A Cidade de Palaguin

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Na cidade de Palaguin
o dinheiro corrente era olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da porta para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicílio.
Havia pobres a aceitar como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.

Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
– a população banhava-se frequentes vezes.

Na cidade de Palaguin
havia Havia HAVIA…

Três vezes nove um milhão.

__________

Carlos Eurico da Costa, in ‘A Cidade de Palaguin’

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pataphisica

Qu’est ce que la ’Pataphysique

 

La plus vaste et la plus profonde des Sciences, celle qui d’ailleurs les contient toutes en elle-même, qu’elles le veuillent ou non, la Pataphysique ou science des solutions imaginaires a été illustrée par Alfred Jarry dans l’admirable personne du Docteur Faustroll. Les Gestes et Opinions du Docteur Faustroll, pataphysicien, écrits en 1897-1898 et parus en 1911 (après la mort de Jarry) contiennent à la fois les Principes et les Fins de la Pataphysique, science du particulier, science de l’exception (étant bien entendu qu’il n’y a au monde que des exceptions, et que la «règle» est précisément une exception à l’exception ; quant à l’univers, Faustroll le définissait «ce qui est l’exception de soi».)

Cette Science, à laquelle Jarry avait voué sa vie, les hommes la pratiquent tous sans le savoir. Ils se passeraient plus facilement de respirer. Nous trouvons la Pataphysique dans les Sciences Exactes ou Inexactes (ce qu’on n’ose avouer), dans les Beaux-Arts et les Laids, dans les Activités et Inactivités Littéraires de toutes sortes. Ouvrez le journal, voyez la télévision, parlez: Pataphysique !

 

La Pataphysique est la substance même de ce monde.

(in: Novum Organum du Collège de ’Pataphysique)

livre-faustroll

a criação do “superior instituto de altos estudos patafísicos da nova lusitânia” é uma realidade. já.
a sereníssima sub-comissão dos provedores gerais assim como as  transcomissões e satrapias apenas aguardam a tomada de posse dos excelsos catedráticos.
o “superior instituto de altos estudos patafísicos da nova lusitânia” estará apto a conferir os mais diversos títulos académicos aos seus estudantes…
a saber:
– bacharel titular em estudos patafísicos
– licenciatura-técnica em soluções imaginárias
– pós-graduação em máquinas de leitura (manipulação especializada)
– mestrados em alinhamentos e semi-virtualidades
– doutorados(mentos) em planos, círculos, excepções, plásticas, espirais, estéticas, seduções e outras formas e graças.
os grandesssissimos sátrapas e “enormissimos cornópios” (como diria cortázar) deste recanto europeu, foram já convidados.
aos nossos candidatos a estudiosos deste instituto publicamos aqui alguns documentos – trabalhos  de casa…

calendário perpétuo do dr. faustrol – permite-nos reconhecer as diversas festas supremas e também as do grande vaziu (comuns).

Festas Supremas – principais principais:

ONTOGÉNIE PATAPHYSIQUE

Festas Supremas principais secundárias:
NAVEGAÇÃO DO Dr FAUSTROLL

Festas Supremas secundárias:
FESTA DOS POLIEDROS

Festas Supremas de terceiro grau:
FESTA DA CANDEIA VERDE

Festas Supremas de quarto grau:
St Alambique – “o abstracto”

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Invocation a la Momie Antonin Artaud

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Invocation à la Momie (Antonin Artaud)

 

 

Ces narines d’os et de peau
par où commencent les ténèbres
de l’absolu, et la peinture de ces lèvres
que tu fermes comme un rideau
Et cet or que te glisse en rêve
la vie qui te dépouille d’os,
et les fleurs de ce regard faux
par où tu rejoins la lumière
Momie, et ces mains de fuseaux
pour te retourner les entrailles,
ces mains où l’ombre épouvantable
prend la figure d’un oiseau
Tout cela dont s’orne la mort
comme d’un rite aléatoire,
ce papotage d’ombres, et l’or
où nagent tes entrailles noires
C’est par là que je te rejoins,
par la route calcinée des veines,
et ton or est comme ma peine
le pire et le plus sûr témoin.

