o lixo decididamente um luxo

lixo

o lixo é um luxo (ou de uma reflexão para um manifesto quase poétiCU/artístiCU)

alucinante é o ritmo dos anúncios-lâmina as aves exóticas vibram encontros de fazer eriçar cabelos e cada parte do seu corpo se envolve na mente com harmoniosos sons próximos mui próximos da demência e nos limites da pele ele olha para ela para melhor entender como se sente bem quando dança nos olhos dos transeuntes então como bom ladrão de incautos cegos executa no teclado moinhos e odes dedilhadas delicadas e dedicadas aos rouxinóis é nesse momento que transcreve algumas letras separadas convenientemente para que  o espetáculo se assemelhe a um desfile de anjos reflectidos nos olhos claros e no sorriso inocente mas a desonestidade prevalece nos quadris quentes e isso ajuda a mover-se sobre os seus pecados vibrantes e hipnóticos para dizer – eu vi e caí sobre mil resistências que doce é o aroma da sedução – com um sorriso doce provoca-a e convida-a à dança sensual e deixa-se envolver junto à antecâmara dos violoncelos pelas suas mentiras
o

o fluxo laminar deixou-se cair sobre as chaves homero pro- punha-se nesse momento reconstruir sobre as ruínas a cidade bombardeada após aprofundada análise das obras de arte ocidental e de uma série de glyphs gravados na pele das vítimas o desenhador da coisa era um arquitecto da comissão das obras municipais foi ele quem pintou um burro para o andor da procissão que para o efeito usou uma impressora que transpirava poemas em linha e uma série de pausas cujo comprimento e cumprimento seria determinado através da formatação de códigos muito precisos em seguida registou um guincho guinado para o lado de fora que se movia no papel seguiu-se a reprodução do ruído e foram igualmente transcritas belas músicas com o auxilio da sua própria voz compôs também um texto que reconhece as palavras e ob- jectos tridimensionais inscritos no espaço-tempo os quais pre- tendem desatar os textos num tour de force mas nem sempre fazem uso de caracteres do alfabeto grego e tão pouco escapam aos parágrafos desenhados ao longo dos discursos sem fundo e tão pouco tecto o artista salientou ainda que o mundo é na verdade uma complexa alegoria digital onde os escritos poéticos serão sempre alvo de consulta por via de forças magnéticas emitidas por investimentos precisos
as

lixo-4

as consoantes que circulam não são mais que consoantes as vogais é que são outra coisa mais colorida coisa arquivada na memória do tempo coisa devidamente estudada pelo menino arthur sentado sobre os lençóis manchados pelos restos de uma noite de sexo numa qualquer pensão de paris há todavia pensou ele notas de era uma vez que emanam magnetismo e um certo odor a filosofia e também a velhos jornais vendidos em caixas de cartão nas ruas a vida só poderá ser devidamente contemplada do alto dos moinhos de vento mas antes há um conjunto de instruções a cumprir claro que são úteis e não podem jamais ser descoradas para que melhor seja cumprida a sua real limpeza-a-seco e como é evidente só assim os devotos alcançarão com o olhar o sudário sagrado e nos poderão responder a questões que urge descodificar
as

as línguas zumbem na cabeça com secretas palavras qualquer peça que escreva exclui a escrita é assim como um remover de todas as especificidades e convertê-las em ambiguidades é como incendiar os dias por necessidade e é ainda ordenar o que segue e o que segue não é mais que uma verificação e confirmação do absoluto a língua será a resposta evasiva ou um endereçar de intenções é portanto como escrever uma mensagem à baleia mais próxima e sonharem-se áfricas em carne viva e é também muitas vezes o manter do todo sobre um beijo usado num sigilo mágico depois é só achar a raiz quadrada de uma gaita-de-foles ou de um pedaço de papel ou mesmo de um número escolhido aleatoriamente para se poder deixar o rolo de papel gerir todas as questões que possam ser levantadas só então nos resta submergir no teclado da máquina de escrever e soltar um grande soluço em branco o objecto resultante seguirá o seu caminho a trote – nem mais – como é bom cavalgar um secador de cabelo armado de globos oculares escreve-me um soneto com os restos do cianeto e deixa-me mergulhar nessa caixa de ar verde que escondes na varanda
uma

uma voz — come as batatas e bebe o chá – era tão só uma paisagem manchada por documentos uma dor que sobrevoa- va o quarto não é necessariamente mas possivelmente será o espaço que ela pode ocupar nas páginas deste romance que aborda os últimos dias de sua vida assim como o que poderia ter feito antes do seu desaparecimento é também um extraordinário guia de monumentos inexistentes encontrados em algum casebre no centro da cidade em algum lugar obscuro sim mas nós sabemos o que queremos dizer e ilustrar nós sa- bemos e este é o caso todas as missivas rabiscadas nas nossas esquizofrénicas folhas de vidro poderão vir a ser soletradas de acordo com uma fonética concebida com o auxilio desinteressado de um software específico e desenvolvido por estudiosos da área da patafísica assim sendo resta-nos afirmar que a paisagem não é mais que isso mesmo uma paisagem pintada com café por uma grande artista sobra-nos a tarefa de lhe atribuir um título e claro publicar a coisa que gravámos nos seus ossos ressequidos um breve epitáfio onde como é lógico não nos esqueceremos de referir os seus notáveis dotes literá- rios porém o odor fétido a comida de gato não vem ao caso tal facto singir-se-à a pequenas notas nas bordas laterais do seu livro não mais que isso
na

