Irei descer Voltarei aos altares

aaa-demo

O tempo chegou – desceremos através da Espiral – a dos Tempos.

O ponto central da espiral, é também a do abismo – do Conhecimento.

O abismo é o caminho que os Adeptos almejam alcançar (deverão passar) – a Grande Cidade das Pirâmides.

Adentrando-nos nesse reino infernal e, caminhando em espiral, poderemos alcançar a capital do reino – para alguns, Infernal.

E esse reino representa (pode representar) a total reestruturação do sistema.

Para tal é necessário que superes as dualidades e te tornes um Mestre.

O Mito da descida, é o caminho. Aquele em que todos, no seu percurso, rumam ao interior do grande ciclo e, logicamente, iniciarão (tomarão em suas mãos) o outro.

São muitos os que nos seguirão.

Está escrito, nos muitos Livros e tal pensamento, patente nas muitas culturas: – uma nova Era surgirá!

Os calendários estão mortos.

Outros serão adoptados.

Outros.

Estruturados noutras frequências. Noutros ritmos.

Os dos Tempo.

Os que provocarão uma outra ordem mental. A que nos convidará seguir a harmonia:

– A da natureza

– A da mente

– A dos ciclos (solar – lunar)…

Reordenaremos a nossa mente.

Valorizaremos o fluxo do calendário lunar, sua tradição iniciática.

Somos os filhos das “bruxas” e “magos” que a cristandade não conseguiu queimar nas suas fogueiras.

Estamos vivos e reivindicamos o regresso da “Grande Roda do Ano” com seus sabat e festividades lunares.

Reivindicamos as práticas da Bruxaria tradicional. A grande FESTA. Uma sociedade humanizada onde a criatividade e a liberdade são a grande chave.

Reivindicamos a absoluta liberdade. A liberdade é una. É um todo.

A liberdade é! – a “liberdade parcelar” não o é!

A liberdade e a criatividade irrompem. Espontaneamente.

Não há (não pode haver) “parcelas” de liberdade.

Há, tão só Liberdade.

É a Liberdade que desejamos. Que reivindicamos.

Quando as estrelas estiverem alinhadas eles voltarão para destruir o mundo. Os “Antigos” transportam consigo os nomes esquecidos e trarão, de novo, os poderes negados ou adormecidos.

Os poderes que residem no nosso interior – os quais não damos conta

Eles voltarão aos altares.

E Eles destruirão os altares.

A liberdade será reconquistada aos tiranos – A Grande Árvore será o nosso trono

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o louco

… os mercadores procedentes dos mais longínquos países, oferecem-nos, no paraíso, produtos exóticos de todo o tipo…
frescas frutas e verduras que, com esmero, os cozinheiros prepararão para nosso repasto
recuperarão as antigas receitas, as que as tribos de antanho já cozinhavam quando dos seus ritos ao Sol
jóias e finas sedas embelezarão nossos corpos
mágicos, actores, e marionetistas exibirão os seus melhores momentos de criatividade
poetas e músicos converterão a viagem ao grande sabat num encantador passeio
e
pronto,

esta introdução ao canhenho de notas do nosso irmão, podemos ficar por aqui. ainda que muito mais pudesse ser dito,
porém, devido ao adiantado da hora…

deixamos este espaço em branco para vossa reflexão

preto 1

porque o silêncio e a alvura do papel são, talvez, dos melhores signos da alegria

claro que sim…

o autor destas linhas, é um dos guerreiros que não nos deixa esquecer que a principal fonte de energia somos nós próprios – a sua obra tem despertado uma intensa emoção em toda a irmandade

que os deuses velem por ele

 S” ¯Å  S” ¯Å

negro2

sabemos que
toda a verdade é relativa
e
que o de antes volta a tornar-se presente graças ao
rito ………………………………………………………….
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……………………………e
regressamos sempre
dominados pela ansiedade de saber
decifrar o oculto

há sempre
algo que se nos escapa
de que necessitamos
e ……………………………………………………….
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…………………………..introduzir
o_fascínio_no_campo_de_manobras
aglutinação .
pôr
do lado de .
do lado de . pôr
aplicações .
e
os objectos
ao tocarem-se transmitem o seu significado .
suas
estratégias de composição .
fragmentos .
adição
versus subtracção .
um
processo
de agregação contínua de materiais,
que de
forma
táctil se fundem .

na acumulação .
na substituição ……………………………………..
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negro-pedras2

………………………….. e
o louco é a
lâmina que abre e fecha o livro (o alfa e o omega)
ele é a transgressão ao estabelecido
não numerado
o louco
é aquela parte de nós
bastante sábia para se extasiar diante do mistério da criação
e
bastante audaz para se lançar à aventura
o louco
conforma-se com uma nova forma de viver a noite
e
tudo começou …………………………………… um dia
muito antes de terem nascido os deuses
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Mandragora Officinarum

mandragora

a constelação de Orión era (segundo consta em vários canhenhos) habitada pelo Deus Osiris, o qual, há milhões de anos padecia de uma doença estranha – o aborrecimento

e

porque nunca tinha tido a oportunidade de se olhar ao espelho, decidiu vir á Terra para se contemplar num dos seus templos

com este objectivo, disfarçou-se de cavaleiro – colocou uma espada na bainha do seu cinto ornado por três pedras preciosas. um capacete e uma couraça, completam a sua indumentária de guerreiro.

mas, porque desejava um companheiro para a viajem, convidou uma estrela vizinha – O Cão – o qual aceita acompanhá-lo.

por seu turno, esta estrela resolve conservar a sua própria figura de cão

e

levar consigo, como amuleto, meia lua de chumbo.

foi assim que se lançaram ambos num voo de séculos a caminho do nosso planeta.

ao aproximarem-se da Terra, o primeiro encontro foi com grandes bandos de pássaros, que chilreando de júbilo, se cruzaram com eles, e saudaram efusivamente Osiris como se se tratasse de um velho amigo. porém, com o cão nada queriam, pois este dava mordidelas, grunhia e tentava matar os que dele se aproximavam.

mas próximo da Terra, grandes nuvens de mosquitos, abelhas e moscardos se aproximaram, respeitando o cavaleiro, enquanto ao pobre cão tratavam de o mortificar sem compaixão.

um pouco mais perto do nosso planeta, o efeito da Lei de Atracção, provocou o descalabro; o cão com a sua lua de chumbo – bem pesada – precipitou-se. até se perder de vista.

Osiris, entretanto, escutava o relato de quantos animais encontrava, a respeito das coisas da Terra.

entretanto a estrela – O Cão – precipitou-se sobre a superfície do planeta com tal violência que se fundiu no solo gritando e pedindo auxílio…

ao ouvir o pedido de socorro, Osiris procura libertar o companheiro, empunha a sua espada e escava desesperadamente.

primeiro, descobre o focinho, logo as orelhas, mais tarde a cabeça, as patas, e por último, o tronco. no fim desta operação, levada a cabo por Osiris, o local ficou repleto de destroços; bocados da espada, carne do animal e sangue…  uma mescla de aço e carne de cão.

então o aço – pertença do Deus –  ali ficou como símbolo do bem

e

a carne no animal, como base do malefício.

conta-se que naquela noite se ergueu nesse lugar um cadafalso onde foi sacrificado um inocente que no momento em que foi levado à forca se urinou de medo. a urina caiu sobre o aço e a carne do cão provocando, assim, o nascimento de uma planta à qual chamaram Osirides. outros, porém, a apelidaram de Mal Canino. Mais tarde, essa mesma planta, foi denominada de Mandrágora.

desde essa altura a medicina ocupa-se desta planta para lhe extrair a parte de Deus, a que cura as enfermidades. porém, a parte do cão destina-se ao lado obscuro…

