores
aqui entra hades em cena – porque hades era ou ainda é um dos tais divinos senhores
então hades o deus do mundo dos mortos apaixonado que estava pela moça 
resolve rapta-la 
e
num golpe de mago – o tal divino senhor – abre uma fenda na terra 
e
perséfone será simplesmente tragada

a jovem deusa viaja nas entranhas da terra 

é despejada no érebo
o érebo é – tão só – um outro labirinto nada messiânico onde os“iniciados da pedra” construíram a residência de hades (coisa mui semelhante aos infernos)

a deusa mãe
a grande deméter 
entrou como é lógico em alta paranóia e desespero
e
completamente despenteada procurou por todos os cantos do olimpo a filha (escusado será dizer que sem êxito)
a tristeza e o desespero da deusa foi tal que provocou um enorme eco – para além de elevado número de acidentes nas auto-estradas
então
nesse momento preciso 
surge uma enorme onda em forma de grande seca 

como é óbvio 
fome
nada brotava da terra 

a humanidade precipitava-se para a morte (precisamente. há situações que se repetem)

é nessa altura que o deus sol (mais conhecido por hélios) – o deus que tudo vê
informa deméter que hades havia raptado perséfone
deméter foi então no seu tapete voador a casa de zeus pedir que este obrigasse hades a devolver a filha – foi o que aconteceu mas
há sempre um mas nestas coisas

quando hades trouxe perséfone 
já esta havia comido uma romã (símbolo, segundo os mais ilustres e entendidos semióticos, do submundo) – daí se infere que a menina-deusa já desposara hades e tinha de acarretar com as obrigações que o casamento impunha na época

tal situação faz com que 
aqui
haja uma pausa na narrativa para que os deuses discutam entre dois copos de tinto servidos pelo jovem ganimedes que na altura já tinha sido raptado por zeus e sido nomeado copeiro-mor dos deuses
ganimedes serviu ainda chás de mandrágoras e outras iguarias para deleite dos deuses presentes

depois da pausa chegou-se ao acordo que segue
1. durante 9 meses perséfone ficaria com a mãe 
2. nos restantes 3 meses voltaria ao érebo para acompanhar o marido nos muitos afazeres – lá na residência dos mortos
é desta forma que surge o inverno – os 3 meses em que a terra perde sua força – a estação que retrata a enorme tristeza de deméter (por estar afastada de sua filha, claro está)

o mito inscrito no labirinto com uma caligrafia mágica e mística – o mito de deméter e perséfone simboliza no entender do escriba 
o drama que é o ciclo da vida
perséfone é a semente que a terra traga (terra que é, também, mãe. a que fertiliza. mas a terra é também
a sepultura da semente – na medida em que morre no momento em que o rebento irrompe)
a vida surge do útero da mãe
de dentro da terra 
“comemora-se” a tragédia – encena-se já o rito da morte e da ressurreição

alfaces3

 

da semente depositada na sua “sepultura” surge a vida 

de uma só semente podem surgir milhares de outras sementes 
e
as sementes foram ofertadas pelos deuses aos homens – para que cultivassem os campos

os deuses ofertaram as sementes 
logo as sementes são do homem

os deuses revelaram-nos este mistério no labirinto que não é de todo messiânico
o mistério da multiplicação 
o mistério da vida
o mistério do sacrifício da semente – que se entrega à “mãe terra” num rito anual 

ao longo dos séculos

e
o culto da semente é também (como lógico) um culto à sexualidade

nota: estes mistérios e cultos não eram estranhos ao povo egípcio, que o dedicavam à deusa ísis. foram também praticados noutras religiões iniciáticas. com o domínio do cristianismo a sexualidade passa a não ter espaço – é um acto pecaminoso. hoje o ritual da “terra mãe” (rito consciente ou inconsciente por parte do homem que afaga a terra) está em perigo. outros interesses se erguem – (querem mesmo castrar as sementes?) – texto publicado em simultâneo em um comboio na nudez dos carris

apostata

qual pastor de uma qualquer evangélica igreja

sofro as minhas dúvidas – em silêncio

na obscuridade

a minha fé no campo do experimentalismo estético treme… está mui próxima de uma derrocada.

será que a minha crença é sólida? é apenas a questão que ponho. que me ponho. que interponho quando embrenhado no quotidiano que é meu.

todavia prescindo – mesmo – da teologia do experimentalismo. é que… o milagre tarda. tudo tarda.