lixeiras

na e da mesma forma – a dúvida aparentemente pressupõe um conceito de certeza e se assim for a não-referencialidade pressupõe o conhecimento do referencial mas será que quero sequer saber disso que poderá importar tal conceito quando as páginas do livro não estão devidamente baralhadas as pá- ginas a páginas tantas não deverão estar ligadas e não estando revelarão o escrito com maior facilidade daí se infere que é realmente importante baralhar as páginas de um livro as páginas devem ser soltas devem sentir-se libertas em plena liber- dade sem qualquer referência numérica é facto – as páginas cumprem melhor a sua função de página se permitirem leitu- ras aleatórias a poesis reivindica hoje isso mesmo a destruição do círculo dos signos e dos símbolos
portanto

portanto a borda do oceano é a praia e as gaivotas as ondas o cheiro a sal ou a algas o brilho do sol na água tudo isso é a paisagem que anteriormente foi dito ter sido desenhada com café ou seja – qualquer coisa que digamos de forma descriti- va é na melhor das hipóteses parcial construímos assim uma outra estética ou mesmo linguagem produzida por todos movida por nossas próprias chaves as nossas muitas chaves escolhidas num qualquer momento e de forma aleatória com este molho de chaves poremos a máquina a funcionar a escrever e antes mesmo de começar com a cabeça entre as mãos poderemos parir um lindo romance e viajar no tempo que surge et voilá assistiremos ao desenlace dos mil e um objectos do nosso desejo só então poderemos recuar e atingir o início ou avançar vertiginosamente só então o nosso livro soltará página por página até que fiquemos sem papéis no andor ou mesmo no andar o importante é disparar em linha recta
e

e falar ou andar sobre rolamentos de esferas ou mesmo escrever um soneto contemplando uma outra paisagem ou não escrever e com as pontas dos olhos atingir sem aviso outras histórias por exemplo – uma noite imaginada no cabaret voltaire – para quê contemplar aquilo que o inferno é ou dizem ser se o conhecemos tão bem precisamente ao procurar viver o nosso quotidiano encalhamos forçosamente nesse maldito ruído faz já parte da nossa bagagem e para quê calcular a diferença entre volumes de ar deslocados por uma camisa limpa e bem passada por um ferro de vapor ou pela mesma camisa quando enrugada e suja sim para quê fazer um filme sobre uma nave espacial embrulhada em redes de cabelo quando o mais importante é promover o desemprego e destruir escolas de formação para fabulosas profissões obsoletas a questão é mes- mo essa todavia uma pergunta – será que não estais cansados de ser carrascos de vós próprios
então

então e decididamente não leio o mundo leio sim pelo prazer do acto o de ler uma outra escrita diferente – uma linguagem de uma só consoante de uma única vogal um urro em coro  e em vários tons em fuga consciente de toda a informação empacotada de palavras acolchoada em discursos empalhados – há que fazer um certo borbulhar nas mentes tendo em conta que há uma visão a cumprir a que vemos antes mesmo de vermos – pouco é o que sabemos sobre laranjas antes de termos comido a primeira
alguns

alguns argumentam contra-necessidades e reforçam a tecla – para as artes – todavia afirmam que há excepções para a coisa escrita dizem que sendo um suporte do verbal teremos neces- sariamente de responder com o verbal será que isso significa – paira nas suas mentes – que a linguagem e a imagem são meios cativos da sua especificidade – não são – entrementes os membros da velha “ordem” desafiam as estéticas alheias e perguntam – alguém pode escrever para não “comunicar” a resposta é um enorme nós é um argumento nosso apreender e experimentar outras linguagens afinar os sentidos através delas (linguagens) usá-las como simples meio para disparar sobre o fim esse é o seu uso o desejado pensamos nós e artistas há que tentam justificar essas experiências as da “não-comunicação” como uma forma de alienação como um discurso burguês “vazio” não como  uma  linguagem vivida a que ultrapassa qualquer exercício ou uma linguagem não realizada tais argumentações limitam não só a  coisa –  mas  a liberdade e espontaneidade de quem está no terreno não iluminam os espaços perante tal constatação para eles agreste respondem apenas e invariavelmente – não entendo
ou