(a Magia Goética trabalha muito com a Mandrágora).

os curandeiros também obtêm  bons resultados para curar todas as enfermidades dos órgãos sexuais, os rins e, sobretudo, é o remédio por excelência contra os males do baço – e o baço tem grande importância astral.

para nós, a mandrágora é usada apenas para efeitos astrais… ritos que beneficiam as nossas prestações enquanto criadores de acções performativas.

estamos a falar da planta Mandrágora Officinarum. que outros conhecem pelos nomes vulgares de Berenjenilha ou Uva de Mouro (Atropa Mandrágora). esta planta que cresce na península ibérica, em bosques sombrios, junto às correntes de água e em sítios misteriosos onde nunca penetra o Sol. a sua raíz é grossa, longa e esbranquiçada, por vezes dividida em duas partes.

uma porção de folhas ovais e onduladas rodeia a raiz e se estende em círculo pelo solo.

o seu fruto, semelhante a uma pequena maçã, produz um odor desagradável assim como toda a planta.

os campesinos conhecem, ainda que por tradição, o terror que só o nome desta planta despertava nos seus antepassados.

para eles era um vegetal que tinha algo de Ser Humano e as obras de magia indicavam-na como algo excepcional a que é forçoso dispensar culto.

Teofrasto Paracelso diz: Antropomórfosis, Columela, Simili − Homo e Eldal, árvore com cara de homem.

entrava na composição dos Filtros, dos malefícios e em diferentes receitas de feiticeiros.

quando a arrancavam da terra, diziam que o homenzinho encerrado nela lançava gritos horríveis e gemidos agudos.

era preciso colhê-la, debaixo de uma forca, após ritos estranhos.

há uma variedade de Mandrágora conhecida como do género feminino, distingue-se pelas suas folhas pequenas, pelas suas flores púrpuras e seu largo fruto.

uma obra da Idade Média distingue estas variedades, na forma de Homem e Mulher, Adão e Eva, no Paraíso Terreal.

entre as plantas sagradas, a verdadeira Mandrágora, a dos magos, só cresce em abundância nos Himalaias – Tíbet – onde os sacerdotes a cultivan.

Leyendas hay sobre esta planta que llenarían volúmenes. La Biblia la cita en el Génesis en relación con el acto sexual. Josefus, Buda, Confucio y Mahoma, la mencionaban, y todos ellos se preocuparon por ella. La Iglesia cuenta que el Arzobispo Eberhardo murió en el año 1066 debido a un maleficio hecho con esta hierba, y sobre su tumba hay una lápida que hasta hoy mismo es admirada por los turistas donde se relata este hecho. Los concilios, se ocuparon siempre de este asunto y la mayor parte de los procesos de la Inquisición tienen como cuerpo del delito las manipulaciones con Mandrágora.

do mito, do rito e a deusa nossa

deusa

é facto
estamos unidos  tal como os grãos de areia
e
continuaremos
enquanto os nossos objectivos permanecerem em harmonia
é que a nossa obra não pode – jamais – ser levada a cabo sem
o entendimento
o dos nossos cúmplices
só ele (entendimento) permitirá que no interior dos nossos templos exista aquela tendência – tão natural e tão praticada – para os cismas
daí se infere que a nossa obra não pode – jamais – ser levada a sério
(ou pode?)
a fé não é racional, é emocional
os crentes reagem emocionalmente quando a sua fé é contestada
precisamente
é que no fundo… lá no fundo de suas mentes, sabem que acreditam num mito e têm medo de que a sua crença desabe na presença da lógica
seguindo este raciocínio…
poderemos dizer: – é por isso que as diferenças religiosas levam à guerra, mas nunca (por exemplo) à aritmética
e
quanto menor a evidência – a que existe – a favor de uma ideia…
maior a paixão
maior a violência
para nós…
para nós é o cisma que interessa
o cisma
cada um de nós é um cisma e, muitas vezes – cisma do cisma
ou… talvez, nem cisma sejamos
por não crentes
por navegarmos alegremente a uma distância considerável daquilo em que os outros crêem
e
que chamam fé
não há fé
há sonhos a fervilhar no caldeirão do bruxo ou bruxa —> que somos nós <— nós somos, mesmo, bruxos
feiticeiros/magos/artistas
em processo e progresso
e
soltamos gargalhadas inflamadas pelo gozo
o gozo de estar vivo – aqui e agora
é que sabemos que a nossa deusa – a ser falsa – é menos falsa que os deuses dos outros
precisamente
porquê?
pela simples razão de que os outros (deuses) sobrevivem no imaginário das gentes à custa da fé
da fé dessas gentes
e a nossa deusa existe, mesmo, no nosso imaginário
uma vez que a nossa deusa é obra nossa
é arte…
a nossa deusa vive à margem de qualquer fé…!
porque nós
não temos fé nenhuma…
 

 

anarcofagia

 

 

ANARCOFÁGICOS

ventos-anarcofágicos

O mundo é grave, absurdo & inexorável, & carece de Arte & Humor – vitaminas essenciais para suportarmos o tédio existencial. A dimensão intelectual é um arcabouço de imbecilismo, forrada com uma ciência selvática & caduca, atravessada por sistemas filosóficos medíocres & sustentada pelo autoritarismo de autores sacrossantos – Freud, Marx, Kant & outros endeusados pelo fetichismo acadêmico. Faço deste manifesto um convite aos Artistas & Intelectuais a subverter & transgredir este cenário estupidificante.

 Este é um manifesto, sobretudo, pela Arte & pelo Humor.

ventos-anarcofágicos

Se religiões organizadas são o ópio do povo, então religiões desorganizadas são a maconha da turba lunática.
Principia Discordia – Kerry Thornley

 

 

ventos-anarcofágicosOs Anarcofágicos – anarco (relativo a anarquia) & fagia (do grego, phagein: come) – são devoradores de teorias, lógicas, paradigmas & cosmovisões que não adoptam ideologias, valendo-se de teorias provisorias para fragilizar as demais.

 Para além da refutação higienizadora & massiva, os Anarcofágicos entendem que para activar a imaginação, o delírio & o prazer das massas eles devem perfurar a dimensão mais quotidiana da vida humana promovendo: 

a) arte transgressora, como prazerosa alucinação colectiva, & não reduzida a produto, espectáculo, poder de impacto ou militância ideológica; 

b) humor como último argumento contra o tédio existencial, aproveitando a capacidade dele pautar símbolos, reforçar estigmas, criticar comportamentos, derrubar estereótipos & satirizar arquétipos – Zero Mostel disse que “o grau de liberdade que há em qualquer sociedade é directamente proporcional ao riso que nela existe”.

 Theodor Adorno estabeleceu o excêntrico como critério da arte: “a arte é a antítese social da sociedade, & não deve imediatamente deduzir-se desta” & Vladimir Maiakovski atribuiu um carácter construtor à arte: “a arte não é um espelho para reflectir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”. Adorno errou considerando a arte apenas em sua dimensão social & Maiakovski esqueceu do poder de desconstruir da arte, como ilustrou endogenamente Roberto Piva: “arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos”. Esta é a aposta da Arte Anarcofágica.

 

O INTELECTUAL ANARCOFÁGICO

 

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo, sou amplo, vasto, contenho multidões.
Walt Whitman

ventos-anarcofágicosO Intelectual Anarcofágico é multidisciplinar & apela mais para a aparência das argumentações do que as suas consistências lógicas – acreditando que mais vale a beleza das ideias do que a coerência com a realidade absolutizada pela razão, como manifestou Charles Bukowski: “não confio muito nas estatísticas, porque um homem com a cabeça dentro de um forno acesso & os pés no freezer, estatisticamente possui uma temperatura média”.