claro que sempre defendi a fé, sempre tive fé, mesmo nos momentos mais complicados. difíceis…

e quando os cabelos embranqueceram – talvez por influência do meu cepticismo – e me apercebi da situação…

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não. não sei mais que pensar.

sou um apóstata – definitivamente.

a grande aventura perdeu-se na realidade mágica. o mago duvida e a dúvida põe em risco a verdade inscrita a fogo nas pedras que rebocam o grande livro onde permanecem, ao longo dos séculos, todos os sermões e todas as verdades reveladas pelo grande mestre.

quando o sacro sopro do mestre parece ter-te abandonado, acharás que mergulhaste no santo caos.

no glorioso caos.

 e

que tudo desaparece

a tua igreja

forrada de poemas

com um delicioso púlpito encimado por um ilustre poeta maldito…

deixa de merecer a tua respeitosa devoção – parece ter perdido todos os catecismos, todos os…

ah!…

a minha congregação não é mais a minha congregação.

e o próprio confessionário parece querer disfarçar todos os pecados aí depositados pelos fiéis.

há uma fila infindável de suplicantes que me acompanham nesta maldição

será, mesmo, uma maldição?

quando o deus do experimentalismo te abandona…

pino

os antigos magos exploravam o sonho como um objecto-imagem à solta no inconsciente.

“domesticar” ou “domar” sonhos era uma tarefa – um exercício – a que se propunham.

para eles o objectivo era aceder, por completo, ao estado onírico. as suas experiências anotadas num canhenho de notas mágicas (mantida à mão para evitar que tais momentos se perdessem nas encruzilhadas do esquecimento) incidiam, portanto, sobre os sonhos que cruzavam o sono.

estes iniciados na arte, tinham uma crença. acreditavam naquilo que chamamos vulgarmente vontade – uma vontade que provoca um estar que, em sintonia com o sistema nervoso, pode permitir a realização de certas acções ou desejos.

para o mago o espírito de liberdade é a chave.

somos livres – sonhamos todas as noites com a santa liberdade!

pino

afinal todo o acto de vontade é um acto de percepção – logo é magia. e, sendo magia, acontece.

espontaneamente…

mas não. hoje não. hoje perdi a fé e qual pastor, sofro as minhas dúvidas em silêncio

e

na obscuridade.

 furna

os analistas do holocausto para além, muito além das experiências estéticas, mergulham – todos os dias – nos mistérios da abstracção e lá vão convivendo com os relâmpagos e com um fragmento de pirite onde podem pesquisar os mais belos princípios da geometria.

é.

acontece pela manhã, ao acordar…

aí, descubro a minha verdadeira vocação espiritual.

precisamente.

é pela manhã que acaricio a barba, coloco a gaiola na cabeça

e

nesse instante acontece… uma experiência iniciática inigualável, alucinante.

nesse momento sou confrontado com uma visão única. a visão de um anjo que penetra nas entranhas… a sua voz sente-se. não se ouve. sente-se apenas.

é o êxtase. o gozo absoluto.

não. não me restrinjo às visões matinais – tais experiências viajam por entre imagens narrativas, confissões e outros impressionantes estados que podem provocar espasmos e vertigens a tal ponto que………..

depois passa. bebo um café e passa.

com efeito esta experiência mística é absolutamente solitária.

é…

mesmo.

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passear com uma gaiola a contornar a cabeça é, com efeito, uma prática frequente do mago.

um exercício em busca do nome oculto inscrito nas sombras.

tais práticas permitem ainda (ao mago) descobrir as suas próprias contradições.

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uma arte propensa ao debate….

alguns vêem-na como uma acção dirigida à descoberta. como resultado de um olhar que navega através de formas ocultas na matéria manipulada por uma inteligência capaz de nos libertar e construir “lugares”, espaços privilegiados presididos por figuras iniciadas nas “artes da memória” – figuras mediadoras entre a magia e uma enciclopédia, para além da natural consciência clássica que vê – para além do visível – mas vê.

redescobrimos a luz coagulada que habita a ideia dessa matéria.

há pois uma arte evidente, que merece ser resgatada ou – até – moldada.

a ideia anima a forma e a forma ao ser portadora de certa “autoridade”, cruzará o umbral da porta onde o mestre reconhece os neófitos pelo profundo olhar.

então… criam-se espaços e interrogam-se corpos. desperta-se o tacto, exibe-se a poética de materiais inusitados

nasce outra relação entre a luz e a cor.

pois…

as atitudes convertem-se em formas

disse que sim

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o ciúme corroía-lhe as paredes do estômago. não, não tenho ciúmes!…
dizia-o sem pensar.
mas… doía
muito.
doía no estômago e no ruído ensurdecedor da verdade.
ah!… o ciúme…
o ciúme é como um homem cansado.
o ciúme tem barba e cabelos brancos
e
senta-se muitas vezes na estação de caminhos de ferro.
um dia ainda morre triturado sobre os carris.