 

ou isto ou aquilo ou nem isto nem sequer aquilo ou um guer- reiro no vazio cósmico encharcado em água de bruxas deferindo despachos de subvenção contemplando actos criativos o importante é prestar atenção a quem está por trás da cortina a manipular a coisa ou coisas ou simplesmente escrever comentários numa rede social e a arranhar o entre-espaço dos quadros de celulóide do último filme afinal a linguagem é em primeiro lugar uma questão política e uma vez escrita esta frase com uma caneta de tinteiro (permanente) não fará mais sentido qualquer outra uma vez que a cultura da destruição pode e deve sempre provocar danos nas chuvas transversais como diria um poeta do nosso burgo o objectivo nestas coisas é o agitar de mãos como desenharia um qualquer futurista italiano ou até russo num pedaço de papel para depois usar a imagem resultante na produção de janelas de bairros sociais ou e também escrever um belo romance sobre romãs podendo ou não trocar fotos de andorinhas a recitar manifestos comunistas muitos usam também pregos para pendurar pala- vras ou máquinas de costura e até um qualquer guarda-chuva em actividade considerada ilegal

porquê o “lixo é um luxo” nota a propósito e despropósito para o leitor menos atento

a questão aqui prende-se ao ritmo não mais que isso depois de jantar disparava sobre a máquina de escrever – era antiga e pesada – que repousava sobre a mesa da cozinha digitava ou escrevia furiosamente – uma escrita doce e quase automática

– até à hora de ir para a cama mais tarde o escrever passou  a rito nocturno – até que chegasse o dia – mas ultimamente escrevo em cadernos por longos períodos sobretudo quando viajo de comboio se isso te aborrece dirige-te ao frigorifico   e soletra todos os poemas da secção de congelados e volta    a encher o espaço com os comestíveis e bebidas correspondentes em alternativa poderás humanizar as partes que estão livres com coisas tuas os escritos devem consistir em nada um grande nada ou nada mais que sinais de pontuação (sempre em falta como terás verificado) e isto apenas para provar que existem poemas líricos e bolas de neve no deserto nada mais a assinalar para além de sugerir que imagines um amontoado de livros encontrados por acaso no fundo do refrigerador

nota final e importante – nunca te sirvas do micro-ondas

Anúncios

crocodarium editora apresenta-vos o kaos

queremos uma acção em que o corpo se exprima livremente e conquiste espaços de actuação que, no seu todo, possam vir a reflectir a dinâmica de um objecto estético em movimento
(sem história e sem estórias)

DA DESTRUIÇÃO

“A paixão pela destruição é uma paixão criativa”
in: “Estado e Anarquia” de Mikhail Bakunine

destrição2

a cultura e seus rituaisde absorção, de apropriação e de todos os impulsos críticos que podem interferir com o nosso quotidiano de miséria.

experimentemos a destruição…

destruir é, com efeito, um acto poético – um verdadeiro acto de criação – e há que devolver à arte o seu papel;
o da criatividade e da espontaneidade.

os nossos impulsos mais destrutivos e agressivos podem, até devem, ser base de (ou canalizados para) acções e experiências poéticas/dramáticas/pictóricas/sonoras – e ao “domar” essas forças maravilhosas e suas incríveis possibilidades contribuímos
cada vez mais
cada vez mais
cada vez mais
cada vez mais
para uma arte que será – sempre e como deve – efémera.

será um empurrar a arte para fora dessa passividade doméstica – esse apêndice apelidado de “cultural” agrilhoado a um sistema mercantil vazio.
completamente vazio.

a arte não é, não pode ser, um cartaz político. a arte é, isso sim, um acto espontaneísta
parte integrante do próprio processo de criação.

a defesa de uma estética destrutiva – desejada – pode ser o símbolo.

a destruição por mais subtil (ou mesmo extrema) desempenha um papel dominante no nosso quotidiano;
violenta-nos, é a razão de nossas dores, nossas úlceras, nossos assassinatos, nossos suicídios…
o rito – aqui – é, tão só, o ofertar o resultado das nossas destruições num grande cerimonial estético – e seremos nós mesmos resgatados
ao colapso “civilizacional”.

destruição

o espiritual tem sido historicamente objectivo e  território da arte.
as religiões usam e abusam da arte para se aproximarem do terreno
a arte deve fazer crescer o espectador ou pelo menos recordar coisas para além do visual e do terreno.

 

ACÇÃO ISOLADA I – sala de recepção com objectos vários. o público é convidado ao acto destrutivo – roupas, revistas, jornais, televisões, aparelhos de rádio e outros símbolos identificadores do consumismo instituído deverão ser alvos de pesquisa, manipulação e consequente destruição por parte dos intervenientes > um público activo e disponível para actuar de forma eficaz no acto (espontâneo). o resultado da acção é, de facto, poético. um grande acto poético (caótico) feito por todos.

ACÇÃO ISOLADA II – projecções audio-visuais do antes e do depois da intervenção. de máquinas em funcionamento (máquina de lavar roupa que “vomita” ondas de espuma vermelha (sangue), máquinas manuais de costura a actuar sobre largas tiras de tecido, betoneiras a derramar “massa” de cimento, montes de jornais e revistas em chamas, estendais de roupa sobre os quais personagens actuam com fogo, tintas, objectos cortantes, etc.).

esta acção privilegia, portanto, experiências no campo da “arte-destruição” multi-dimensional e, porque não, multi-sensual onde nos apercebemos dos nossos impulsos destrutivos e agressivos através de acções em arquivo ou captadas no momento da acção I

ACÇÃO FINAL – os espectadores – actuantes das duas acções anteriores são encaminhados para um segundo espaço.