 As armas de combate dos Anarcofágicos é a Arte Anarcofagica, a Ciência Experimental, o Ensaísmo Lírico & o Humor Contundente.

 Os Anarcofágicos não representam um grupo de esquerda & acreditam que “se a revolução não servir para dançar e rir, não será nossa revolução”, como escreveu Bob Black, um Groucho-Marxista.

 

ARQUI-INIMIGOS E ALIANÇAS

 

1ª Lei Absoluta: PATAFÍSICA- Tudo é decidido pela imaginação e não pela razão.
2ª Lei Não Absoluta: Não encher as caras aos domingos.
Quem quer fazer sentido?
A realidade é relativa;
A Fantasia é bem melhor;
Arte, Poesia e Loucura.
3ª Lei Absoluta: Usar LSD.
4ª Lei Absoluta: Enlouquecer a Política.
5ª Lei Absoluta: Nenhum tipo de censura. Mandar as preposições e a gramática pro inferno!
6ª Lei Absoluta: O que fazer em casos de incêndio? Deixe queimar!
7ª Lei Absoluta: Jogar uma garrafa de conhaque no Delírio Coletivo
8ª Lei Absoluta: DELIRAR.
9ª Lei Absoluta: Assassinar a monotonia causada pela razão.
Leis Absolutas do Delírio Coletivo – Por Fada Verde

ventos-anarcofágicosArqui-inimigos & alianças são deliberações dos Anarcofágicos. Aos arqui-inimigos oferecemos extermínio argumentativo & às alianças oferecemos ajuda apologética de suas bandeiras & causas.

 Os Intelectuais Gramscianos são arqui-inimigos dos Anarcofágicos  –  defendem certos princípios & acreditam dogmaticamente em somente uma forma de mudança social, geralmente doutrinados acriticamente pelos que se dizem críticos. 

O Niilista também é um dos arqui-inimigos dos Anarcofágicos  –  por jogarem cobardemente com a sua existência.

 As alianças são com os Antiproibicionistas  –  entendendo os direitos humanos & os anseios libertários da percepção -, & com os Discordialistas  –  responsáveis por operações como Salve os Anões de Jardins & Mindfuck (criação de uma zona onde a normalidade e o comum sejam suspensos e trocados pelo anormal e incomum).

 

MILITÂNCIA & REIVINDICAÇÕES

 

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.
Manifesto Surrealista – André Breton

ventos-anarcofágicosAs bandeiras & reivindicações são renovadas pelos Anarcofágicos com frequência & cada Anarcofágico tem a liberdade de escolher se vai militar por elas & quais vai adoptar, assim como propor a inclusão de novas.

Os Anarcofágicos defendem a cultura popular, o folclore, o jardinismo da área urbana, a transformação de praças publicas em centros de cultura & arte, as terapias naturais & artísticas, os direitos humanos, o antiproibicionismo, a flexibilidade da língua, o zombar filosófico – “zombar da filosofia é realmente filosofar”, como escreveu Blaise Pascal (1623-1662) -, o culto da percepção & da sensibilidade, a ventilação da arte & a democratização da dimensão artística da vida quotidiana.

 Os Anarcofágicos reivindicam: uma edição higienizada & conservada do Kama Sutra para as próximas gerações, cotas para desenhos infantis que reproduzem músicas clássicas, o fim da avaliação valorativa (de 0 a 10) propondo a promoção das avaliações adjetivas, a proibição moral de dar nós nas sacolas – responsável por significativa carga de stresse da humanidade -, & a liberdade do compositor brasileiro – “aí chegou o gringo com o sequencer para prender o músico brasileiro na camisa-de-força do metonímico 4/4 rock-pop-box.” como escreveu Tom Zé.

 

in: anarcofagia

 
 
 

librum verbis templum

librum verbis templum (Fragmentum mare non inveni)

ou das Palavras – as do Supremum Dominum

.’. frater carbono IV

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as oito lâminas do Início – as do Louco

I. O louco pensa. Fala – com o que não vê

II. Os deuses morreram e Ele percorre os bosques em demanda

III. Ao deserto chega a pergunta – a d’Ele

IV.  E Ele transporta a carta – A que lhe foi dada

V. Aí está escrito com tinta eminentemente mágica: – amo-te, amo-te, amo-te. És o sol das minhas manhãs, amo-te como nunca

VI. E ele amou-se porque se descobriu

VII. Ele é o perfume dos deuses, o surpreendido

VIII. Ele é a unidade. É ele próprio, É. É Ele – o que nele se projecta e, É. É o seu corpo-templo

horda1

A crisálida – A mariposa regressou ao casulo (oito lâminas)

I. A distante melodia, é o rito do princípio e do fim

II. Mas não há fim, há um outro começar

III. E o louco disse: O Teu perfume marca o nascimento do meu corpo e o meu corpo é o teu corpo

IV. O centro és tu. Tu abres e fechas o ciclo

V. De ti nasci em ti faleço. o teu corpo é o meu corpo

VI. Eu amo-te secretamente com o estômago prenhe de borboletas

VII. Eu, no abismo, medito em ti e questiono-te. Questiono-te porque me questiono

VIII. Eu e Tu somos o fim porque somos o princípio – de tudo. O meu corpo é o templo em que habito

Eu sou a verdade porque sou o deus que reconheço e reconhecendo, reconheço-te

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O antes e o após – a semente (três lâminas)

I. Com as primeiras chuvas a romã abrir-se-à e das suas sementes irrompem os “De Antes” – os que voltarão do interior do mago

II. Eu sou a besta, Tu és o Universo – ainda que o não digas, eu sei – sinto como a tua língua corre sobre a minha, e a minha pela tua

é delicioso

é excitante

muito foi o tempo assim. e agarraste a cintura da luz. A de uma outra lua –  e tiraste, lenta, a camisa

III. Estás de pé e só. No meio do nada. As palavras do bem e do mal são doces.

não pares!

e seguiste

e segui

e sentimo-nos morrer e renascer por aí.

Somos as borboletas negras que pousam sobre nós – próprios. Somos porque continuaremos a ser – Seremos

 horda4

Junto à fonte (uma lâmina)

 I. Tu és o Meu Mestre porque Eu Sou o Mestre – Vejo-te e vejo-me como um deus junto à fonte. E digo: no nada busco o tudo. Tudo é um nada e do nada nasce o desejo em silêncio.

A horda dos “De Antes” virá.

Digo que voltará. Eu sei que voltará.

.’. frater carbono IV

LIBER LIBERI VEL LAPIDIS LAZULI

LIBER LIBERI VEL LAPIDIS LAZULI


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ADUMBRATIO KABBALÆ Æ GYPTIORUM

Sendo: A Emancipação Voluntária de certo Adeptus Exemptus de seu Adeptado. – (Estas são as Palavras de Nascimento de um Magister Templi).

PRÓLOGO DO NÃO NASCIDO

 

1. À minha solidão chega –

2. O som de uma flauta em bosques obscuros que se encontram nos montes mais distantes.

3. Mesmo do bravo rio, eles atingem a borda do deserto.

4. E Eu vejo Pan.

5. As neves são eternas acima, acima –

6. E o perfume delas fumega para o alto até as narinas das estrelas.

7. Mas o que Eu tenho a ver com isto?

8. Para mim, somente a flauta distante, a duradoura visão de Pan.

9. Em todos os lados, Pan para o olho, para o ouvido;

10. O perfume de Pan penetrando, o gosto dele enchendo completamente a minha boca, de modo que a língua irrompe num idioma monstruoso e estranho.