DSCN3506-2

tudo podia começar assim, mas não.
a cena representa um espaço rectangular flanqueado por enormes lápides, alinhadas e apoiadas sobre um muro lateral… não demasiado alto.
as da esquerda, brilhantes e metálicas;
as da direita, de um leitoso branco marmóreo.
no passeio central, fragmentos de ossos e uma cadeira onde estou sentado a fumar este cigarro
há um jornal no chão.
já o li.
esse jornal possui o gérmen da luz…
é uma semente que, para frutificar… terá de morrer.
só depois direi:

o ciúme corroía-lhe as paredes do estômago. não, não tenho ciúmes!…
dizia-o sem pensar.
mas… doía
muito.
doía no estômago e no ruído ensurdecedor da verdade.
ah!… o ciúme…
o ciúme é como um homem cansado.
o ciúme tem barba e cabelos brancos
e
senta-se muitas vezes na estação de caminhos de ferro.
um dia ainda morre triturado sobre os carris…
que digo eu…?
pois…
o ciúme.
na última vez que sentiu ciúmes confessou-me uma história intrigante. uma história que adiantou o meu relógio
não me deixou dormir.
as histórias que me conta resvalam, sempre, por desejos escondidos.
profundamente escondidos.
são histórias sigilosas.
são palavras em desassossego.
tremendas.
depois não.
depois passam-se dias e nada me diz.
melhor…
diz.
diz outras palavras que soam sem importância.
diz:
– daqui a bruxelas… quantas são as horas no comboio?
e
eu respondo sempre
ainda que não obtenha a resposta dos seus pensamentos.
ainda que as minhas palavras soem como um…
caer el rompecabezas en el suelo
porquê o ciúme?
nem eu sei.
não.
acho que sei.
contei-lhe uma história passada. uma história minha…
intima.
intima como guarda-chuvas em êxtase profundo num qualquer quarto de hotel.
terá sido assim…?
terá sido por isso?
não.
talvez não.

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caigo
vuelvo a caer incluso más fuerte que la vez anterior
miro
miro todo desde mi pequeña parcela de suelo y…
pergunto-lhe se me ama
e
a resposta vem como um jacto
como um
não
vermelho.
depois tornou-se suavemente num
não
azul.
ou terá sido verde?
na sequência
veio um cigarro de pausa.
e
a fumaça disse-me que sim.
que me amava muito
como nos filmes.
então sonhei aquela noite de amor que escorregou de mim ao ritmo do saxofone
uma voz faz-se ouvir para dizer que o espaço está escorregadio e é muito perigoso não seguir as indicações cénicas do senhor encenador
ontem
corri ao longe apoiado na beata
ela
com o peito descoberto
conduziu-me a uma fonte rodeada de janelas
e
portas entreabertas.
agora
um ramo de flores com uma nota escrevinhada num papel.
pensei
repensei…
não.
não pensei
continuei rua abaixo
e
a minha memória voou como um planador entre montes e cavalos…
por entre horizontes indeterminados.

uma mulher passa, agora, à minha frente e deus desperta. a mão de deus cresce do chão e uma voz rouca faz-se ouvir com violência: – pecadora! cresci rodeado de selvas!…

a mão extingue-se num disparo.