Eris a deusa primordial do Caos

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No início era Éris – a nossa deusa, e Éris era pura e moldada no absoluto caos – como nos foi revelado pelo divino Tai Chi.

Éris é, tão só, o substrato a partir do qual o universo surge.

E Éris concebeu cinco filhos:

– Gaia (a Terra)

– Urano (o grande céu)

– Pluto (o submundo)

e

– os dois primeiros corvos

Gaia e Urano casaram e, conceberam os doze Titãs, o mais jovem dos quais era Cronos, o Tempo e, também, o Senhor da Agricultura.

Cronos está na origem de todos os nossos problemas.

Foi Cronus, sempre insatisfeito, que desmentiu sua mãe, castrou o pai e… proclamou-se rei da e para a eternidade.

E foi por isso, que Éris o amaldiçoou.

Tal maldição, lançada sobre ele, provocou um acto de traição… isso. Cronos – também ele seria traído e usurpado por um de seus filhos.

Mas antes… muito antes, Cronos, pressente que será traído por um dos filhos. Na ânsia de evitar tal previsão, devorou os 5 filhos.

Mas Rhea, sua esposa, estava grávida de um sexto filho.

E, como é normal, Rhea não queria ver o filho comido por seu marido. Quando a criança nasceu, Rhea substituí a criança por uma grande pedra envolta em linho e apresentou-a a Cronos como seu filho. E ele comeu a pedra sem sequer se certificar se era, de facto, o verdadeiro filho.

E Rhea escondeu o menino. Para tal, contou com a cumplicidade de sua mãe, a deusa Gaia que, na altura, vivia com sua avó Éris na escuridão eterna – aí, onde Cronus não poderia encontrar o petiz.

Precisamente!…

Gaia e Eris foram incumbidas de proteger Zeus, o filho mais novo de Cronus, o menino que sobreviveu envolto no sagrado caos.

E a deusa primordial, Éris, a que tudo previa (porque tudo sabia) – percebeu que Zeus iria crescer para se tornar um Deus de topo da hierarquia – logo um deus dominante e supremo.

Éris pensa e repensa e, ao pensar, repensa de novo e… decide que o melhor será matar seu bisneto – Zeus – antes que inicie o seu reinado de terror.

Porém Zeus sobrevive graças à sua avó, a deusa Gaia.

Com efeito, Éris sabia que ao matar o deus-menino teria de destruir o universo e começar tudo do zero. Então, resolveu fazer da vida de Zeus uma farsa e uma tragédia. Faz tudo para subverter a hierarquia e, logicamente, dar uma machadada na falocracia.

Foi o que, realmente, fez. Procurou arruinar a carreira hierárquica do deus no panteão. E Zeus, esse, sentia-se completamente fodido e frustrado.

Zeus cresce e, derruba o pai, liberta seus irmãos mais velhos das entranhas do progenitor, todavia os titãs serão escravizados e subjugados pelos tios e tias. Tais atitudes de Zeus chateiam profundamente sua avó, Gaia. A deusa não podia suportar que seu neto, o deus-menino que tinha protegido, iria provocar tão grandes danos a seus irmãos, os Titãs – filhos de Gaia.

E Gaia gera um último Titã com Pluto – deus do submundo. Nasceu então Typhon o Pai de todos os monstros. E Typhon cavalga com Éris para enfrentar e matar Zeus. Mas Zeus, nessa altura, andava com Nike (Vitória) – donde se infere que naquele dia não poderia ser derrotado. No entanto, Éris acaba por cagar em Zeus.

Com seu poder supremo qual macho dominante, Zeus reescreve a história, a fim de retratar Éris como uma ordinária, uma deusa subordinada.