11. O abraço dele intenso em todo centro de prazer e dor.

12. O sexto sentido interior se inflama com Seu ser mais íntimo;

13. Eu mesmo arremessado ao precipício do ser.

14. Mesmo ao abismo, aniquilação.

15. Um fim para a solidão, como para tudo.

16. Pan! Pan! Io Pan! Io Pan!

 salvação2

I

 

1. Meu Deus, como Eu Te amo!

2. Com o apetite veemente de uma besta, Eu Te busco pelo Universo.

3. Tu estás de pé como se estivesses sobre um pináculo no limite de alguma cidade fortificada.

Eu sou um pássaro branco e me empoleiro sobre Ti.

4. Tu és o Meu Amante: Eu Te vejo como uma ninfa com seus membros brancos estendidos junto à fonte.

5. Ela está deitada sobre o musgo; não há ninguém mais que não ela:

6. Não és Tu Pan?

7. Eu sou Ele. Não fales, Ó meu Deus! Que o trabalho seja realizado em silêncio.

8. Que meu grito de dor se cristalize num pequeno fauno branco em fuga para o interior da floresta!

9. Tu és um centauro, Oh meu Deus, dos brotos de violeta que Te coroam até aos cascos do cavalo.

10. Tu és mais duro que o aço temperado; não há diamante igual a Ti.

11. Eu não danifiquei este corpo, esta alma?

12. Eu te cortejo com uma adaga passada pela minha garganta.

13. Que o jorro de sangue sacie Tua sede de sangue, Ó meu Deus!

14. Tu és um coelhinho branco na toca da Noite.

15. Eu sou maior que a raposa e o buraco.

16. Dá-me Teus beijos, Ó Senhor Deus!

17. O relâmpago veio e lambeu o pequeno rebanho de ovelhas.

18. Há uma língua e uma flama; e Eu vejo aquele tridente caminhando sobre o mar.

19. Uma fênix o tem – como cabeça; por baixo, há dois dentes. Eles perfuram os maus.

20. Eu Te perfurarei, Ó Tu, deusinho cinza, a não ser que Tu te protejas!

21. Do cinza ao ouro; do ouro àquilo que está além do ouro de Ofir.

22. Meu Deus! mas Eu Te amo!

23. Porquê sussurraste tantas coisas ambíguas? Estavas com medo, Ó Tu, de pés-de-bode, Ó Tu, chifrudo, Ó pilar de relâmpago?

24. Do relâmpago caem pérolas; das pérolas, partículas negras de um nada.

25. Eu reduzi o tudo em um, o um em nada.

26. Flutuando no éter, Ó meu Deus, meu Deus!

27. Ó Tu, grande sol de glória encoberto, corta estas pálpebras!

28. A natureza morrerá; ela me esconde, fechando minhas pálpebras com medo, esconde-me da Minha destruição, Ó Tu, olho aberto.

29. Ó, O sempre choroso!

30. Nem Ísis, minha mãe, nem Osíris, Eu mesmo; mas o incestuoso Hórus, entregando-se a Tifon, assim seja Eu!

31. Há pensamento; e pensamento é mal.

32. Pan! Pan! Io Pan! é bastante.

33. Não caias na morte, Ó minha alma! Pensa que a morte é a cama na qual estás caído!

34. Ó, como Eu Te amo, Ó meu Deus! Especialmente há uma veemente luz paralela do infinito, difamada de modo vil na névoa desta mente.

35. Eu Te amo. Eu te amo. Eu te amo.

36. Tu és uma coisa bela, mais branca que uma mulher na coluna desta vibração.

37. E Eu me lanço verticalmente como uma flecha e me torno Aquilo que está acima.

38. Mas isto é morte, e a chama da pira.

39. Ascende na chama da pira, Ó minha alma! Teu Deus é como o frio vazio do extremo céu, no qual tu irradias tua luz.

40. Quando Tu me conheceres, Ó Deus vazio, minha chama expirará completamente em Teu grande N.O.X.

41. O que Tu serás, meu Deus, quando Eu deixar de Te amar?

42. Um verme, um nada, um velhaco desprezível.

43. Mas Oh! Eu Te amo.

44. Eu atirei um milhão de flores da cesta do Além aos Teus pés, Eu te ungi e ao Teu Cajado com óleo, sangue e beijos.

45. Eu acendi Teu mármore para a vida – sim! E para a morte.

46. Eu fui golpeado com o vapor da Tua boca, que nunca bebe vinho, mas vida.

47. Como o orvalho do Universo embranquece os lábios!

48. Ah! piscante fluxo das estrelas da mãe, vai-te!

49. Eu Sou Ela, a que deve vir, a Virgem de todos os homens.

50. Eu sou um menino diante de Ti, Ó Deus sátiro.

51. Tu infligirás a punição do prazer. Agora! Agora! Agora!

52. Io Pan! Io Pan! Eu Te amo. Eu Te amo.

53. Ó meu Deus, poupa-me!

54. Agora! Está feito! Morte.

55. Eu gritei alto a palavra – e ela foi um potente encanto para atar o Invisível, um encantamento para desatar o atado; sim para desatar o atado

 principe_4

II

 

1. Ó meu Deus! usa-me Tu, de novo, sempre. Para sempre! Para sempre!

2. Aquilo que veio fogo de Ti, vem água de mim; portanto, que Teu Espírito se aposse de mim, para que minha mão direita solte o relâmpago.

3. Viajando pelo espaço, Eu vi o ataque de duas galáxias, gozando uma e outra como touros se corneando sobre a terra. E Eu estava com medo.

4. Elas cessaram a luta e voltaram-se contra mim, e Eu fui esmagado e dilacerado.

5. Eu preferiria ter sido calcado pelo Elefante do Mundo.

6. Ó, meu Deus! Tu és minha pequenina tartaruga de estimação!

7. Porém, Tu sustentas o Elefante do Mundo.

8. Eu rastejo sob tua carapaça, como um amante na cama de sua bela; Eu rastejo para o interior e sento-me no Teu coração, por menor e mais apertado que possa ser.

9. Tu me abrigas, e Eu não ouço o toque da trombeta daquele Elefante do Mundo.

10. Tu não vales um óbolo na praça de mercado; no entanto, Tu não podes ser comprado pelo valor de todo o Universo.

11. Tu és como uma bela escrava Núbia, inclinando sua púrpura nua contra os verdes pilares de mármore que estão acima dos banhos.

12. Vinho jorra de seus negros mamilos.

13. Eu bebi vinho há pouco tempo na casa de Pertinax. O escanção favoreceu-me, e deu-me do dulcíssimo Chian.

14. Havia um jovem Dórico, perito em feitos de força, um atleta. A lua cheia desapareceu com raiva por baixo das ruínas. Ah! mas nós rimos.

15. Eu fiquei perniciosamente bêbedo . Ó meu Deus! Porém, Pertinax levou-me às bodas.

16. Eu tive uma coroa de espinhos como único dote.

17. Tu és como um chifre do bode de Astor, Ó Tu, Deus meu, áspero e retorcido e diabolicamente forte.

18. Mais frio que todo o gelo de todos os glaciares da Montanha Nua foi o vinho que ele derramou em mim.

19. Um país selvagem e uma lua minguante. Nuvens correndo pelo céu. Um círculo de pinheiros, e de altos seixos além. Tu no meio!

20. Ó, todos vós, sapos e gatos, alegrai-vos! Vós, coisas gosmentas, vinde aqui!