espaço vazio – apenas sete painéis ou panos/papeis brancos nas paredes;

som – sons vários resultantes de gravações captadas no quotidiano (transito, máquinas várias, vozes imperceptíveis, comboios, gritos, grupos de adeptos desportivos, etc.);

equipamento – câmera de vídeo, projector, stroblight, aparelhagem sonora, projectores ou boa iluminação

destruição

 ACTO PRIMEIRO (da dimensão pictórica do corpo e não só) – quando os espectadores entram no espaço, apenas estarão presentes um “performer” e um operador de câmera. o performer deverá estar nu. entrará uma terceira figura com recipientes que deverão conter tinta (de uma ou mais cores) – despeja-os sobre o corpo do performer.

a terceira figura mantém-se no espaço > senta-se e, de um saco, retira um espelho e maquilhagem. inicia o seu ritual – o da pintura do rosto. após isso, levanta-se e sai. regressa com um alguidar e um balde de água. volta a sair, depois de pousar os adereços no palco. regressa com um banco (ou cadeira). deita a água no alguidar, descalça-se e senta-se. mergulha os pés no recipiente. constrói um barco de papel e coloca-o na água. passados alguns minutos de contemplação, destruirá o barco com os pés – num acto de raiva.

a captação da actividade da figura feminina (derrame da(s) tinta(s) e destruição do barco de papel) é fundamental – a câmera deverá estar ligada ao projector de vídeo de forma a que o acto possa ser visto (outro ângulo) numa das paredes da sala – no caso de haver mais projectores, seria interessante contemplar mais de uma das paredes – início do movimento

ACTO SEGUNDO (a dimensão pictórica do espaço – o corpo impresso no espaço) – o performer movimenta-se, de forma rítmica, ao encontro dos sete  painéis fixos na parede e, sobre eles, imprime o seu corpo coberto pelos pigmentos de cor (de frente, de costas, lateral esquerdo e direito, mãos, pés…) – início de movimentos vertiginosos 

ACTO TERCEIRO (a dimensão rítmica no espaço – a luz) – a máquina de lavar roupa jorra espuma vermelha (sangue), os braços agitados do performer iniciam um ritmo cada vez mais desesperado, os participantes tornaram-se parte da respiração… o batimento cardíaco será cada vez mais forte – como se tudo tivesse penetrado o cérebro. explosões, esmagamento de pequenos objetos lançados no chão, cheiro a incenso, luz intermitente dos stroblight, velas distribuídas aos espectadores, cheiros vários numa mescla (explosiva)…

os participantes mais uma vez se tornam espectadores e a destruição afirma-se como uma sublime realidade – serve as tradições humanistas fundamentais.

A Cidade de Palaguin

img_220454261_1393768088_abig

Na cidade de Palaguin
o dinheiro corrente era olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da porta para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicílio.
Havia pobres a aceitar como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.

Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
– a população banhava-se frequentes vezes.

Na cidade de Palaguin
havia Havia HAVIA…

Três vezes nove um milhão.

__________

Carlos Eurico da Costa, in ‘A Cidade de Palaguin’

Invocation a la Momie Antonin Artaud

artaud7

Invocation à la Momie (Antonin Artaud)

 

 

Ces narines d’os et de peau
par où commencent les ténèbres
de l’absolu, et la peinture de ces lèvres
que tu fermes comme un rideau
Et cet or que te glisse en rêve
la vie qui te dépouille d’os,
et les fleurs de ce regard faux
par où tu rejoins la lumière
Momie, et ces mains de fuseaux
pour te retourner les entrailles,
ces mains où l’ombre épouvantable
prend la figure d’un oiseau
Tout cela dont s’orne la mort
comme d’un rite aléatoire,
ce papotage d’ombres, et l’or
où nagent tes entrailles noires
C’est par là que je te rejoins,
par la route calcinée des veines,
et ton or est comme ma peine
le pire et le plus sûr témoin.

o louco

… os mercadores procedentes dos mais longínquos países, oferecem-nos, no paraíso, produtos exóticos de todo o tipo…
frescas frutas e verduras que, com esmero, os cozinheiros prepararão para nosso repasto
recuperarão as antigas receitas, as que as tribos de antanho já cozinhavam quando dos seus ritos ao Sol
jóias e finas sedas embelezarão nossos corpos
mágicos, actores, e marionetistas exibirão os seus melhores momentos de criatividade
poetas e músicos converterão a viagem ao grande sabat num encantador passeio
e
pronto,

esta introdução ao canhenho de notas do nosso irmão, podemos ficar por aqui. ainda que muito mais pudesse ser dito,
porém, devido ao adiantado da hora…

deixamos este espaço em branco para vossa reflexão

preto 1

porque o silêncio e a alvura do papel são, talvez, dos melhores signos da alegria

claro que sim…

o autor destas linhas, é um dos guerreiros que não nos deixa esquecer que a principal fonte de energia somos nós próprios – a sua obra tem despertado uma intensa emoção em toda a irmandade

que os deuses velem por ele

 S” ¯Å  S” ¯Å

negro2

sabemos que
toda a verdade é relativa
e
que o de antes volta a tornar-se presente graças ao
rito ………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
……………………………e
regressamos sempre
dominados pela ansiedade de saber
decifrar o oculto

há sempre
algo que se nos escapa
de que necessitamos
e ……………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
…………………………..introduzir
o_fascínio_no_campo_de_manobras
aglutinação .
pôr
do lado de .
do lado de . pôr
aplicações .
e
os objectos
ao tocarem-se transmitem o seu significado .
suas
estratégias de composição .
fragmentos .
adição
versus subtracção .
um
processo
de agregação contínua de materiais,
que de
forma
táctil se fundem .