é nesta altura que Zeus faz crer a todos que Éris não é sua bisavó mas sim, sua filha. (foda-se!… o tipo era um cabrão falocrata).

Hail Eris !!!!!
23.

Mandragora Officinarum

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a constelação de Orión era (segundo consta em vários canhenhos) habitada pelo Deus Osiris, o qual, há milhões de anos padecia de uma doença estranha – o aborrecimento

e

porque nunca tinha tido a oportunidade de se olhar ao espelho, decidiu vir á Terra para se contemplar num dos seus templos

com este objectivo, disfarçou-se de cavaleiro – colocou uma espada na bainha do seu cinto ornado por três pedras preciosas. um capacete e uma couraça, completam a sua indumentária de guerreiro.

mas, porque desejava um companheiro para a viajem, convidou uma estrela vizinha – O Cão – o qual aceita acompanhá-lo.

por seu turno, esta estrela resolve conservar a sua própria figura de cão

e

levar consigo, como amuleto, meia lua de chumbo.

foi assim que se lançaram ambos num voo de séculos a caminho do nosso planeta.

ao aproximarem-se da Terra, o primeiro encontro foi com grandes bandos de pássaros, que chilreando de júbilo, se cruzaram com eles, e saudaram efusivamente Osiris como se se tratasse de um velho amigo. porém, com o cão nada queriam, pois este dava mordidelas, grunhia e tentava matar os que dele se aproximavam.

mas próximo da Terra, grandes nuvens de mosquitos, abelhas e moscardos se aproximaram, respeitando o cavaleiro, enquanto ao pobre cão tratavam de o mortificar sem compaixão.

um pouco mais perto do nosso planeta, o efeito da Lei de Atracção, provocou o descalabro; o cão com a sua lua de chumbo – bem pesada – precipitou-se. até se perder de vista.

Osiris, entretanto, escutava o relato de quantos animais encontrava, a respeito das coisas da Terra.

entretanto a estrela – O Cão – precipitou-se sobre a superfície do planeta com tal violência que se fundiu no solo gritando e pedindo auxílio…

ao ouvir o pedido de socorro, Osiris procura libertar o companheiro, empunha a sua espada e escava desesperadamente.

primeiro, descobre o focinho, logo as orelhas, mais tarde a cabeça, as patas, e por último, o tronco. no fim desta operação, levada a cabo por Osiris, o local ficou repleto de destroços; bocados da espada, carne do animal e sangue…  uma mescla de aço e carne de cão.

então o aço – pertença do Deus –  ali ficou como símbolo do bem

e

a carne no animal, como base do malefício.

conta-se que naquela noite se ergueu nesse lugar um cadafalso onde foi sacrificado um inocente que no momento em que foi levado à forca se urinou de medo. a urina caiu sobre o aço e a carne do cão provocando, assim, o nascimento de uma planta à qual chamaram Osirides. outros, porém, a apelidaram de Mal Canino. Mais tarde, essa mesma planta, foi denominada de Mandrágora.

desde essa altura a medicina ocupa-se desta planta para lhe extrair a parte de Deus, a que cura as enfermidades. porém, a parte do cão destina-se ao lado obscuro…

(a Magia Goética trabalha muito com a Mandrágora).

os curandeiros também obtêm  bons resultados para curar todas as enfermidades dos órgãos sexuais, os rins e, sobretudo, é o remédio por excelência contra os males do baço – e o baço tem grande importância astral.

para nós, a mandrágora é usada apenas para efeitos astrais… ritos que beneficiam as nossas prestações enquanto criadores de acções performativas.

estamos a falar da planta Mandrágora Officinarum. que outros conhecem pelos nomes vulgares de Berenjenilha ou Uva de Mouro (Atropa Mandrágora). esta planta que cresce na península ibérica, em bosques sombrios, junto às correntes de água e em sítios misteriosos onde nunca penetra o Sol. a sua raíz é grossa, longa e esbranquiçada, por vezes dividida em duas partes.