21. Dançai, dançai para o Senhor nosso Deus!

22. Ele é ele! Ele é ele! Ele é ele!

23. Porquê Eu? Para quê deveria prosseguir?

24. Porquê? Porquê? Vem o cacarejo súbito de um milhão de pequenos seres infernais.

25. E o riso alastra-se.

26. Mas não afecta o Universo; não faz tremer as estrelas.

27. Deus! Como Eu Te amo!

28. Eu estou no asilo; todos os homens e mulheres em volta são insanos.

29. Oh loucura! Oh loucura! Desejável és tu!

30. Mas Eu Te amo, Ó Deus!

31. Estes homens e mulheres deliram e uivam; eles espumam o absurdo.

32. E Eu começo a sentir medo. Não tenho controle; Estou só. Só. Só.

33. Pensa, Ó Deus, como Eu sou feliz envolto no Teu amor.

34. Ó, Pan de mármore! Ó, falsa face maligna! Eu amo Teus beijos escuros, sangrentos e mal cheirosos! Ó, Pan de mármore! Teus beijos são como a luz do sol no Egeu azul; teu sangue é o sangue do poente sobre Atenas; teu mau cheiro é como um jardim de Rosas da Macedônia.

35. Eu sonhei com poente, e rosas, e vinhedos; Tu estavas lá, Ó meu Deus, Tu Te disfarçaste como uma cortesã de Atenas, e Eu Te amei.

36. Tu não és um sonho, Ó Tu, tão belo, tanto para o sono como para a vigília!

37. Eu disperso as pessoas insanas da terra; Eu caminho sozinho com meus fantoches no jardim.

38. Eu sou grande como Gargantua: aquela galáxia é apenas o anel de fumo do meu incenso.

39. Queima Tu ervas estranhas, Ó Deus!

40. Fermentai-me um licor mágico, rapazes, com vossos olhares!

41. A própria alma está bêbeda .

42. Tu estás bêbedo , Ó meu Deus, com os meus beijos.

43. O Universo vacila; com o Teu olhar.

44. Duas vezes, e tudo está feito.

45. Vem, Ó meu Deus, e abracemo-nos!

46. Preguiçosamente, esfomeadamente, ardentemente, pacientemente; assim Eu te amarei.

47. Haverá um Fim.

48. Ó Deus! Ó Deus!

49. Eu sou um louco por Te amar, Tu és cruel, Tu não Te conténs.

50. Vem a mim agora! Eu Te amo! Eu Te amo!

51. Ó meu querido, meu querido – Beija-me! Beija-me! Ah! Uma vez mais.

52. Sono, toma-me! Morte, toma-me! Esta vida é por demais cheia; ela dói, ela mata, ela basta.

53. Que Eu volte para o mundo; sim, volte para o mundo.

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III

 

1. Eu fui o sacerdote de Ammon-Ra no seu templo de Thebai.

2. Mas Baco veio e, cantando com suas tropas de fémeas vestidas com folhas de vinha e mantos escuros; e Baco no meio como um fauno!

3. Deus! A minha raiva dispersou o coro!

4. Mas no meu templo permaneceu Baco como verdadeiro sacerdote de Ammon-Ra.

5. Então, Eu fui com as mulheres à Abissínia; e lá moramos e e lá nos divertimos.

6. Excessos? sim. Prazer? sim!

7. Eu comerei o fruto maduro e também o verde pela glória de Baco.

8. Terraços de azevinho e fileiras de ônix e opalas e sardônia levando até o fresco portal verde de malaquita.

9. Dentro há uma concha de cristal, na forma de uma ostra. Ó, glória de Príapo! Ó, beatitude da Grande Deusa!

10. Ali dentro, há uma pérola.

11. Ó, Pérola! Tu vieste da majestade do terrível Ammon-Ra.

12. Então Eu, o sacerdote, vi um brilho firme no coração da pérola.

13. Tão vivo que não podíamos olhar! Mas vede! Uma rosa cor-de-sangue sobre uma cruz de ouro fulgente!

14. Assim Eu adorei o Deus. Baco! tu és o amante de meu Deus!

15. Eu, que fui o sacerdote de Ammon-Ra, o que viu o Nilo correr por muitas luas, por muitas, muitas luas, sou o jovem fauno da terra cinza.

16. Eu estabelecerei minha dança em vossos conventículos, e meus amores secretos serão doces entre vós.

17. Tu terás um amante entre os senhores da terra cinza.

18. Ele o trará para ti, nem tudo é em vão: a vida de um homem derramada sobre o teu amor. Sobre Meus Altares.

19. Amén.

20. Que seja logo, Ó Deus, meu Deus! Eu sofro por Ti, Eu vagueio por entre os loucos, na terra cinza da desolação.

21. Tu levantarás a abominável Coisa solitária da maldade. Oh alegria! vem enterrar aquela pedra fundamental!

22. Ela permanecerá ereta sobre a montanha alta; apenas o meu Deus comungará com ela.

23. Eu a construirei a partir de um rubi único; e Ela será vista de bem longe.

24. Vem! irritemos os vasos da terra: eles destilarão vinho estranho.

25. Cresce sob minha mão: e ela cobrirá todo o céu.

26. Tu estás atrás de mim: Eu grito com a alegria de um louco.

27. Então disse Ituriel, o forte: adoremos Nós também esta maravilha invisível!

28. Assim fizeram, e os arcanjos cobriram o céu.

29. Estranho e místico, como um sacerdote amarelo invocando fortes revoadas de grandes pássaros cinzentos do Norte, assim estou. De pé e Te invoco!

30. Que elas não obscureçam o sol com suas asas e seu clamor!

31. Retirem-se na forma e no seu cortejo!

32. Eu permaneço.

33. Tu és como uma águia marinha no arrozal, Eu sou o grande pelicano vermelho nas águas do poente.

34. Eu sou como um eunuco negro; e Tu és a cimitarra. Eu decepo a cabeça do leviano, do que devora o pão e o sal.

35. Sim, Eu decepo e o sangue faz como se fosse um pôr do sol no lápis-lazuli do Quarto de dormir do Rei.

36. Eu decepo. O mundo inteiro é quebrado num forte vendaval, e uma voz faz-se ouvir, forte, numa língua que os homens não podem falar.

37. Eu conheço aquele horrível som de alegria primeva; sigamos nas asas da ventania, até à casa santa de Hator; ofereçamos as cinco jóias da vaca sobre o seu altar!

38. De novo a voz inumana!

39. Eu ergo minha massa de Titã nos dentes da ventania, e golpeio e prevaleço, e lanço-me sobre o mar.

40. Lá está um estranho Deus pálido, um deus de dor e de maldade mortal.

41. Minha própria alma morde-se a si mesma, como um escorpião cercado de fogo.

42. Aquele pálido Deus de face cuidadosa, aquele Deus de subtileza e riso, aquele jovem Deus Dórico, a ele Eu servirei.

43. Pois o fim daquilo é o tormento (o que não prenunciarás).

Melhor a solidão do grande mar de cinza! Mas aflição recaia sobre a gente da terra cinzenta, meu Deus!

46. Deixai-me sufocá-los com minhas rosas!

47. Oh Tu, Deus delicioso, o do sorriso sinistro!

48. Eu te colho, Ó meu Deus, como uma ameixa púrpura sobre uma árvore. Como Tu te dissolves em minha boca, Tu, consagrado açúcar das Estrelas!

49. O mundo é todo cinza diante dos meus olhos: é como um velho odre de vinho já usado. Todo o vinho está sobre estes lábios.

51. Tu me geraste sobre uma Estátua de mármore, Ó meu Deus!

52. O corpo está gelado com o frio de um milhão de luas; é mais duro que o diamante da eternidade. Como prosseguirei até a Luz?

53. Tu és Ele, Ó Deus! Ó meu querido! Minha criança! Meu brinquedo! Tu és como um enxame de donzelas, como uma multidão de cisnes sobre o lago.

54. Eu sinto a essência da maciez.

55. Eu sou duro, e forte, e másculo; mas vem Tu! Eu serei macio, e fraco, e feminino.

56. Tu me esmagarás no lagar de vinho do Teu amor. Meu sangue tingirá Teus pés ardentes com litanias de Amor em Angústia.