aqui é que fico imóvel.
a economia aperta
e
o forno não está para bolos.
a hora é rápida e veloz
e
naquele banco com vista para a auto-estrada
contemplam-se ausências
as possíveis
e
raios de sol cada vez mais frios…
será grave?
bom, não será.
cuando ames no me muerdas con sigilo

para os noctívagos do virtual recomendamos a leitura da “geopolítica da má fé”
a que consagra as premonições religiosas
uma espécie de auto-sugestão mediante repetição – mui próximo do minimalismo espiritual.
li isto no velho “livro dos loucos” parágrafo 3 do capítulo 21

perguntaram-lhe:
– que se sente ao viver com um lobisomem?
e
ela só disse:

responder é complexo. mas posso adiantar que:…
a minha beleza é um troféu
e
a minha carne…
foi a vitima ao largo da vida. mas
com ele é diferente
ele é solicito. educado. em tudo contrário a um perturbado.
ele compreende, como ninguém, a minha tendência para o suicídio…
foi na cozinha
que encontrei uma formula para amar distancias curtas
estava no frasco dos alhos
no frasco do macarrão apenas uma mensagem:…
– quando amo
os colchões voam sobre a varanda
e
por entre os espelhos de narciso desenterras-me
é facto…
a percepção é já pensamento…
porque no meio
há portas
só no regresso
se solta a curiosidade
e
remiro a nota.
que diz…?
não consigo ler.
está escrita numa língua desconhecida
uma língua de lugar nenhum
uma língua…
suicidária.
caída de um edifício
de muitos andares.
agrada-me discursar sobre a colagem de objectos obstinadamente agregados ao mundo
hay un número que quiere decirnos algo
e
quando desperto entre bolas de sabão
quando fico descalço
a minha natureza dificilmente percebe quão formosos são os seus longos e saborosos… olhos
estou a falar
dum breve olhar
duma silhueta à luz de velas
duma barriga farta de pecado
de tragédias gregas onde os jardineiros dão corda aos seus relógios de bolso
a minha vida é como caroços de azeitona agitando-se na panela
deslizam lá dentro
mas continuam crus.
saí de casa com a roupa que tinha vestida.
na mão, uma mala quase vazia. apenas um livro. não mais que isso.
a humidade doía-me nos ossos.
então…
a luz da vela rompe as sombras e, com seu vestido de noite, veio até mim
e
disse-me: – só tu, para me fazer ficar.
então resolvi quedar-me
por ali.
cruzamo-nos à pressa
nas ruas
cada qual encerrando em si a incerteza
do princípio
e
do fim

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o sinal estava aberto
para todos
mas ninguém ousava atravessar
não se ouviam buzinas
reclamações
a economia do fluxo nas vias
caracteriza-se pelo congestionamento estático e pelo sentido único
e
a clorofila?
o progresso?
o cheiro no nariz?
o gosto amargo na boca?
ah…!
imagens que se escapam
para fora da janela
com os cotovelos apoiados
num sonho
despertei
e
um calafrio sobrevoou os meus sentidos como um espanta-pássaros
um calafrio instantâneo apoderou-se do meu corpo
um calafrio suicida
que se lançou do quinto andar num voo
espectacular
de manhã
logo pela manhã… somos despertos pela novidade
o mundo não dorme
quando
ouço o mar nas minhas insónias
ao sabor de ansiolíticos
assomei meio corpo pela varanda
e
vi um homem lançar-se da janela.
não foi a primeira vez que fantasiei a minha própria morte.
mas…
ninguém morre hoje
não é permitido.
a menos que atravessem a porta
ninguém morre hoje…
despertei às quatro da manhã
e
às cinco caiu o corpo.
morto.
para me segurar pendurei-me no estendal com as molas da roupa
e
nesse instante imaginei-me…
eu.
estatelado lá em baixo
na calçada.
sim
com a sonolência perde-se o equilíbrio
e
caímos sete pisos…
ou algo assim
como se nos convertêssemos
de repente
na imagem do nosso próprio funeral.
há um mar de dúvidas
dúvidas viúvas.
há um campo que irrita a pele…
então
só então
se perfilam os triciclos dispostos a regatear com senhoras de meia idade
e…
é.
posso dizer
houve um tempo em que
desejei
ainda desejo
continuo a desejar
e
pergunto-me se aquele corpo não fantasiou a minha morte
o morto serei eu…?
não
não fui eu quem saltou no vazio.
fui?
nunca saberei o porquê de tal loucura…
matou-se?
ou
matei-me…?
desapareci deste mundo?…
confuso
despedi-me da vida
e
tomei o caminho do ascensor
ainda tive tempo para olhar o ramo de flores.
antes
as flores cumpriam a sua função
as flores mascaram o odor da decomposição dos corpos
mas ali não havia nenhum corpo
só uma suposta alma
e
frio.
pois
as almas têm frio
as almas perdem-se no meio da rua como pássaros
como borboletas…
depois morrem
as almas morrem
as almas morrem
as almas morrem
as almas morrem
com a chegada do inverno
cala-te!…
ela está ali
atrás da porta.
a ouvir-te
a seguir os teus movimentos…
não descola.
não te deixes dormir
se adormeces…
ela mata-te com a faca da cozinha
e
os teus planos de suicídio voam
abrem espaço a um crime.
crime…?
não.
ela…
não dançará mais.
foi passear de metro
o tempo
passa pela vida
a galope