uma porção de folhas ovais e onduladas rodeia a raiz e se estende em círculo pelo solo.

o seu fruto, semelhante a uma pequena maçã, produz um odor desagradável assim como toda a planta.

os campesinos conhecem, ainda que por tradição, o terror que só o nome desta planta despertava nos seus antepassados.

para eles era um vegetal que tinha algo de Ser Humano e as obras de magia indicavam-na como algo excepcional a que é forçoso dispensar culto.

Teofrasto Paracelso diz: Antropomórfosis, Columela, Simili − Homo e Eldal, árvore com cara de homem.

entrava na composição dos Filtros, dos malefícios e em diferentes receitas de feiticeiros.

quando a arrancavam da terra, diziam que o homenzinho encerrado nela lançava gritos horríveis e gemidos agudos.

era preciso colhê-la, debaixo de uma forca, após ritos estranhos.

há uma variedade de Mandrágora conhecida como do género feminino, distingue-se pelas suas folhas pequenas, pelas suas flores púrpuras e seu largo fruto.

uma obra da Idade Média distingue estas variedades, na forma de Homem e Mulher, Adão e Eva, no Paraíso Terreal.

entre as plantas sagradas, a verdadeira Mandrágora, a dos magos, só cresce em abundância nos Himalaias – Tíbet – onde os sacerdotes a cultivan.

Leyendas hay sobre esta planta que llenarían volúmenes. La Biblia la cita en el Génesis en relación con el acto sexual. Josefus, Buda, Confucio y Mahoma, la mencionaban, y todos ellos se preocuparon por ella. La Iglesia cuenta que el Arzobispo Eberhardo murió en el año 1066 debido a un maleficio hecho con esta hierba, y sobre su tumba hay una lápida que hasta hoy mismo es admirada por los turistas donde se relata este hecho. Los concilios, se ocuparon siempre de este asunto y la mayor parte de los procesos de la Inquisición tienen como cuerpo del delito las manipulaciones con Mandrágora.

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ANARCOFÁGICOS

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O mundo é grave, absurdo & inexorável, & carece de Arte & Humor – vitaminas essenciais para suportarmos o tédio existencial. A dimensão intelectual é um arcabouço de imbecilismo, forrada com uma ciência selvática & caduca, atravessada por sistemas filosóficos medíocres & sustentada pelo autoritarismo de autores sacrossantos – Freud, Marx, Kant & outros endeusados pelo fetichismo acadêmico. Faço deste manifesto um convite aos Artistas & Intelectuais a subverter & transgredir este cenário estupidificante.

 Este é um manifesto, sobretudo, pela Arte & pelo Humor.

ventos-anarcofágicos

Se religiões organizadas são o ópio do povo, então religiões desorganizadas são a maconha da turba lunática.
Principia Discordia – Kerry Thornley

 

 

ventos-anarcofágicosOs Anarcofágicos – anarco (relativo a anarquia) & fagia (do grego, phagein: come) – são devoradores de teorias, lógicas, paradigmas & cosmovisões que não adoptam ideologias, valendo-se de teorias provisorias para fragilizar as demais.

 Para além da refutação higienizadora & massiva, os Anarcofágicos entendem que para activar a imaginação, o delírio & o prazer das massas eles devem perfurar a dimensão mais quotidiana da vida humana promovendo: 

a) arte transgressora, como prazerosa alucinação colectiva, & não reduzida a produto, espectáculo, poder de impacto ou militância ideológica; 

b) humor como último argumento contra o tédio existencial, aproveitando a capacidade dele pautar símbolos, reforçar estigmas, criticar comportamentos, derrubar estereótipos & satirizar arquétipos – Zero Mostel disse que “o grau de liberdade que há em qualquer sociedade é directamente proporcional ao riso que nela existe”.