57. Haverá uma nova flor nos campos, uma nova vindima nos vinhedos.

58. As abelhas colherão um novo mel; os poetas cantarão uma nova canção.

59. Eu ganharei a Dor do Bode como meu prêmio; e o Deus que se senta sobre os ombros do Tempo balbuciará palavras ilegíveis.

60. Então tudo o que está escrito será realizado; sim, será realizado.

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IV

 

1. Eu sou como uma donzela que se banha numa clara poça de água fresca.

2. Ó meu Deus! Eu Te vejo escuro e desejável que, subindo nas águas, é como uma fumaça dourada.

3. Tu és completamente dourado, o cabelo e as sobrancelhas e a face brilhante; das pontas dos dedos às pontas dos artelhos, Tu és um rosado sonho de ouro.

4. No fundo dos Teus olhos dourados, a minha alma pula, como um arcanjo ameaçando o sol.

5. Minha espada Te atravessa e atravessa as luas cristalinas que escoam lentamente do Teu belo corpo, o que está escondido atrás das ovais de Teus olhos.

6. Mais fundo, sempre mais fundo. Eu caio, como o Universo cai no abismo de Anos.

7. Pois a Eternidade chama – a do Sobremundo – nos chama  e a Palavra espera-nos.

8. Acaba com a palavra, Ó Deus! Crava as presas do cão da Eternidade nesta minha garganta!

9. Eu sou como um pássaro ferido voando em círculos.

10. Quem sabe onde vou Eu cair?

11. Ó Abençoado! Ó Deus! Ó meu devorador!

12. Deixa-me cair, precipitar-me, afastar-me, longe e só!

13. Deixa-me cair!

14. Não haverá qualquer descanso, Coração Doce, salvo no berço do régio Baco, na coxa do Mais Sagrado.

15. Lá descanso, sob o dossel da noite.

16. Urano censurou Eros; Marsyas censurou Olympia; Eu censuro meu belo amante com a sua juba de raios de sol; não cantarei?

17. Meus encantamentos não me trarão a maravilhosa companhia dos deuses da selva, seus corpos luzindo com o unguento do luar, do mel, da mirra?

18. Adoráveis sois vós, Ó meus amantes; avancemos para o vale mais sombrio!

19. Lá festejaremos sobre mandrágoras e sobre alhos mágicos! Lá O amável nos estenderá Seu santo banquete.

20. Nos bolos castanhos de trigo, provaremos a comida do mundo, e seremos fortes.

21. Na rubra e medonha taça da morte, nós beberemos o sangue do mundo, e ficaremos bêbedos !

22. Ohé! uma canção a Iao, uma canção a Iao!

23. Vem, cantemos para ti, Iacchus invisível, Iacchus triunfante, Iacchus indivisível!

24. Iacchus, Ó Iacchus, Ó Iacchus, fica perto de nós!

25. Então a face de todo o tempo foi escurecida, e a verdadeira luz se exibiu.

26. Houve também um certo grito numa língua desconhecida, cuja estridência perturbou as águas quietas de minha alma, minha mente e meu corpo foram curados da doença que padeciam; o auto-conhecimento.

27. Sim, um anjo perturbou as águas.

28. Este foi o seu grito: IIIOOShBTh-IO-IIIIAMAMThIBI-II

29. Nem Eu cantei isso mil vezes por noite por mil noites antes que viesses, Ó meu Deus flamejante, que me perfuraste com Tua lança. Teu robe escarlate cobriu o céu e os Deuses disseram: Tudo está queimado; é o fim.

30. Também Tu puseste teus lábios na ferida e sugaste um milhão de ovos. E Tua mãe sentou-se sobre eles, e vê!

31. Estrelas e estrelas e Coisas – das quais as estrelas são tão só átomos.

32. Então Eu Te percebi, Ó meu Deus, sentado como um gato branco sobre a tripeça do porto; e o zumbido dos mundos giratórios era apenas o Teu prazer. Ó, gato branco, as faíscas voam do Teu pelo! Tu crepitas e partes os mundos.

33. Eu vi mais de Ti no gato branco do que vi quando da Visão dos Æons.

34. No bote de Ra, Eu viajei, mas nunca encontrei sobre o Universo visível qualquer ser como Tu!

35. Tu eras como um cavalo branco alado, e Eu Te fiz correr pela eternidade contra o Senhor dos Deuses.

36. É desta forma que ainda corremos!

37. Tu eras como um floco de neve caindo nos bosques de pinheiros.

38. Num instante Tu te evaporaste no deserto. O que é parecido é diferente.

39. Mas Eu vi o belo Deus atrás de uma névoa, Tu eras Ele!

40. Também Eu li num grande Livro.

41. Sobre antigo pergaminho estava escrito em letras de ouro: Verbum fit Verbum.

42. Também Vitriol e o nome do hierofante,

V.V.V.V.V.

43. Tudo isto girava em bolas de fogo, de fogo estelar, raro e longínquo e completamente solitário, – assim como Tu e Eu. Ó alma desolada, meu Deus!

44. Sim, e a escrita,

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E a voz que fez estremecer a terra.

45. Oito vezes ele gritou bem alto, e por oito e mais oito Eu contarei Teus favores, Oh Deus Undécuplo 418!

46. Sim, e por muito mais; pelas dez nas vinte e duas direcções; assim como a perpendicular da Pirâmide e assim Teus favores serão.

47. Se Eu os numero, eles são o Um.

48. Excelente é o Teu amor, Oh Senhor! Tu és revelado pela escuridão e por aquele que tacteia no horror dos bosques. O que Te pegará alegremente, como a uma cobra que agarra um pequeno pássaro.

49. Eu Te peguei, Ó meu tordo macio; Eu sou como um falcão de esmeralda-mãe; Eu pego-Te por instinto, apesar de meus olhos falharem diante da Tua glória.

50. Porém, eles são apenas gente. Gente diminuída. Eu apenas os vejo sobre a areia amarela, estão vestidos de púrpura de Tiro.

51. Eles atraem o seu Deus brilhante para a terra – com o auxilio de redes; eles preparam o fogo para o Senhor do Fogo, e gritam palavras profanas, inclusive a medonha maldição: Amri maratza, maratza, atmam deona Lastadza maratza maritza – marán!

52. E cozinham o deus brilhante, e o engolem por inteiro.

53. Esta é gente má, Ó belo menino lindo! passemos ao Outro mundo.

54. Tornemo-nos uma isca agradável e de forma sedutora!

55. Eu serei como uma esplêndida mulher nua com seios de marfim e mamilos dourados; meu corpo será como o leite das estrelas. Eu serei lustrosa e grega, uma cortesã de Delos, da Ilha instável.

56. Tu serás como um pequeno verme rubro no anzol.

57. Mas tu e Eu pescaremos os nossos peixes.

58. Então serás Tu um peixe brilhante de costas douradas e barriga prateada: Eu serei como um belo homem violento, mais forte que duas vintena de touros, um homem do Oeste que carrega um esplêndido saco de jóias preciosas. Estarei debruçado sobre um cajado sobre o eixo do todo.

59. E o peixe será sacrificado a Ti, e o homem forte crucificado para mim, e Tu e Eu nos beijaremos, e repararemos o erro do Princípio; sim, o erro do princípio.

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V

 

 

1. Ó meu belo Deus! Eu nado no Teu coração como uma truta na torrente da montanha.

2. Eu pulo de poça em poça em minha alegria; Eu sou belo. Visto uma túnica castanha bordada a ouro e prata.

3. Ora, Eu sou mais formoso que os bosques ruivos de outono após a queda da primeira neve.

4. E a caverna de cristal, a do meu pensamento é mais formosa que Eu.

5. Apenas um anzol me pode apanhar; ele é uma mulher ajoelhada à margem da corrente. É ela que derrama o orvalho brilhante sobre si e na areia, de forma a que o rio jorre.

