do mito, do rito e a deusa nossa

deusa

é facto
estamos unidos  tal como os grãos de areia
e
continuaremos
enquanto os nossos objectivos permanecerem em harmonia
é que a nossa obra não pode – jamais – ser levada a cabo sem
o entendimento
o dos nossos cúmplices
só ele (entendimento) permitirá que no interior dos nossos templos exista aquela tendência – tão natural e tão praticada – para os cismas
daí se infere que a nossa obra não pode – jamais – ser levada a sério
(ou pode?)
a fé não é racional, é emocional
os crentes reagem emocionalmente quando a sua fé é contestada
precisamente
é que no fundo… lá no fundo de suas mentes, sabem que acreditam num mito e têm medo de que a sua crença desabe na presença da lógica
seguindo este raciocínio…
poderemos dizer: – é por isso que as diferenças religiosas levam à guerra, mas nunca (por exemplo) à aritmética
e
quanto menor a evidência – a que existe – a favor de uma ideia…
maior a paixão
maior a violência
para nós…
para nós é o cisma que interessa
o cisma
cada um de nós é um cisma e, muitas vezes – cisma do cisma
ou… talvez, nem cisma sejamos
por não crentes
por navegarmos alegremente a uma distância considerável daquilo em que os outros crêem
e
que chamam fé
não há fé
há sonhos a fervilhar no caldeirão do bruxo ou bruxa —> que somos nós <— nós somos, mesmo, bruxos
feiticeiros/magos/artistas
em processo e progresso
e
soltamos gargalhadas inflamadas pelo gozo
o gozo de estar vivo – aqui e agora
é que sabemos que a nossa deusa – a ser falsa – é menos falsa que os deuses dos outros
precisamente
porquê?
pela simples razão de que os outros (deuses) sobrevivem no imaginário das gentes à custa da fé
da fé dessas gentes
e a nossa deusa existe, mesmo, no nosso imaginário
uma vez que a nossa deusa é obra nossa
é arte…
a nossa deusa vive à margem de qualquer fé…!
porque nós
não temos fé nenhuma…
 

 

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um TAROT de manuel almeida e sousa

propomos uma outra visão das cartas portuguesas (séculos XVII/XIX) – naipes  “dragão” o baralho poderá funcionar como cartas de jogo – todavia foi acrescido com  11 arcanos maiores, o que perfaz 52 cartas de um tarot a preto e branco projecto de Manuel Almeida e Sousa os ases 01-copas 01-espadas 01-ouros 01-paus os duques 02-copas 02-espadas 02-ouros 02-paus os ternos 03-copas 03-espadas 03-ouros 03-paus as quadras 04-copas 04-espadas 04-ouros 04-paus as quinas 05-copas 05-espadas 05-ouros 05-paus as senas 06-copas 06-espadas 06-ouros 06-paus as biscas 07-copas 07-espadas 07-ouros 07-paus os cavalos
08-copas08-espadas08-ouros08-paus


as damas
09-copas09-espadas09-ouros09-paus


os reis
10-copas10-espadas10-ouros10-paus


os arcanos maiores e as costas das cartas 11-ciclo 12-templo 15-sacerdotiza 16-principe.trevas 13-mago
17-sol 14-louco
18-lua 19-percurso 20-mundo 21-tore-ilusão 22-kostas

anarcofagia

 

 

ANARCOFÁGICOS

ventos-anarcofágicos

O mundo é grave, absurdo & inexorável, & carece de Arte & Humor – vitaminas essenciais para suportarmos o tédio existencial. A dimensão intelectual é um arcabouço de imbecilismo, forrada com uma ciência selvática & caduca, atravessada por sistemas filosóficos medíocres & sustentada pelo autoritarismo de autores sacrossantos – Freud, Marx, Kant & outros endeusados pelo fetichismo acadêmico. Faço deste manifesto um convite aos Artistas & Intelectuais a subverter & transgredir este cenário estupidificante.