na acumulação .
na substituição ……………………………………..
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….
………………………………………………………….

negro-pedras2

………………………….. e
o louco é a
lâmina que abre e fecha o livro (o alfa e o omega)
ele é a transgressão ao estabelecido
não numerado
o louco
é aquela parte de nós
bastante sábia para se extasiar diante do mistério da criação
e
bastante audaz para se lançar à aventura
o louco
conforma-se com uma nova forma de viver a noite
e
tudo começou …………………………………… um dia
muito antes de terem nascido os deuses
…………………………………………………………………
………………………………………………………………….
………………………………………………………………….
………………………………………………………………….
………………………………………………………………….
………………………………………………………………….
………………………………………………………………….
………………………………………………………………….

uma carta de fernando pessoa – sobre os heteronimos

paessoa-A

Adolfo Casais Monteiro
Caixa Postal 147
Lisboa, 13 de Janeiro de 1935.

“Meu prezado Camarada:

Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer coisa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.

Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de «Mensagem». Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a «Mensagem» não as inclui.

Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros, que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro. Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da «Mensagem», fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri.

Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de «Mensagem» figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande — um livro de umas 350 páginas — , englobando as várias subpersonalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.
Concordo consigo, disse, em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de «Mensagem». Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente porque essa faceta — em certo modo secundária — da minha personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português parte deste mesmo livro) — precisamente por isso convinha que ela aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.

(Interrompo. Não estou doido nem bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas. Suponha — e fará bem em supor, porque é verdade — que estou simplesmente falando consigo).

Respondo agora directamente às suas três perguntas: (1) plano futuro da publicação das minhas obras, (2) génese dos meus heterónimos, e (3) ocultismo.

Feita, nas condições que lhe indiquei, a publicação da «Mensagem» , que é uma manifestação unilateral, tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista, essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente). Depois — e agora respondo propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia — tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça. Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que «Mensagem» já manifestou.

Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo — penso-o com tristeza — pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!
Creio que respondi à sua primeira pergunta.

Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.
Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriarmente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia…

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas… Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo… E tenho saudades deles.

(Em eu começando a falar — e escrever à máquina é para mim falar — , custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz).

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Quando foi da publicação de «Orpheu», foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos — um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão…

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido — estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido — , diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!

Mais uns apontamentos nesta matéria… Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Alvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

Como escrevo em nome desses três?… Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).

Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.

Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo (escreveu o poeta). Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeiro de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente — o que é facto — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho.

Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa.

Abraça-o o camarada que muito o estima e admira.

Fernando Pessoa

Angelo de Lima do poeta

Ângelo de Lima (1872-1921)

angelo-de-lima

– Ângelo Vaz Pinto Azevedo Coutinho de Lima, nasceu no Porto a 30 de Julho de 1872.
– Em 1891 e 1892 participou como voluntário numa expedição militar – Moçambique.
– Em Novembro de 1894 – internado no hospital do Conde de Ferreira (Porto) onde permanece até 1898.
– Foi director artístico de «A Geração Nova».
– Em 1900 é internado no Hospital de Rilhafoles (Lisboa) – onde faleceu a 14 de Agosto de 1921
– Foi colaborador da revista Orpheu.

– Além fui – a Ninive da Piedade,
A cidade do Luto singular
E a sepultura da Semi-Ranil…
– E hoje…’stá por Ali, Vaga, a Saudade…
– E anda no Céu Supremo a Eterna Estar…
– E… Passa, às vezes, a Serpente… – Ali…

EU ONTEM OUVI-TE…

Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo,amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.

SONETO

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára m cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

ESTES VERSOS ANTIGOS

Estes versos antigos que eu dizia
Ao compasso que marca o coração
Lembram ainda?… Lembrarão um dia…
— Nas memórias dispersas recolhidas
Sequer na piedosa devoção

De algum livro de cousas esquecidas?
— Acaso o que ora canta… vive… existe
Nunca mais lembrará — eternamente?
E vindo do não ser, vai, finalmente,
Dormir no nada… majestoso e triste?

O MAR

Semelhante a Algum Monstro, Quando Dorme
— O Mar… Era sombrio, Vasto, Enorme…
— Arfando Demorado,
— Imenso sob os Céus!

— Tal Imenso e Sombrio, O Mar Seria
— E assim, Em Vagas Tristes Arfaria
No Tempo EM que o Espírito de Deus
— Sobre Ele era Levado!