 Theodor Adorno estabeleceu o excêntrico como critério da arte: “a arte é a antítese social da sociedade, & não deve imediatamente deduzir-se desta” & Vladimir Maiakovski atribuiu um carácter construtor à arte: “a arte não é um espelho para reflectir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”. Adorno errou considerando a arte apenas em sua dimensão social & Maiakovski esqueceu do poder de desconstruir da arte, como ilustrou endogenamente Roberto Piva: “arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos”. Esta é a aposta da Arte Anarcofágica.

 

O INTELECTUAL ANARCOFÁGICO

 

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo, sou amplo, vasto, contenho multidões.
Walt Whitman

ventos-anarcofágicosO Intelectual Anarcofágico é multidisciplinar & apela mais para a aparência das argumentações do que as suas consistências lógicas – acreditando que mais vale a beleza das ideias do que a coerência com a realidade absolutizada pela razão, como manifestou Charles Bukowski: “não confio muito nas estatísticas, porque um homem com a cabeça dentro de um forno acesso & os pés no freezer, estatisticamente possui uma temperatura média”.

 As armas de combate dos Anarcofágicos é a Arte Anarcofagica, a Ciência Experimental, o Ensaísmo Lírico & o Humor Contundente.

 Os Anarcofágicos não representam um grupo de esquerda & acreditam que “se a revolução não servir para dançar e rir, não será nossa revolução”, como escreveu Bob Black, um Groucho-Marxista.

 

ARQUI-INIMIGOS E ALIANÇAS

 

1ª Lei Absoluta: PATAFÍSICA- Tudo é decidido pela imaginação e não pela razão.
2ª Lei Não Absoluta: Não encher as caras aos domingos.
Quem quer fazer sentido?
A realidade é relativa;
A Fantasia é bem melhor;
Arte, Poesia e Loucura.
3ª Lei Absoluta: Usar LSD.
4ª Lei Absoluta: Enlouquecer a Política.
5ª Lei Absoluta: Nenhum tipo de censura. Mandar as preposições e a gramática pro inferno!
6ª Lei Absoluta: O que fazer em casos de incêndio? Deixe queimar!
7ª Lei Absoluta: Jogar uma garrafa de conhaque no Delírio Coletivo
8ª Lei Absoluta: DELIRAR.
9ª Lei Absoluta: Assassinar a monotonia causada pela razão.
Leis Absolutas do Delírio Coletivo – Por Fada Verde

ventos-anarcofágicosArqui-inimigos & alianças são deliberações dos Anarcofágicos. Aos arqui-inimigos oferecemos extermínio argumentativo & às alianças oferecemos ajuda apologética de suas bandeiras & causas.

 Os Intelectuais Gramscianos são arqui-inimigos dos Anarcofágicos  –  defendem certos princípios & acreditam dogmaticamente em somente uma forma de mudança social, geralmente doutrinados acriticamente pelos que se dizem críticos. 

O Niilista também é um dos arqui-inimigos dos Anarcofágicos  –  por jogarem cobardemente com a sua existência.

 As alianças são com os Antiproibicionistas  –  entendendo os direitos humanos & os anseios libertários da percepção -, & com os Discordialistas  –  responsáveis por operações como Salve os Anões de Jardins & Mindfuck (criação de uma zona onde a normalidade e o comum sejam suspensos e trocados pelo anormal e incomum).

 

MILITÂNCIA & REIVINDICAÇÕES

 

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.
Manifesto Surrealista – André Breton

ventos-anarcofágicosAs bandeiras & reivindicações são renovadas pelos Anarcofágicos com frequência & cada Anarcofágico tem a liberdade de escolher se vai militar por elas & quais vai adoptar, assim como propor a inclusão de novas.