 Este é um manifesto, sobretudo, pela Arte & pelo Humor.

ventos-anarcofágicos

Se religiões organizadas são o ópio do povo, então religiões desorganizadas são a maconha da turba lunática.
Principia Discordia – Kerry Thornley

 

 

ventos-anarcofágicosOs Anarcofágicos – anarco (relativo a anarquia) & fagia (do grego, phagein: come) – são devoradores de teorias, lógicas, paradigmas & cosmovisões que não adoptam ideologias, valendo-se de teorias provisorias para fragilizar as demais.

 Para além da refutação higienizadora & massiva, os Anarcofágicos entendem que para activar a imaginação, o delírio & o prazer das massas eles devem perfurar a dimensão mais quotidiana da vida humana promovendo: 

a) arte transgressora, como prazerosa alucinação colectiva, & não reduzida a produto, espectáculo, poder de impacto ou militância ideológica; 

b) humor como último argumento contra o tédio existencial, aproveitando a capacidade dele pautar símbolos, reforçar estigmas, criticar comportamentos, derrubar estereótipos & satirizar arquétipos – Zero Mostel disse que “o grau de liberdade que há em qualquer sociedade é directamente proporcional ao riso que nela existe”.

 Theodor Adorno estabeleceu o excêntrico como critério da arte: “a arte é a antítese social da sociedade, & não deve imediatamente deduzir-se desta” & Vladimir Maiakovski atribuiu um carácter construtor à arte: “a arte não é um espelho para reflectir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”. Adorno errou considerando a arte apenas em sua dimensão social & Maiakovski esqueceu do poder de desconstruir da arte, como ilustrou endogenamente Roberto Piva: “arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos”. Esta é a aposta da Arte Anarcofágica.

 

O INTELECTUAL ANARCOFÁGICO

 

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo, sou amplo, vasto, contenho multidões.
Walt Whitman

ventos-anarcofágicosO Intelectual Anarcofágico é multidisciplinar & apela mais para a aparência das argumentações do que as suas consistências lógicas – acreditando que mais vale a beleza das ideias do que a coerência com a realidade absolutizada pela razão, como manifestou Charles Bukowski: “não confio muito nas estatísticas, porque um homem com a cabeça dentro de um forno acesso & os pés no freezer, estatisticamente possui uma temperatura média”.

 As armas de combate dos Anarcofágicos é a Arte Anarcofagica, a Ciência Experimental, o Ensaísmo Lírico & o Humor Contundente.

 Os Anarcofágicos não representam um grupo de esquerda & acreditam que “se a revolução não servir para dançar e rir, não será nossa revolução”, como escreveu Bob Black, um Groucho-Marxista.

 

ARQUI-INIMIGOS E ALIANÇAS

 

1ª Lei Absoluta: PATAFÍSICA- Tudo é decidido pela imaginação e não pela razão.
2ª Lei Não Absoluta: Não encher as caras aos domingos.
Quem quer fazer sentido?
A realidade é relativa;
A Fantasia é bem melhor;
Arte, Poesia e Loucura.
3ª Lei Absoluta: Usar LSD.
4ª Lei Absoluta: Enlouquecer a Política.
5ª Lei Absoluta: Nenhum tipo de censura. Mandar as preposições e a gramática pro inferno!
6ª Lei Absoluta: O que fazer em casos de incêndio? Deixe queimar!
7ª Lei Absoluta: Jogar uma garrafa de conhaque no Delírio Coletivo
8ª Lei Absoluta: DELIRAR.
9ª Lei Absoluta: Assassinar a monotonia causada pela razão.
Leis Absolutas do Delírio Coletivo – Por Fada Verde

ventos-anarcofágicosArqui-inimigos & alianças são deliberações dos Anarcofágicos. Aos arqui-inimigos oferecemos extermínio argumentativo & às alianças oferecemos ajuda apologética de suas bandeiras & causas.

 Os Intelectuais Gramscianos são arqui-inimigos dos Anarcofágicos  –  defendem certos princípios & acreditam dogmaticamente em somente uma forma de mudança social, geralmente doutrinados acriticamente pelos que se dizem críticos. 