6. Há um pássaro naquele mirto; apenas a canção daquele pássaro me pode tirar da poça que se forma no Teu coração, Ó meu Deus!

7. Quem é este menino Napolitano que ri e e se enche felicidade? Seu amante é a poderosa cratera da Montanha de Fogo. Eu vi seus membros queimados ao descer as encostas numa furtiva língua de pedra líquida.

8. E Oh! o canto da cigarra!

9. Eu lembro-me dos dias em que fui cacique no México.

10. Ó meu Deus, eras Tu então, como agora, o meu belo amante!

11. Foi minha mocidade então, como agora, Teu brinquedo, Tua alegria?

12. Em verdade, Eu me lembro daqueles dias férreos.

13. Lembro-me de como inundávamos os lagos amargos com nossa torrente de ouro; como afundávamos a imagem preciosa na cratera de Citlaltepetl.

14. Como a boa chama nos elevou até às terras baixas, deixando-nos na floresta impenetrável.

15. Sim, Tu eras um estranho pássaro escarlate com um bico de ouro. Eu fui Teu parceiro nas florestas da terra baixa; e sempre ouvíamos de longe o canto agudo de sacerdotes mutilados e o clamor insano do Sacrifício de Donzelas.

16. Havia um esquisito Deus alado que nos falava de sua sabedoria.

17. Nós conseguimos tornar-nos grãos brilhantes na poeira dourada das areias do lento rio.

18. Sim, e aquele rio era o rio do espaço e do tempo.

19. Nós nos separamos ali; sempre para o menor, sempre para o maior, até que, Ó doce Deus, nós somos nós próprios, os mesmos.

20. Ó meu Deus! Tu és como um jovem bode branco que dispara relâmpagos de seus cornos!

21. Eu Te amo, Eu Te amo.

22. Todo o alento, toda a palavra, todo o pensamento, todo o acto é um gesto de amor quando Contigo.

23. A batida do meu coração é o pêndulo do amor.

24. Minhas canções são suspiros leves:

25. Meus pensamentos são verdadeiro êxtase:

26. E meus actos são as miríades de Tuas crianças, as estrelas e os átomos.

27. Que nada exista!

28. Que todas as coisas caiam neste oceano de amor!

29. Seja esta devoção um potente encantamento para exorcizar os demónios dos Cinco!

30. Ah Deus, tudo se foi! Tu consumiste Teu êxtase. Falútli! Falútli!

31. Há uma solenidade no silêncio. Não existe mais voz.

32. Assim será até o fim.

33. Nós, que fomos pó, nunca cairemos no pó. Assim será.

34. Então, Ó meu Deus, o sopro do Jardim de Especiarias terá um sabor adverso.

35. O cone é cortado por um raio infinito; a curva da existência hiperbólica surge no ser.

36. Mais e mais longe flutuaremos; porém estamos parados. É a corrente dos sistemas que cai bem longe de nós.

37. Primeiro cai o mundo enlouquecido; o mundo da antiga terra cinza.

38. Cai de forma inimaginável. Cai longe, com sua tristonha face barbada e, presidindo eu à queda; vejo-o desaparecer em silêncio e dor.

39. Nós, em silêncio e alegria. A face é a risonha face de Eros.

40. Sorrindo o saudamos com os sinais secretos.

41. Ele nos conduz ao Palácio Invertido.

42. Lá está o Coração de Sangue, uma pirâmide com seu ápice para baixo tocando o além do Erro do Princípio.

43. Enterra-me na Tua Glória, Ó amado, Ó amante principesco desta donzela prostituta, dentro da mais Secreta Câmara do Palácio!

44. Isto é feito rápido; sim, o selo é aposto sobre a cripta.

45. Há um que conseguirá abri-la.

46. Nem pela memória, nem pela imaginação, nem pela oração, nem pelo jejum, nem pelo flagelo, nem pelas drogas, nem por ritual, nem pela meditação; – ele valerá só

pelo amor passivo.

47. Ele esperará pela espada do Amado, e despirá sua garganta para o golpe.

48. Então seu sangue jorrará e me escreverá runas no céu; sim, escrever-me-á runas no céu.

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VI

 

1. Tu eras uma sacerdotisa, Ó meu Deus, entre os Druidas; e nós conhecíamos os poderes do carvalho.

2. Nós construímos um templo de pedras na forma do Universo, como era tua prática e Eu escondido.

3. Realizámos muitas coisas maravilhosas à meia-noite.

4. Pela lua minguante trabalhámos.

5. Sobre a planície veio o terrível uivo de lobos.

6. Nós respondemos; Caçamos com a alcateia.

7. Chegámos mesmo à Capela nova e Tu levaste o Santo Graal sob Tuas vestimentas de Druida.

8. Secretamente e às escondidas, bebemos do sacramento informador.

9. Então uma terrível enfermidade se apoderou da gente da terra cinza; e nós nos regozijámos.

10. Ó meu Deus, disfarça Tua glória!

11. Vem como um ladrão, e roubemos os Sacramentos!

12. Em nossos bosques, em nossas celas de claustro, em nosso favo de alegria, bebamos, bebamos!

13. É o vinho que tinge todas as coisas com a verdadeira tintura do infalível ouro.

14. Há profundos segredos nestas canções; não basta ouvir o pássaro; para apreciar a canção, ele deve ser o pássaro.

15. E Eu sou o pássaro, e Tu és minha canção, Ó meu glorioso Deus galopante!

16. Tu puxas as rédeas das estrelas; tu guias as constelações sete a sete pelo círculo do Nada.

17. Tu, Deus Gladiador!

18. Eu toco minha harpa, Tu lutas contra as bestas e as flamas.

19. Tu tomas Tua alegria na música, e Eu na luta.

20. Tu e Eu somos queridos do Imperador.

21. Vê? ele nos chamou ao palanque imperial. A noite cai; é uma grande orgia de adoração e de gozo.

22. A noite cai como um manto reluzente dos ombros de um príncipe sobre um escravo.

23. Ele se ergue como um homem livre!

24. Joga tu, Ó profeta, o manto sobre estes escravos!

25. Uma grande noite, e fogos escassos dentro dela; mas liberdade para o escravo que a glória dela cercará.

26. Assim, também Eu desci à grande cidade triste.

27. Lá a morta Messalina trocava sua coroa pelo veneno da morta Locusta; lá estava Calígula, e golpeava os mares de esquecimento.

28. Quem eras Tu, Oh César, Tu, que percebias Deus num cavalo?

29. Pois vê! nós contemplamos o Cavalo Branco dos Saxões gravado sobre a terra; e nós contemplamos os Cavalos do mar que flamejam em volta da velha terra cinza, e a espuma das suas narinas nos ilumina!

30. Ah! mas Eu te amo, Deus!

31. Tu és como uma lua sobre o mundo de gelo.

32. Tu és como a aurora das mais extremas neves sobre as planícies secas da terra do tigre.

33. Pelo silêncio e pela fala Eu Te adoro.

34. Mas é tudo em vão.

35. Só valem Teu silêncio e Tua fala que me adoram.

36. Lamentai-vos, Ó vós, gente da terra cinza, pois nós bebemos vosso vinho, e vos deixamos apenas os excrementos amargos.

37. Porém, destes, nós vos distilaremos um licor além do néctar dos Deuses.

38. Há valor em nossa tintura para um mundo de Especiaria e ouro.

39. Pois nosso pó vermelho de projecção está além de todas as possibilidades.

40. Há poucos homens; há bastantes.

41. Estaremos cheios de escanções, e o vinho não é racionado.

42. Ó querido, meu Deus! que festa que Tu proporcionaste.