Os Anarcofágicos defendem a cultura popular, o folclore, o jardinismo da área urbana, a transformação de praças publicas em centros de cultura & arte, as terapias naturais & artísticas, os direitos humanos, o antiproibicionismo, a flexibilidade da língua, o zombar filosófico – “zombar da filosofia é realmente filosofar”, como escreveu Blaise Pascal (1623-1662) -, o culto da percepção & da sensibilidade, a ventilação da arte & a democratização da dimensão artística da vida quotidiana.

 Os Anarcofágicos reivindicam: uma edição higienizada & conservada do Kama Sutra para as próximas gerações, cotas para desenhos infantis que reproduzem músicas clássicas, o fim da avaliação valorativa (de 0 a 10) propondo a promoção das avaliações adjetivas, a proibição moral de dar nós nas sacolas – responsável por significativa carga de stresse da humanidade -, & a liberdade do compositor brasileiro – “aí chegou o gringo com o sequencer para prender o músico brasileiro na camisa-de-força do metonímico 4/4 rock-pop-box.” como escreveu Tom Zé.

 

in: anarcofagia

 
 
 

a verdade – marques de sade

A VERDADE

Versos do Marquês de Sade

 

Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?
Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.
Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.
Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.

o divino marquês

o divino marquês

Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.
De facto ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,
Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós [1]?
Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,
Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido [2],
Que o meu esp’rito jamais teria concebido;
Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objecto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,
Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;
Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.
Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?

Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor [3].
Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.
Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.
Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!
Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranquilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,
Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão. [*]
Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos
E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.

cristo

Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,
Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!
Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende [4].
Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,
Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.
O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos [5].
Essas doces acções a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegítima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;
O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.
Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.
Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima [6].
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz [7]:
Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova
Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.
Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso [8].
Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às acções mais nocivas.
Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.
Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos vê iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.

______________

[1] Avaliam-se em mais de cinquenta milhões de indivíduos as perdas ocasionadas pelas guerras ou massacres de religião. Acaso valerá uma só de entre elas o sangue de uma ave? E não deverá a filosofia deitar mão a todas as armas para exterminar um Deus em prol do qual se imolam tantos seres que valem mais do que ele, pois não há seguramente nenhuma ideia mais estúpida, mais perigosa, mais extravagante, nada mais detestável do que um Deus?

[2] A ideia de um Deus só adveio aos homens quando eles temeram, ou tiveram esperança. A isto apenas devemos atribuir a quase unanimidade dos homens sobre tal quimera. Universalmente infeliz, o homem teve, em todos os lugares e em todos os tempos, motivos de esperança e de temor, e em toda a parte invocou a causa que o atormentava, como em toda a parte esperou pelo fim dos seus males. Demasiado ignorante ou demasiado crédulo para saber que a desdita inevitavelmente anexada à sua existência outra causa não tinha do que a própria natureza dessa existência, ao invocar o ser a quem atribuía essa causa criou quimeras a que renunciou, logo que o estudo e a experiência lhe fizeram sentir a sua inutilidade. O temor fez os deuses e a esperança manteve-os.

[3] O mais ligeiro estudo da natureza convence-nos da eternidade do movimento no seu seio e esse exame atento das suas leis mostra-nos que nada nela perece, que ela continuamente se regenera sob o efeito daquilo que nós julgamos que a ofende ou que parece destruir as suas obras. Ora, se as destruições lhe são necessárias, a morte torna-se uma palavra vazia de sentido: o que há são transmutações e não extinção. Ora a perpetuidade do movimento que existe nela deita abaixo toda a ideia de um motor.

[*] À margem, uma variante que não foi riscada:
Masturbar-me-ia sobre a tua divindade,
Enrabar-te-ia se a tua fraca existência
Oferecesse um cu à minha incontinência;
Meu braço o coração te viria a arrancar
Pra com o meu fundo horror melhor te penetrar.