O Niilista também é um dos arqui-inimigos dos Anarcofágicos  –  por jogarem cobardemente com a sua existência.

 As alianças são com os Antiproibicionistas  –  entendendo os direitos humanos & os anseios libertários da percepção -, & com os Discordialistas  –  responsáveis por operações como Salve os Anões de Jardins & Mindfuck (criação de uma zona onde a normalidade e o comum sejam suspensos e trocados pelo anormal e incomum).

 

MILITÂNCIA & REIVINDICAÇÕES

 

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.
Manifesto Surrealista – André Breton

ventos-anarcofágicosAs bandeiras & reivindicações são renovadas pelos Anarcofágicos com frequência & cada Anarcofágico tem a liberdade de escolher se vai militar por elas & quais vai adoptar, assim como propor a inclusão de novas.

Os Anarcofágicos defendem a cultura popular, o folclore, o jardinismo da área urbana, a transformação de praças publicas em centros de cultura & arte, as terapias naturais & artísticas, os direitos humanos, o antiproibicionismo, a flexibilidade da língua, o zombar filosófico – “zombar da filosofia é realmente filosofar”, como escreveu Blaise Pascal (1623-1662) -, o culto da percepção & da sensibilidade, a ventilação da arte & a democratização da dimensão artística da vida quotidiana.

 Os Anarcofágicos reivindicam: uma edição higienizada & conservada do Kama Sutra para as próximas gerações, cotas para desenhos infantis que reproduzem músicas clássicas, o fim da avaliação valorativa (de 0 a 10) propondo a promoção das avaliações adjetivas, a proibição moral de dar nós nas sacolas – responsável por significativa carga de stresse da humanidade -, & a liberdade do compositor brasileiro – “aí chegou o gringo com o sequencer para prender o músico brasileiro na camisa-de-força do metonímico 4/4 rock-pop-box.” como escreveu Tom Zé.

 

in: anarcofagia

 
 
 

a verdade – marques de sade

A VERDADE

Versos do Marquês de Sade

 

Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?
Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.
Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.
Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.

o divino marquês

o divino marquês

Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.
De facto ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,
Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós [1]?
Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,
Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido [2],
Que o meu esp’rito jamais teria concebido;
Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objecto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,
Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;
Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.
Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?

Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor [3].
Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.
Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.
Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!
Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranquilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,
Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão. [*]
Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos
E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.

cristo

Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,
Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!
Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende [4].
Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,
Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.
O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos [5].
Essas doces acções a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegítima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;
O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.
Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.
Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima [6].
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz [7]:
Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova
Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.
Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso [8].
Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às acções mais nocivas.
Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.
Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos vê iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.

______________

[1] Avaliam-se em mais de cinquenta milhões de indivíduos as perdas ocasionadas pelas guerras ou massacres de religião. Acaso valerá uma só de entre elas o sangue de uma ave? E não deverá a filosofia deitar mão a todas as armas para exterminar um Deus em prol do qual se imolam tantos seres que valem mais do que ele, pois não há seguramente nenhuma ideia mais estúpida, mais perigosa, mais extravagante, nada mais detestável do que um Deus?

[2] A ideia de um Deus só adveio aos homens quando eles temeram, ou tiveram esperança. A isto apenas devemos atribuir a quase unanimidade dos homens sobre tal quimera. Universalmente infeliz, o homem teve, em todos os lugares e em todos os tempos, motivos de esperança e de temor, e em toda a parte invocou a causa que o atormentava, como em toda a parte esperou pelo fim dos seus males. Demasiado ignorante ou demasiado crédulo para saber que a desdita inevitavelmente anexada à sua existência outra causa não tinha do que a própria natureza dessa existência, ao invocar o ser a quem atribuía essa causa criou quimeras a que renunciou, logo que o estudo e a experiência lhe fizeram sentir a sua inutilidade. O temor fez os deuses e a esperança manteve-os.