43. Vede as luzes e as flores e as donzelas!

44. Provai dos vinhos, dos bolos e das carnes esplêndidas!

45. Aspirai os perfumes e as nuvens de pequenos deuses como ninfas dos bosques que habitam as nossas narinas!

46. Senti com vosso corpo inteiro a maciez gloriosa do mármore frio e o calor generoso do sol e dos escravos!

47. Que o Invisível informe toda a devoradora Luz do seu vigor destrutivo!

48. Sim! todo o mundo é separado em dois, como uma velha árvore devorada pelo relâmpago!

49. Vinde, Ó deuses, e que nós vos festejemos.

50. Tu, Ó meu querido, Ó meu incessante Deus-Pardal, meu deleite, meu desejo, meu enganador, vem Tu e segreda na minha mão direita!

51. Este foi o conto da memória de Al A’in, o sacerdote; sim, de Al A’in, o sacerdote.

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VII

 

 

1. Pela queima do incenso, foi a Palavra revelada, e pela droga distante.

2. Ó farinha e mel e óleo! Ó bela bandeira da lua, que ela pendura no centro da felicidade!

3. Estes afrouxam as ataduras do cadáver; estes desatam os pés de Osíris, para que o Deus flamejante possa bramar pelo firmamento com sua lança fantástica.

4. Mas de puro mármore negro é a estátua triste, e a imutável dor dos olhos é amarga para os cegos.

5. Nós compreendemos o êxtase daquele mármore mexido, despedaçado pelas dores do parto da criança coroada, a vara dourada do Deus dourado.

6. Nós sabemos por que tudo está oculto na pedra, dentro do caixão, dentro do poderoso sepulcro, e nós também responderemos Olalám! Imál! Tutúlu! como está escrito no livro antigo.

7. Três palavras daquele livro são como a vida para um novo æon; nenhum deus leu tudo.

8. Mas Tu e Eu, Ó Deus, o escrevemos, página por página.

9. A nossa via é a undécupla, a leitura da palavra Undécupla.

10. Estas sete letras juntas fazem sete palavras diversas; cada palavra é divina e sete sentenças estão aí escondidas.

11. Tu és a Palavra, Ó meu querido, meu senhor, meu mestre!

12. Ó vem a mim, mistura o fogo e a água, tudo se dissolverá.

 

13. Eu Te espero no sono, na vigília. Eu não mais Te invoco; pois Tu estás em mim, Ó Tu, que me transformaste num belo instrumento afinado para o Teu êxtase.

14. Porém Tu estás sempre apartado, tal como Eu.

15. Lembro-me de um certo dia santo no ocaso do ano, no ocaso do Equinócio de Osíris, quando primeiro Eu Te contemplei de forma especial; quando a pavorosa questão foi decidida em luta; quando a cabeça-de-Íbis afastou a discórdia com seu encantamento.

16. Eu me lembro do Teu primeiro beijo, assim como uma donzela se lembraria. Nem nos atalhos escuros havia outro; Teus beijos permanecem.

17. Não existe outro ao Teu lado em todo o Universo que o Amor.

18. Meu Deus, Eu Te amo, a Ti bode de chifres dourados!

19. Tu, belo touro de Ápis! Tu, bela serpente de Apep! Tu, bela criança da Deusa Prenhe!

20. Tu mal Te mexeste em Teu sono, Ó antigo sofrimento dos anos! Tu levantaste Tua cabeça para golpear, e tudo foi dissolvido no Abismo de Glória.

21. Um fim para as letras das palavras! Um fim para a séptupla fala.

22. Resolve-me a maravilha de tudo isso na figura de um rápido camelo magro e em largas passadas sobre a areia.

23. Solitário é ele, e abominável; porém ganhou a coroa.

24. Oh regozijai-vos! regozijai-vos!

25. Meu Deus! Ó meu Deus! Eu sou apenas uma partícula no pó estelar das idades; Eu sou o Mestre do Segredo das Coisas.

26. Eu sou o Revelador e o Preparador. Minha é a espada – e a Mitra e a Baqueta Alada!

27. Eu sou o Iniciador e o Destruidor. Meu é o Globo – e o Pássaro Bennu e o Lótus de Ísis, minha filha!

 

28. Eu sou o Único além destes todos, e Eu carrego os símbolos da poderosa escuridão.

29. Haverá um sigilo como o de um vasto, negro, atormentado oceano de morte, e o brilho central da escuridão, radiando na noite sobre tudo.

30. Isto engolirá aquela escuridão menor.

31. Mas, naquele profundo, quem responderá: O que é?

32. Não Eu.

33. Não Tu, Ó Deus!

34. Vem, não mais arrazoemos juntos; aproveitemos! Que nós sejamos nós mesmos, silenciosos, únicos, apartados.

35. Ó bosques solitários do mundo! Em que recessos escondereis nosso amor?

36. A floresta de lanças do Altíssimo é chamada Noite,  Hades e o Dia de Cólera; mas Eu sou Seu capitão, e carrego Sua taça.

37. Não me temais com meus lanceiros! Eles chacinarão os demónios, com suas presas mesquinhas. Vós sereis livres.

38. Ah, escravos! vós não quereis – vós não sabeis como querer.

39. Porém a música das minhas lanças será uma canção de liberdade.

40. Um grande pássaro voltará do Abismo da Alegria, e vos carregará para serdes meus escanções.

41. Vem, Ó meu Deus; que, em um último êxtase, nós atinjamos a União com os Muitos!

42. No silêncio das Coisas, na Noite das Forças, além do amaldiçoado domínio das Três, que nós aproveitemos o nosso amor!

43. Meu querido! Meu querido! para longe, para longe, além da Assembleia, e da Lei, e da Iluminação, para uma Anarquia de Solitude e Escuridão!

44. Pois assim mesmo devemos velar o brilho de nosso Ser.

45. Meu querido! Meu querido!

46. Ó meu Deus, mas o amor em Mim explode sobre os laços do Espaço e do Tempo; meu amor é derramado entre aqueles que não amam o amor.

47. Meu vinho é derramado sobre aqueles que nunca provaram vinho.

48. Os fumos dele os intoxicará, e o vigor do meu amor gerará poderosas crianças de suas donzelas.

49. Sim! sem bebida, sem abraço: – e a Voz respondeu Sim! estas coisas serão.

50. Então, Eu busquei uma Palavra para Mim Mesmo; não, para mim mesmo.

51. E a Palavra veio: Ó Tu! que estejas bem. A nada atentes! Eu Te amo! Eu Te amo!

52. Portanto Eu tive fé até ao fim de tudo; sim, até ao fim de tudo.

 

tradutor: desconhecido – adaptação: confraria da alfarroba

 

sonho e realidade III

 

o clássico anarquismo afirma-se no combate à coroa e à igreja

afirma-se, portanto, igualitário e… ateísta

mas o rei passou a transportar o rótulo de anarquista. e… o padre, qual mago de circo, tirou já, da cartola, o rótulo de herege. o dueto não deixa espaço ao político, ao democrata, ao socialista – esses, não sentem a música porque não têm ritmo…

o terrorista e o monarca são arquétipos… os outros são meros funcionários.

o tempo em que o anarquista e o rei se estrangulavam numa esplêndida batalha, passou. os dois estão, agora, relegados ao caixote de lixo dos nossos computadores – não passam de meras curiosidades de um passado que rebuscamos no google. eles eram os dois rostos de janus – a unidade. e… o sonho de uma razão. outra…

eles são os monstros mais desejados. talvez – também – desejosos.

é o anarquista/rei que nos move. é o homem/deus que nos faz dançar ao ritmo pausado de um rito mágico e presidido por uma divindade que habita os nossos mais fantásticos sonhos e… nossas fantasias – as que os outros chamam utopias – precisamente: “o estado sou eu”…

agarra-o e… segura-o.