Angelo de Lima do poeta

Ângelo de Lima (1872-1921)

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– Ângelo Vaz Pinto Azevedo Coutinho de Lima, nasceu no Porto a 30 de Julho de 1872.
– Em 1891 e 1892 participou como voluntário numa expedição militar – Moçambique.
– Em Novembro de 1894 – internado no hospital do Conde de Ferreira (Porto) onde permanece até 1898.
– Foi director artístico de «A Geração Nova».
– Em 1900 é internado no Hospital de Rilhafoles (Lisboa) – onde faleceu a 14 de Agosto de 1921
– Foi colaborador da revista Orpheu.

– Além fui – a Ninive da Piedade,
A cidade do Luto singular
E a sepultura da Semi-Ranil…
– E hoje…’stá por Ali, Vaga, a Saudade…
– E anda no Céu Supremo a Eterna Estar…
– E… Passa, às vezes, a Serpente… – Ali…

EU ONTEM OUVI-TE…

Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo,amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.

SONETO

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára m cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

ESTES VERSOS ANTIGOS

Estes versos antigos que eu dizia
Ao compasso que marca o coração
Lembram ainda?… Lembrarão um dia…
— Nas memórias dispersas recolhidas
Sequer na piedosa devoção

De algum livro de cousas esquecidas?
— Acaso o que ora canta… vive… existe
Nunca mais lembrará — eternamente?
E vindo do não ser, vai, finalmente,
Dormir no nada… majestoso e triste?

O MAR

Semelhante a Algum Monstro, Quando Dorme
— O Mar… Era sombrio, Vasto, Enorme…
— Arfando Demorado,
— Imenso sob os Céus!

— Tal Imenso e Sombrio, O Mar Seria
— E assim, Em Vagas Tristes Arfaria
No Tempo EM que o Espírito de Deus
— Sobre Ele era Levado!

OLHOS DE LOBAS

Teus olhos lembram círios
Acesos n’um cemitério…
Dr. Rogério de Barros

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris… Incendiados!…

Como os Clarões Finais… – Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados…
— Nas criptas d’um Jazigo Tumular!…

— Como a Luz que na Noute Misteriosa
— Fantástica – Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausoléu!…

— Mausoléu, das Saudades do Ideal!…

— Oh Saudades… Oh Luz Transcendental!
— Oh memórias saudosas do Ido ao Céu!…

— Oh Pérpetuas Febris!… – Oh Sempre Vivas!…
— Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!…

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