foram vocês que escreveram a mensagem na tampa da caixa? não percebi nada… mas pode ser que sim. que tenham alguma sorte…
de qualquer forma deixarei a caixa “destampada” para que possam respirar melhor…

o tempo é tanto
e
pensando o tanto que o tempo é…
pois é.
as pessoas fraccionam o tempo
e
as emoções.
entrementes
a máquina de lavar roupa roda com muita espuma
bolas de espuma
grandes
muito grandes.
no tambor
apenas a roupa intima dela
e
a centrifugação.
estava na centrifugação quando a porta se abriu
um mar de espuma inundou o quarto
a espuma…
a espuma envolveu-nos num mergulho
num salto
num sobressalto
num salto alto
de verniz. vermelho.
que digo eu…?
e
o carro?
não sei do carro
por certo que o carro se enfiou por baixo do comboio e morreu
morreu ali
e
foi levado para o cemitério de automóveis.
as máquinas devoradas pela ferrugem são levadas pela espuma da máquina de lavar roupa
quando isso acontece… grelhamos carne
e
só depois é que comemos
vá!…
come
come tudo.
mas antes tempera os bifes
e
não esqueças o óleo hidráulico dos travões.
sem travões
como poderás suicidar-te?…
atiras-te lá de cima sem travões
e
morres.
logo.
sem travões morres
e
o suicídio
não será consumado.

quero que os teus lábios de papel flutuem nos meus almoços
deixa-me…
já vendi tudo!
até a infância… lambuzada em latas de refrigerantes

manuel almeida e sousa – 45 anos nas desartes e alguns desastres

manuel de almeida e sousa, segundo consta no cartório do registo civil, nasceu (mesmo) em 1947 na vila de cascais – distrito de lisboa. e mais consta que é português. 

a vida tem-lhe sorrido por vezes e, nas vezes que não, lá se aguentou com arrobas de chatices às costas. 

iniciou-se na aprendizagem das primeiras letras na escola primária de cascais e concluiu a velha 4ª classe na escola de tavira (ali ao lado da estação dos comboios que vão para lisboa). os liceus (que foram bué…) abriram-lhe as portas em faro mas… tiveram um percurso confuso: – loureço marques (hoje maputo), luanda, oeiras…. só muito depois, o regime de então o mandou de “férias” para bissau (guiné).

frequentou imensos cafés e outros espaços de boa vida, escrevinhou para jornais e trabalhou como designer gráfico em diários e revistas deste rectângulo luso, esteve quase disposto a estudar para professor – no magistério primário e arquitectura – nas belas artes. mas desistiu com a rapidez de um voo de águia e… pousou na escola superior de teatro. tem papel comprovado dos seus estudos dramáticos. pois, pois…

… precisamente! 

a vida é mesmo uma bela peça de teatro.

 

 

mane

 

o desejo de viajar de bicicleta… 

de bicicleta

e

ingerir um chá de mandrágora como quem beija. 

 

– …?

– é um estar – aqui e agora – e esse estar é o meu. não me preocupo. só isso. vivo cada momento como meu e o meu momento, passa por um fazer de coisas sem qualquer rótulo em mente.

é arte?

é poesia?

é espectáculo?

quem sabe…!?

que os outros rotulem, à vontade, a ver se me chateio…

estarei sempre ao lado. descansem os fazedores de opinião que não os contradirei. nunca. faço as coisas. faço coisas e… só isso.

e

simplesmente isso.

– teatro….

essa coisa a que alguns ainda teimam em chamar teatro, é uma das que faço com o prazer de quem cria. é coisa que aposto de bom grado pelo facto de que encontro aí – mais do que em qualquer outra área – o espaço onde o colectivo não só é possível, como desejável – por absolutamente necessário.

e juntamo-nos num grande ritual onde todos somos sacerdotes e magos.

a hierarquia é derrubada porque não pode – nunca – haver hierarquia. porque neste cerimonial somos todos eus.