(Nota de G. Lely)

[4] Entreguemo-nos indistintamente a tudo quanto as paixões nos inspiram e seremos sempre felizes. Desprezemos a opinião dos homens: ela é apenas o fruto dos seus preconceitos. E quanto à nossa consciência, nunca receemos a sua voz quando conseguimos entorpecê-la: o hábito facilmente a reduzirá ao silêncio e não tardará a metamorfosear em prazer as mais desagradáveis recordações. A consciência não é o órgão da natureza; apenas é, não nos ludibriemos, o órgão dos preconceitos; vençamo-los e a consciência ficará às nossas ordens. Interroguemos a consciência do selvagem, perguntemos-lhe se ela lhe censura o que quer que seja. Quando ele mata o seu semelhante e o devora, a natureza parece falar nele; a consciência está muda. Ele concebe o que os parvos chamam crime e executa-o; tudo se cala, tudo está em sossego, ele serviu a natureza mediante a acção que mais agrada a essa natureza sanguinária cujo crime mantém a energia e que só de crimes se alimenta.

[5] E como poderíamos nós ser culpados quando mais não fazemos do que obedecer às impressões da natureza? Os homens e as leis que são obra dos homens podem considerar-nos como tal, mas jamais a natureza. Só se lhe resistíssemos é que poderíamos a seus olhos ser culpados. É esse o único crime possível, o único de que devemos abster-nos.

[6] Demonstrado como está que o crime lhe agrada, o homem que melhor a servirá será necessariamente aquele que der maior extensão ou gravidade aos seus crimes, devendo notar-se que a extensão lhe agrada ainda mais do que a gravidade, pois, apesar da diferença que os homens estabelecem, o assassínio e o parricídio são exactamente a mesma coisa a seus olhos. Mas o que tiver provocado mais desordens no universo agradar-lhe-á muito mais do que aquele que se tiver detido ao primeiro passo. Que esta verdade ponha à vontade os que dão rédea solta às suas paixões e que eles se convençam de que a melhor maneira de servir a natureza é multiplicar as suas perfídias.

[7] Estes gostos só são verdadeiramente úteis e prezados pela natureza enquanto propagarem, enquanto espalharem aquilo a que os homens chamam a desordem. Quanto mais eles cortam, sapam, deterioram, destroem, mais preciosos lhe são. A eterna necessidade que ela tem de destruição serve de prova a esta asserção. Tratemos de destruir, pois, ou de impedir de nascer, se queremos ser úteis aos seus planos. Assim, o masturbador, o assassino, o infanticida, o incendiário, o sodomita, são homens conformes com os desejos dela, aqueles que, por conseguinte, devemos imitar.

[8] Impormo-nos freios ou barreiras na via do crime seria visivelmente ultrapassar as leis da natureza que nos entrega indistintamente todos os seres de que nos rodeia, sem jamais abrir excepções, pois desconhece os nossos laços e cadeias, de modo que as pretensas destruições são nulas a seus olhos, que o irmão que dorme com a irmã não faz pior do que aquele que dorme com a amante e que o pai que imola o filho não ultraja mais a natureza do que o particular que assassina um desconhecido por esses caminhos. A seus olhos não há qualquer diferença dessas; o que ela quer é o crime; não interessa a mão que o comete ou o seio em que é cometido.

hino a Isis

hino a Isis – datado entre os séculos III e IV (AC).

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Porque eu sou a primeira e a última
Eu sou a venerada e a desprezada
Eu sou a prostituta e a santa
Eu sou a esposa e a virgem
Eu sou a mãe e a filha
Eu sou os braços de minha mãe
Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos
Eu sou a bem-casada e a solteira
Eu sou a que dá a luz e a que jamais procriou
Eu sou a esposa e o esposo
E foi meu homem quem me gerou em seu ventre
Eu sou a mãe do meu pai
Sou a irmã de meu marido
E ele é o meu filho rejeitado
Respeitem-me sempre
Porque eu sou a escandalosa e a discreta.