OLHOS DE LOBAS

Teus olhos lembram círios
Acesos n’um cemitério…
Dr. Rogério de Barros

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris… Incendiados!…

Como os Clarões Finais… – Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados…
— Nas criptas d’um Jazigo Tumular!…

— Como a Luz que na Noute Misteriosa
— Fantástica – Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausoléu!…

— Mausoléu, das Saudades do Ideal!…

— Oh Saudades… Oh Luz Transcendental!
— Oh memórias saudosas do Ido ao Céu!…

— Oh Pérpetuas Febris!… – Oh Sempre Vivas!…
— Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!…

da poesia de arthur rimbaud

Comédie de la soif

rimbaud3

I

LES PARENTS

Nous sommes tes Grands-Parents.
Les Grands !
Couverts des froides sueurs
De la lune et des verdures.
Nos vins secs avaient du coeur !
Au soleil sans imposture
Que faut-il à l’homme ? boire.

MOI – Mourir aux fleuves barbares.

Nous sommes tes Grands-Parents
Des champs.
L’eau est au fond des osiers :
Vois le courant du fossé
Autour du château mouillé.
Descendons en nos celliers ;
Après, le cidre et le lait…

MOI – Aller où boivent les vaches.

Nous sommes tes Grands-Parents ;
Tiens, prends
Les liqueurs dans nos armoires ;
Le Thé, le Café, si rares,
Frémissent dans les bouilloires.
– Vois les images, les fleurs.
Nous rentrons du cimetière.

MOI – Ah ! tarir toutes les urnes !

II

L’ESPRIT

Éternelles Ondines
Divisez l’eau fine.
Vénus, soeur de l’azur,
Émeus le flot pur.

Juifs errants de Norwège
Dites-moi la neige.
Anciens exilés chers,
Dites-moi la mer.

MOI – Non, plus ces boissons pures,
Ces fleurs d’eau pour verres,
Légendes ni figures
Ne me désaltèrent ;

Chansonnier, ta filleule
C’est ma soif si folle
Hydre intime sans gueules
Qui mine et désole.

III

LES AMIS

Viens, les Vins vont aux plages,
Et les flots par millions !
Vois le Bitter sauvage
Rouler du haut des monts !

Gagnons, pèlerins sages,
L’Absinthe aux verts piliers…

MOI – Plus ces paysages.
Qu’est l’ivresse, Amis ?

J’aime autant, mieux, même,
Pourrir dans l’étang,
Sous l’affreuse crème.
Près des bois flottants.

IV

LE PAUVRE SONGE

Peut-être un Soir m’attend
Où je boirai tranquille
En quelque vieille Ville,
Et mourrai plus content :
Puisque je suis patient !

Si mon mal se résigne,
Si j’ai jamais quelque or,
Choisirai-je le Nord
Ou le pays des Vignes ?…
– Ah, songer est indigne

Puisque c’est pure perte !
Et si je redeviens
Le voyageur ancien,
Jamais l’auberge verte
Ne peut bien m’être ouverte.

V

CONCLUSION

Les pigeons qui tremblent dans la prairie,
Le gibier, qui court et qui voit la nuit,
Les bêtes des eaux, la forêt asservie,
Les derniers papillons !… ont soif aussi.

Mais fondre où fond ce nuage sans guide,
– Oh ! favorisé de ce qui est frais !
Expirer en ces violettes humides
Dont les aurores chargent ces forêts ?

antinoo – poemas ingleses de fernando pessoa

antinous

Antínoo – poema homoerótico (trechos)

Era em Adriano fria a chuva fora

Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos de Adriano, cuja cor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa

Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite lá fora
A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória do que el´ foi não dava já deleite,
Deleite no que el´ foi era morto e indistinto.

Oh mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Oh cabelo antes preso p´lo penteado justo!
Oh olhos algo inquietantemente ousados!
Oh simples macho corpo feminino
qual o aparentar-se um Deus à humanidade!
Oh lábios cujo abrir vermelho titilava
os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Oh dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Oh língua que na língua o sangue audaz tornava!
Oh regência total do entronizado cio
Na suspensão dispersa da consciência em fúria!
Estas coisas que não mais serão.
A chuva é silenciosa, e o Imperador descai ao pé do leito.
A sua dor é fúria,
Porque levam os deuses a vida que dão
e a beleza destroem que fizeram viva.
Chora e sabe que as épocas futuras o fitam do âmago do vir a ser;
O seu amor está num palco universal;
Mil olhos não nascidos choram-lhe a miséria.

Antínoo é morto, é morto para sempre,
É morto para sempre, e os amor´s todos gemem.
A própria Vénus, que de Adónis foi amante,
Ao vê-lo então revivo, ora morto de novo,
Empresta renovada a sua antiga mágoa
Para que seja unida à dor de Adriano.

Agora Apolo é triste porque o roubador
Do corpo branco seu ´stá para sempre frio.
Não beijos cuidadosos na mamílea ponta
Sobre o pulsar silente lhe restauram
Sua vida que abra os olhos e a presença sinta
Dela por veias ter o reduto do amor.
Nenhum de seu calor, calor alheio exige.
Agora as suas mãos não mais sob a cabeça
Atadas, dando tudo menos mãos,
Ao projectado corpo mãos imploram.