– ah… mas encenas?

o pôr em cena é um (mais um) olhar da coisa ou sobre a coisa. uma visão. é um cerimonial igual aos demais – como qualquer outro que os restantes sacerdotes/magos emprestam ao projecto. um olhar mais… tão só isso. e esse cerimonial é tão importante quanto os outros. navegamos uma religião única. praticamos um rito iniciático muito especial – demasiado próximo do kaos. fernando arrabal e jodorovsky tinham e têm razão quando falam do teatro pânico

o pânico e o kaos são águas onde nadamos com prazer. interessa-nos. interessa-me. poderemos acrescentar ainda a crueldade tão aclamada por esse visionário do drama – o senhor antonin artaud.

– utopias…?

a utopia existe?… a utopia de hoje não é mais que a realidade de um amanhã… ao elevar-se nos céus, o deus sol acorda um novo dia. e cada dia é diferente dos outros todos. a grande deusa mãe-terra é testemunha disso. e as tábuas do palco sussurram-nos o conhecimento

e

o conhecimento é a única autoridade que respeitamos. mas o conhecimento não é autoridade, porque não se impõe. o conhecimento alcança-se.

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– leonor verdura…!?

uma outra etapa do percurso. uma outra viagem das muitas em que nos aventurámos. somos cinco viajantes dentro e fora do espaço da representação e… cada um contribuiu com o seu conhecimento e com a sua vontade de viajar por entre os poetas ditos experimentais.

pesquisámos – todos. actuam – o bruno vilão e a íris santos. as sonoridade são do – ricardo mestre. o vídeo – do bruno corte real. a encenação – minha… a mandrágora empresta o nome ao projecto.

os poetas escolhidos são os poetas escolhidos. não mais que isso. escolhemos estes. e é a estes que damos corpo em palco, porque sim. porque foi o nosso critério… são os que são, porque achámos que sim. e a viagem teve o seu início e terá o seu fim – estes rituais são sempre efémeros. porque o teatro é efémero. só pode ser. e quem não o viu… não o verá.

precisamente por isso.

– e há um livro… “eu, tu e o comboio”…?!

há. há um livro com 5 peças teatrais que deu à luz uma editora do brasil. é verdade. são cartas teatrais. mui teatrais… cada peça é uma carta para os amigos. é com esse espírito que escrevinho. não escrevo para parir livros. escrevo por prazer. escrevo porque sim.

então disseram-me que podia… que podia compilar coisas em forma de livro. confesso que me surpreendeu o convite. não estava nem aí. é. é verdade.

então juntei as coisas teatrais que tinha. as que ganharam corpo em palco (espectáculos de mandrágora) e outras que estavam, como sói dizer-se, na gaveta. dei-me a esse trabalho e… lá saiu o “eu, tu e o comboio” em são paulo. no brasil…

“eu, tu e o comboio” é o nome do livro e “eu, tu e o comboio” é, também, o nome da primeira peça desse livro. cento e tal páginas… espantei-me por ser capaz dessa aventura. mas “curti” abrir a encomenda e vê-lo (ao livro).

não. não se vende por cá, quem o queira… que o mande vir do outro lado do atlântico.

editora de cá a reproduzir a coisa…? não. não me parece. mas também não estou preocupado, nem muito nem pouco.

conversa conduzida por alba damião

do texto e do drama

art-50

 

 

A concepção do texto como elemento dramático (base) é superado.

A compreensão do drama passa naturalmente pela justaposição de códigos, símbolos e signos (desde a vocalização ao gesto, da atitude aos elementos técnicos – som, luz, etc. – passando pelo elemento linguístico, assim como tudo o que intervém em conformidade com a actuação e tudo o que se oferece no espectáculo enquanto objecto estético – total).

Impõe-se, pois, uma valorização da acção dramática ainda que se questione estilo, forma, género… tudo isto não exclui, naturalmente, as propostas reflexivas e a presença de um «espectador» (enquanto colectivo) com seus hábitos de consumo cultural…

A imposição de conceitos como sejam o espaço frontal  ou o diálogo formal, implicam uma quase impossibilidade de viajarmos por entre propostas que impliquem o drama em espaço físico, dinâmico, liberto …. um espaço que; como diria Artaud: “exige seja ocupado e que permita uma linguagem própria e concreta….” ou seja, um espaço aberto aos sentidos, um espaço independente e livre de qualquer imposição.