[3] O mais ligeiro estudo da natureza convence-nos da eternidade do movimento no seu seio e esse exame atento das suas leis mostra-nos que nada nela perece, que ela continuamente se regenera sob o efeito daquilo que nós julgamos que a ofende ou que parece destruir as suas obras. Ora, se as destruições lhe são necessárias, a morte torna-se uma palavra vazia de sentido: o que há são transmutações e não extinção. Ora a perpetuidade do movimento que existe nela deita abaixo toda a ideia de um motor.

[*] À margem, uma variante que não foi riscada:
Masturbar-me-ia sobre a tua divindade,
Enrabar-te-ia se a tua fraca existência
Oferecesse um cu à minha incontinência;
Meu braço o coração te viria a arrancar
Pra com o meu fundo horror melhor te penetrar.

(Nota de G. Lely)

[4] Entreguemo-nos indistintamente a tudo quanto as paixões nos inspiram e seremos sempre felizes. Desprezemos a opinião dos homens: ela é apenas o fruto dos seus preconceitos. E quanto à nossa consciência, nunca receemos a sua voz quando conseguimos entorpecê-la: o hábito facilmente a reduzirá ao silêncio e não tardará a metamorfosear em prazer as mais desagradáveis recordações. A consciência não é o órgão da natureza; apenas é, não nos ludibriemos, o órgão dos preconceitos; vençamo-los e a consciência ficará às nossas ordens. Interroguemos a consciência do selvagem, perguntemos-lhe se ela lhe censura o que quer que seja. Quando ele mata o seu semelhante e o devora, a natureza parece falar nele; a consciência está muda. Ele concebe o que os parvos chamam crime e executa-o; tudo se cala, tudo está em sossego, ele serviu a natureza mediante a acção que mais agrada a essa natureza sanguinária cujo crime mantém a energia e que só de crimes se alimenta.

[5] E como poderíamos nós ser culpados quando mais não fazemos do que obedecer às impressões da natureza? Os homens e as leis que são obra dos homens podem considerar-nos como tal, mas jamais a natureza. Só se lhe resistíssemos é que poderíamos a seus olhos ser culpados. É esse o único crime possível, o único de que devemos abster-nos.

[6] Demonstrado como está que o crime lhe agrada, o homem que melhor a servirá será necessariamente aquele que der maior extensão ou gravidade aos seus crimes, devendo notar-se que a extensão lhe agrada ainda mais do que a gravidade, pois, apesar da diferença que os homens estabelecem, o assassínio e o parricídio são exactamente a mesma coisa a seus olhos. Mas o que tiver provocado mais desordens no universo agradar-lhe-á muito mais do que aquele que se tiver detido ao primeiro passo. Que esta verdade ponha à vontade os que dão rédea solta às suas paixões e que eles se convençam de que a melhor maneira de servir a natureza é multiplicar as suas perfídias.

[7] Estes gostos só são verdadeiramente úteis e prezados pela natureza enquanto propagarem, enquanto espalharem aquilo a que os homens chamam a desordem. Quanto mais eles cortam, sapam, deterioram, destroem, mais preciosos lhe são. A eterna necessidade que ela tem de destruição serve de prova a esta asserção. Tratemos de destruir, pois, ou de impedir de nascer, se queremos ser úteis aos seus planos. Assim, o masturbador, o assassino, o infanticida, o incendiário, o sodomita, são homens conformes com os desejos dela, aqueles que, por conseguinte, devemos imitar.

[8] Impormo-nos freios ou barreiras na via do crime seria visivelmente ultrapassar as leis da natureza que nos entrega indistintamente todos os seres de que nos rodeia, sem jamais abrir excepções, pois desconhece os nossos laços e cadeias, de modo que as pretensas destruições são nulas a seus olhos, que o irmão que dorme com a irmã não faz pior do que aquele que dorme com a amante e que o pai que imola o filho não ultraja mais a natureza do que o particular que assassina um desconhecido por esses caminhos. A seus olhos não há qualquer diferença dessas; o que ela quer é o crime; não interessa a mão que o comete ou o seio em que é cometido.

luiz pacheco – “carta a fatima”

fatima

 

CARTA A FÁTIMA

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»… E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes…

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus…», ou «Não quero…». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz…, tanto me faz… Sabia-o!