A chuva cai, e el´ jaz
como alguém que de seu amor ´squeceu todos os gestos
E jaz desperto à espera que regressem quentes.
Suas artes e brincos ora são c´o a Morte.
Humano gelo é este sem calor que o mova;
Estas cinzas de um lume não chama há que acenda.

Que ora será, Adriano, a tua vida fria ?
Quão vale ser senhor dos homens e das coisas ?
Sobre o teu império a ausência dele desce como a noite.
Nem há manhã na esp´rança de um deleite novo;
Ora de amor e beijos viúvas são as tuas noites;
Ora os dias privados de a noite esperar;
Ora os teus lábios não têm fito em gozos,
Dados ao nome só que a Morte casa
À solidão e à mágoa e ao temor

Tuas mãos tacteiam vagas alegria em fuga
Ouvir que a chuva cessa ergue-te a cabeça,
E o teu relance pousa no amorável jovem.
Desnudo el´ jaz no memorado leito;
Por sua própria mão el´ descoberto jaz.
Aí saciar cumpria-lhe teu senso frouxo,
Insaciá-lo, mais saciando-o, irritá-lo
Com nova insaciedade até sangrar teu senso.

Suas boca e mãos os jogos de repôr sabiam
Desejos que seguir te doía a exausta espinha.
Às vezes parecia-te vazio tudo
A cada novo arranco de chupado cio.
Então novos caprichos convocava ainda
À de teus nervos, carne, e tombavas, tremias
Nos teus coxins, o imo sentido aquietado.

E de pensar, essa luxúria que é
memória de luxúria revive e toma-Lhe os sentidos p´la mão,
desperta a carne ao toque,
E tudo é outra vez o que era dantes.
No leito o corpo morto se soergue e vive
E vem com el´ deitar-se, junto, muito junto,
E uma invisível mão e rastejante e sábia
A cada uma do corpo entrada da luxúria
Vai murmurar carícias que se esvaem, mas
Se demoram que sangre a derradeira fibra.
Oh doces, cruéis da Párthia fugitivas!

Assim um pouco se ergue, olhando o amante
Que ora não pode amar senão o que se ignora.
Vagamente, mal vendo o que comtempla tanto,
Perpassa os frios lábios pelo corpo todo.
E tão de gelo insensos são os seus lábios que, ai!
Mal à morte lhe sabe o frio do cadáver,
E é qual mortos ou vivos que ambos foram
E amar inda é presença e é motor.
Na dos do outro incúria fria os lábios param
O hálito ausente aí recorda-lhe a seus lábios
Que de pra lá dos deuses uma névoa veio
Entre ele e o jovem. Mas as pontas de seus dedos,
Ainda ociosas perscrutando o corpo, aguardam
Uma reacção da carne ao despertante jeito.
Mas não é compreendida essa de amor pergunta:
É morto o deus que era seu culto o ser beijado!

Levanta a mão pra onde o céu estaria
E pede aos deuses mudos que sua dor lhe saibam.
Que a súplica lhe atendam vossas faces calmas,
Oh poder´s outorgantes! Dá em troca o reino
Nos desertos quietos viverá sequioso,
Nos longes trilhos bárbaros mendigo ou escravo,
Mas a seus braços quente o jovem devolvei!
Renunciai ao espaço que entendeis seu túmulo!

Tomai da terra a graça feminina toda
E num lixo de morte o que restar vertei!
Mas, pelo doce Ganímedes, distinguido
Por Jove acima de Hebe para encher-lhe
A taça nos festins e pra instilar
O amor de amigos que enche o vácuo do outro,
O nó de amplexos femininos resolvei
Em poeira, oh pai dos deuses, mas poupai o jovem
E o alvo corpo e o seu cabelo de oiro!
Ganímedes melhor talvez tu pressentiste
Seria acaso, e por inveja essa beleza
Dos braços de Adriano para os teus roubaste.

Era um gato brincando co´a luxúria,
A de Adriano e a sua própria, às vezes um
E às vezes dois, ora se unindo, ora afastado;
A luxúria largando, ora o àpice adiando;
Ora fitando-a não de frente mas de viés
Ladeando o sexo que semi não espera;
Ora suave empolgado, ora agarrando em fúria,
Ora brinca brincando, agora a sério, ora
Ao lado da luxúria olhando-a, agora espiando
O modo de tomá-la no aparar da sua.

Assim as horas se iam das mãos dadas de ambos,
E das confusas pernas momentos resvalam.
Seus braços folhar mortas, ou cintas de ferro;
Agora os lábios taças, agora o que liba;
Olhos fechados por de mais, de mais fitantes;
Ora o vai-vém frenético operando;
Ora suas artes pluma, ora um chicote.

Viveram esse amor como religião
Oferta a deuses que, em pessoa, aos homens descem.
Às vezes adornado, ou feito enfiar
Meias vestes, então numa nudez de estátua
Imitava algum deus que de homem ser parece
Pela do mármore virtude exacta.
Agora Vénus era, alva dos mar´s saindo:
E agora Apolo ele era, jovem e dourado;
E agora Júpiter julgando em troça
A presença a seus pés do escravizado amante;
Agora agido de rito, por alguém seguido,
Em mistérios que são sempre repostos.