Um espaço aberto a qualquer linguagem, à espontaneidade e à criatividade que irrompe do corpo (todo) do actor enquanto criador de acção, enquanto sacerdote de um ritual – o drama.

“Há uma poesia dos sentidos 

como há uma poesia da linguagem… 

essa linguagem é o tudo, o tudo 

que ocupa a cena, tudo o 

que pode expressar-se 

ou manifestar-se…” 

(Antonin Artaud)

Estamos perante uma acção que se afasta do convencional, logo que se afasta do logocentrismo, do teatro burguês  – a visão de um teatro como texto representado, valoriza apenas um tipo de representação muito determinado e concreto. representação que tem limitado (durante anos) a possibilidade de potênciar outro tipo de mecanismos tão mais eficazes na sua teatralidade ou relegado para espaços marginais ou experimentais as tentativas de impor a diferença. Difícil, sem dúvida, afastar este formalismo tão entranhado na nossa prática cultural e contrapor-lhe manifestações radicalmente opostas como seja o regresso a manifestações claramente populares e tradicionais, onde não falte a acrobacia, dança, técnicas circenses, etc. isto para não mencionar a recusa sistemática ao absurdo, à criação de efeitos que se afastam das convenções do que é tido como correcto em arte… a recusa da da liberdade, espontaneidade, que irrompe e subverte todas as convenções de um teatro limitado ao debitar de palavras ou a ideia de um teatro de autor. Hà pois, uma certa tendência para conceptualizar o teatral na relação com determinados espaços como por ex. O espaço à Italiana – frontal. E a um público determinado. Podemos mesmo afirmar que práticas criadoras de um texto preferencialmente literário impõe um diálogo francamente autoritário.

A poesia da linguagem é natural nas todas vertentes expressivas (música, dança, plástica, pantomina, mímica, gesticulação, entonização – entendida, esta, como essa faculdade que tem as palavras de criar uma musica própria – um ritmo). O caminho que conduz ao movimento, que leva o actor a compreender as linguagens em jogo, produz-se pela via dos sentidos. O submeter-se espontaneamente e cuidadosamente a estímulos diversos que permitam observar as reacções naturais do corpo enquanto organismo. Um trabalho com cor, com ritmo, com materiais, com a música para que se possa entender a dinâmica de uma cor determinada, dum material como o ferro ou a madeira, sentir o tempo, o vento. 

Um teatro abstracto mas que pode provocar o sentido de pesquisa do espiritual, uma ideia de formas e matérias. Submergir ao actor noutra dimensão de consciência que permite extrair de si mesmo a essência de seus estímulos e movimentos.E o movimento é essa força perfeita que explica o mundo…  

São os corpos, as massas, que no seu envolvimento encontram a justiça e a perfeição do 

ritmo, isoladas de uma racionalização que só pode chegar como reflexão 

final e não procedente da prática dramática.

sonho e realidade IX

 

 

entre a razão e o sonho interpõe-se o acto dominado pela irrupção da matéria – aqui, a acção do corpo não é alheia.

propomo-nos mostrar imagens marcantes. imagens que, todavia, podem passar desapercebidas. imagens intensas e impregnantes num jogo continuo por onde podem navegar ambiguidades, metamorfoses, transgressões…

arte/sonho. arte/instrumento de apropriação de imagens que povoam o nosso quotidiano

sonho e realidade VI-comunicar

comunicamos de forma | de forma | de na forma | a da palavra | a do silêncio | e as que | as que menos | as que menos comunicam | são | são precisamente | elas | as palavras

são as que menos | menos comunicam e | as que mais falsas | falsas ou imprecisas | e a razão | a razão razoável | razoável porque | porque deveria | e se deveria | porque não | porque não imagens | imagens a acompanhar | e barulhos | barulhos oscilantes | ainda que | ainda que  mínimos | ainda que  ondulantes | ainda que

as páginas | as páginas em branco | e também | também os olhares | também poros | também respirações | para mais | muito mais comunicação | mais verdadeiramente mais | e exigir reflexos | metamorfoses | toques carnais | toques no ir e no voltar | um toque | um toque aqui | ali | mas um toque | uma carícia e um toque | como afago | um toque que | que | e que se estende

gerador | o toque | gerador de uma acção | comunicando o comportamento | a magia do comportamento | da acção | a de comunicar

comunicar | comunicar com |  comunicar com beijos