Luiz Pacheco

ZOS VEL THANATOS

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ZOS VEL THANATOS

 

o sistema de bruxaria de Austin Osman Spare é a Unificação. uma unificação entre Arte e Magia que opera no campo da estética e cujo objectivo é o auto-conhecimento do Génio Criativo. este progresivo auto-conhecimiento solta-se e percorre o caminho da encarnação – do Sonho Primordial – que se relaciona directamente com o Divino Artista.

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o sistema de bruxaria de Austin Osman Spare, denominado, também, de Culto do Zos-Kia está relacionado, fundamentalmente, com o Desejo. todo o Desejo. e no sonho que qualquer pessoa transporta no seu Ser Interior. e tal sonho pode ser materializado ou (segundo o mago): “feito carne como a verdade viva em sua experiência” e mediante um método específico de bruxaria – chamado Ressurgimento Atávico. o ressurgimento de atavismos é processado por métodos onde o cumprimento do desejo não é alheio. tal processo implica o envolvimento da interacção da vontade, o desejo e o “credo” – em liberdade e ao acaso.

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segundo o dicionário um atavismo é:

   1.- um fenómeno de herança descontinua, pela qual um descendente apresenta características de um antepassado que não se revelaram ou não estiveram latentes nas gerações intermédias;

   2.- regresso a um estado mais primitivo;

   3.- tendência a imitar ou a manter formas de vida, costumes, etc., arcaicas.

neste contexto um Atavismo será tudo aquilo que implica conteúdos subconscientes e profundamente enraizados – mas esquecidos – ou, ainda, perdidos nas profundezas da mente – que podem constituir recordações ou memórias ancestrais (tanto relativas a reencarnações passadas como a níveis de consciência pré-humanos). usualmente apresentam-se sob formas semi-bestiais e transportam consigo conteúdos emocionais mui próximos do dito terrível, para a consciência mundana quando confrontados com essa realidade. daqui surgem, naturalmente, as lendas dos espíritos familiares das bruxas e os mitos que se referem a homens que se convertem em animais (licantropia). daí as técnicas ritualistas de identificação – como é o caso do colocar máscaras de animais na maioria dos sistemas chamânicos e mágicos da antiguidade.  exemplo disso, serão os ritos do Antigo Egipto.

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a técnica da obsessão induzida por processos mágicos que Spare usou para materializar o “sonho inerente”, baseava-se na busca e na concentração no desejo. e o desejo era representado por um símbolo, o qual seria (deveria ser) o sentido ou o estar vivo e, por conseguinte, potencialmente criativo através do acto espontâneo da vontade magnetizada.

Spare utilizou três metodos para despertar os extractos de memórias subconscientes: o sistema de sigilos, o alfabeto do desejo e a utilização de símbolos “sensíveis”.

desenho automático

desenho automático

 

no sistema de sigilos, Spare condensava o seu Desejo numa frase curta. posteriormente apagava (dessa frase) todas as letras que se repetiam. quando a frase estivesse “minimizada” (quando a frase do desejo estivesse reduzida ou “limpa”) compunha um grifo ou sigilo com a combinação das letras resultantes, depurando o desenho segundo a sua Arte. o símbolo resultante não devia sugerir, de forma alguma, a natureza de seu Desejo.

no Alfabeto do Desejo cada letra representa uma sensação pensante, um conceito estético, um principio sexual localizado nos estratos de memórias ancestrais apropriadas à sua forma e natureza. Spare observou certas correspondências entre os movimentos internos do impulso sexual e as formas externas da sua manifestação em símbolos, sigilos, ou letras simples representadas e carregadas com a sua energia. Spare utilizou também este alfabeto para criar imagens elementares ou “chamar” os “espíritos” de outras esferas.