Agora é algo que qualquer ser pode.
Oh, crua negação da coisa que é!
Oh de aurea coma sedução fria de lua!
Fria de mais! De mais! E amor como ela frio!
O amor pelas memórias do amor seu vagueia
Como num labirinto, alegre, louco, triste,
E ora clama o seu nome e lhe pede que venha,
E ora sorrindo está à sua imagem-vinda
Que está no coração quais rostos na penumbra,
Meras luzentes sombras das formas que tinham…

Erguer-te-ei uma estátua que será
Prova, para o contínuo das futuras eras,
Do meu amor, tua beleza e do sentido
Que à divindade p´la beleza é dado.
Que a Morte com subtis mãos desnudantes tire
A nosso amor as vestes do império e da vida,
Ainda a dele estátua que só tu inspiras,
As futuras iades, quer queiram, quer não,
Hão-de, qual dote por um deus imposto,
Inevitavelmente herdar.

Como o amante que agurada, assim ele ia de
Canto a canto do em dúvida confuso de espírito.
Ora sua esperança um grande intento era
De que o anseio fosse, ora ele cego se
Sentia algures no visto indefinido anseio.
Se o amor conhece a morte, que sentir se ignora.
Se a morte frustra amor, que saber não sabemos.
A dúvida esperava, ou duvidava a esp´rança;
Ora o de sonhar senso ao que sonhava anseio
Escarnecia e congelava em vácuo
De novo os deuses sopram a mortiça brasa.

A tua morte deu-me alta luxúria mais
Um carnal cio em raiva por eternidade.
No meu imperial fado a confiança ponho
Que os altos deuses, por quem César fui,
Não riscarão de vida mais real
Meu voto de que vivas para sempre e sejas
Na deles melhor terra uma carnal presença,
Amável mais, mais amorável não, pois lá
Não coisas impossíveis nossos votos jaçam
Nem corações nos ferem com a mudança e tempo.

Amor, amor, Oh, meu amor! Já és um Deus.
Minha esta ideia, que por voto eu tomo,
Voto não é, mas vista que me é permitida
Pelos grãos deuses, que amor amam e dar podem
A corações mortais, sob a forma de anseios,
De anseios que alvos têm indescobertos,
Uma visão reais coisas para além
De nossa vida em vida aprisionada, nosso sentido no sentido preso
Ai, o que anseio que tu sejas, és tu já.
Pois já o Olimpo o território tu pisaste e és perfeito, sendo tu embora
Pois excesso de ti não precisas vestir
Perfeito para ser, a perfeição que és.

Amor, meu amor-deus! Que eu beije, em frios teus
Lábios, teus quentes lábios imortais agora,
Saudando-te beato nos portais da Morte.
Pois que pra deuses são portais da Vida.

E aqui, memória ou estátua, ficaremos
O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos
Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.
Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.
Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar
Das curvas eras. Só por ti apenas,
Que, um deles, no ido bando houveras ido,
Viriam, qual dormissem, para despertar

E se a nossa memória a pó se reduzisse,
Uma divina raça do fim das idades
Nossa unidade dual ressuscitava.

Ainda chovia. Em leves passos veio a noite
Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.
A mesma consciência de eu e de alma
Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.
O Imperador imóvel jaz, e tanto que
Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem
A dor que era inda sal nos lábios seus.
Algo distante fora tudo: um manuscrito
Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era
Que halo é em torno à lua quando a noite chora.

A cabeça pousava sobre os braços, estes
No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.
Os seus olhos fechados cria abertos, vendo
O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.
Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.
Do tombante negrume o vento ergueu-se
E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;
E o Imperador dormia…
Os deuses vieram….
E algo levaram, qual não senso sabe,
Em braços de poder e de repouso invisos.

(poesia originalmente escrita em inglês, tradução de Jorge de Sena)

um TAROT de manuel almeida e sousa

propomos uma outra visão das cartas portuguesas (séculos XVII/XIX) – naipes  “dragão” o baralho poderá funcionar como cartas de jogo – todavia foi acrescido com  11 arcanos maiores, o que perfaz 52 cartas de um tarot a preto e branco projecto de Manuel Almeida e Sousa os ases 01-copas 01-espadas 01-ouros 01-paus os duques 02-copas 02-espadas 02-ouros 02-paus os ternos 03-copas 03-espadas 03-ouros 03-paus as quadras 04-copas 04-espadas 04-ouros 04-paus as quinas 05-copas 05-espadas 05-ouros 05-paus as senas 06-copas 06-espadas 06-ouros 06-paus as biscas 07-copas 07-espadas 07-ouros 07-paus os cavalos
08-copas08-espadas08-ouros08-paus


as damas
09-copas09-espadas09-ouros09-paus


os reis
10-copas10-espadas10-ouros10-paus


os arcanos maiores e as costas das cartas 11-ciclo 12-templo 15-sacerdotiza 16-principe.trevas 13-mago
17-sol 14-louco
18-lua 19-percurso 20-mundo 21-tore-ilusão 22-kostas