apostata

qual pastor de uma qualquer evangélica igreja

sofro as minhas dúvidas – em silêncio

na obscuridade

a minha fé no campo do experimentalismo estético treme… está mui próxima de uma derrocada.

será que a minha crença é sólida? é apenas a questão que ponho. que me ponho. que interponho quando embrenhado no quotidiano que é meu.

todavia prescindo – mesmo – da teologia do experimentalismo. é que… o milagre tarda. tudo tarda.

claro que sempre defendi a fé, sempre tive fé, mesmo nos momentos mais complicados. difíceis…

e quando os cabelos embranqueceram – talvez por influência do meu cepticismo – e me apercebi da situação…

 f-colagem2

não. não sei mais que pensar.

sou um apóstata – definitivamente.

a grande aventura perdeu-se na realidade mágica. o mago duvida e a dúvida põe em risco a verdade inscrita a fogo nas pedras que rebocam o grande livro onde permanecem, ao longo dos séculos, todos os sermões e todas as verdades reveladas pelo grande mestre.

quando o sacro sopro do mestre parece ter-te abandonado, acharás que mergulhaste no santo caos.

no glorioso caos.

 e

que tudo desaparece

a tua igreja

forrada de poemas

com um delicioso púlpito encimado por um ilustre poeta maldito…

deixa de merecer a tua respeitosa devoção – parece ter perdido todos os catecismos, todos os…

ah!…

a minha congregação não é mais a minha congregação.

e o próprio confessionário parece querer disfarçar todos os pecados aí depositados pelos fiéis.

há uma fila infindável de suplicantes que me acompanham nesta maldição

será, mesmo, uma maldição?

quando o deus do experimentalismo te abandona…

pino

os antigos magos exploravam o sonho como um objecto-imagem à solta no inconsciente.

“domesticar” ou “domar” sonhos era uma tarefa – um exercício – a que se propunham.

para eles o objectivo era aceder, por completo, ao estado onírico. as suas experiências anotadas num canhenho de notas mágicas (mantida à mão para evitar que tais momentos se perdessem nas encruzilhadas do esquecimento) incidiam, portanto, sobre os sonhos que cruzavam o sono.

estes iniciados na arte, tinham uma crença. acreditavam naquilo que chamamos vulgarmente vontade – uma vontade que provoca um estar que, em sintonia com o sistema nervoso, pode permitir a realização de certas acções ou desejos.

para o mago o espírito de liberdade é a chave.

somos livres – sonhamos todas as noites com a santa liberdade!

pino

afinal todo o acto de vontade é um acto de percepção – logo é magia. e, sendo magia, acontece.

espontaneamente…

mas não. hoje não. hoje perdi a fé e qual pastor, sofro as minhas dúvidas em silêncio

e

na obscuridade.

 furna

os analistas do holocausto para além, muito além das experiências estéticas, mergulham – todos os dias – nos mistérios da abstracção e lá vão convivendo com os relâmpagos e com um fragmento de pirite onde podem pesquisar os mais belos princípios da geometria.

é.

acontece pela manhã, ao acordar…

aí, descubro a minha verdadeira vocação espiritual.

precisamente.

é pela manhã que acaricio a barba, coloco a gaiola na cabeça

e

nesse instante acontece… uma experiência iniciática inigualável, alucinante.

nesse momento sou confrontado com uma visão única. a visão de um anjo que penetra nas entranhas… a sua voz sente-se. não se ouve. sente-se apenas.

é o êxtase. o gozo absoluto.

não. não me restrinjo às visões matinais – tais experiências viajam por entre imagens narrativas, confissões e outros impressionantes estados que podem provocar espasmos e vertigens a tal ponto que………..

depois passa. bebo um café e passa.

com efeito esta experiência mística é absolutamente solitária.

é…

mesmo.

 gaiola2

passear com uma gaiola a contornar a cabeça é, com efeito, uma prática frequente do mago.

um exercício em busca do nome oculto inscrito nas sombras.

tais práticas permitem ainda (ao mago) descobrir as suas próprias contradições.

gocalo_n

uma arte propensa ao debate….

alguns vêem-na como uma acção dirigida à descoberta. como resultado de um olhar que navega através de formas ocultas na matéria manipulada por uma inteligência capaz de nos libertar e construir “lugares”, espaços privilegiados presididos por figuras iniciadas nas “artes da memória” – figuras mediadoras entre a magia e uma enciclopédia, para além da natural consciência clássica que vê – para além do visível – mas vê.

redescobrimos a luz coagulada que habita a ideia dessa matéria.

há pois uma arte evidente, que merece ser resgatada ou – até – moldada.

a ideia anima a forma e a forma ao ser portadora de certa “autoridade”, cruzará o umbral da porta onde o mestre reconhece os neófitos pelo profundo olhar.

então… criam-se espaços e interrogam-se corpos. desperta-se o tacto, exibe-se a poética de materiais inusitados

nasce outra relação entre a luz e a cor.

pois…

as atitudes convertem-se em formas

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notas soltas performance arte

         ao substituir a narrativa clássica – casual, diacrónica – provoca-se a deslocação de uma organização temporal para uma organização espacial. a sincronia provoca um sentido de atemporalidade que remete para uma obra aberta, universal, logo não temporal.

ainda que a relação – ou equivalência – seja clara entre linguagem e pensamento, nem sempre será cumprido o acerto de que toda a predisposição para o pensamento corresponde a uma forma determinada de falar. tudo passa pela atitude do usuário linguístico (intenção, ironia, etc.) e, pela capacidade de (ele) utilizar uma linguagem capaz de transmitir o dito, é dizer; o que alguns chamam de função poética da linguagem. somos, pois, levados pela sedução da palavra – o falante é responsável pelo que diz e em distinguir as relações entre o que se diz – dito – e o que procura dizer de forma a penetrar no jogo; – o que se fala, o que deve entender quem escuta.

portanto, uma poética acção – a poesia será aquilo que está em movimento e tudo o mais será “prosa”.  e o desejo é um estar em movimento, não parar, actuar… o exposto é tanto retórica quanto conceptual. a acção vai avançando de acordo com suas próprias fissuras, produto de múltiplos confrontos, directos e indirectos que, no terreno experimental, são realmente vividos. as chaves deste acontecer poético: o móvel e o estático.