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os Símbolos Sensíveis podiam ser utilizados para a profecia e adivinhação. introduzindo o sigilo adequado no subconsciente, o mago seria capaz de “pensar por si mesmo”. se o sigilo tivesse uma pregunta que se referisse a algum acontecimento futuro, criava – a partir da sua própria sensibilidade – uma verdadeira imagem criativa imprimindo aí, as partes simbólicas. se estivesse correctamente construído e sem elementos supérfluos, os quais viessem a poder criar ramificações inúteis, provocaria o nascimento da própria verdade ou resposta, uma vez que cada pergunta continha, de alguma forma, a resolução ou a própria resposta.

 

Spare considerava que, para que esta linguajem mágica viesse a ser verdadeiramente eficaz, cada individuo devia desenvolver a sua própria estrutura de alfabeto e que, a partir do subconsciente ou através de sonhos ou, ainda, por meio da escrita automática criasse o seu método – um pouco como os actuais artistas de vanguarda:… em processo e progresso. considerava, também, que os fracassos no que concerne à adivinhação, se devem ao facto de que o operador nem sempre pode conectar ou vincular a mente subconsciente com a mente consciente através do simbolismo tradicional que nos proporciona certos métodos adivinhatórios.

 

para ele, em exclusivo, Spare criou um baralho de cartas chamado ‘Arena de Anon’, que consistia numa sequência de figuras magicas – variações do seu Alfabeto do Desejo. quando os visualizava intensamente, estes podiam excitar o subconsciente e surgia (segundo ele) uma ou várias imagens concordantes com a natureza do sigilo. todavia, para que tal sigilo tivesse êxito era importante esquecer deliberadamente o objecto de desejo, uma vez que não sendo assim a consciência desvirtuaria todo o processo. e isso, impedia a sua livre materialização e – logicamente – expressão. para ele havia que vazar a mente de tudo, excepto do sigilo. e este, elaborado de tal forma que nos conduz directamente à Mistica de Zos e do Kia.

 

no Livro do Prazer, Spare define Zos como sendo o corpo do ser humano (na sua totalidade). ou seja, tudo aquilo que encarna e se manifesta – o ego cognitivo e perceptivo, “O Corpo considerado como unidade”. daí o simbolizar graficamente como uma mão.

 

o símbolo complementar é Kia o “Eu” atmosférico, “a absoluta liberdade que ao ser livre é suficientemente poderosa para ser encarada como realidade”. é a Fonte única de toda e qualquer manifestação e a Verdade única por detrás de todas as ilusões, é a Energia Primária, o Vazio. o Kia é representado simbolicamente como um Olho.

 

a ‘manipulação’ da Mão e do Olho, símbolos do intercâmbio – Falo e Vagina, provocam a “consciência do tacto” e do “êxtase na visão”, o Zos e o Kia são – portanto – instrumentos da sensibilidade. são uma visão que exprime o fundamento da Nova Sexualidade que Spare desenvolve com o objectivo de formar uma arte mágica, a arte da sensação visualizada. a que proporciona “chegar à unidade – cada um com todas as sensações”. ou seja: cada um capaz de transcender as polaridades duais da existência através da aniquilação da identidade separada por mecanismos que nos levam à Postura da Morte (Thanatos).

 

a Mão simboliza a Vontade Creativa e o Olho Desejo/Imaginação. e, no ponto médio de contacto entre esta corrente activa de vontade e a corrente passiva, a da Imaginação, nasce o conceito de Nova Sexualidade.

 

a Nova Sexualidade, no sentido que Spare concebeu, não é a sexualidade das dualidades positivas. será antes, o Grande Vazio, o vazio do Negativo – o Olho de Potencial Infinito. a Nova Sexualidade é, simplesmente, a manifestação da Não-manifestação, o nem-uma-coisa-nem-outra ou  “a entrada no vazio entre dois pontos”.

 

o mecanismo da Nova Sexualidade baseia-se na tese da dinâmica da Postura da Morte, uma fórmula desenvolvida com o propósito de materializar todo o potencial negativo em termos de um poder positivo. no antigo Egipto a múmia foi a imagem dessa fórmula e a simulação por parte do Adepto do estado – morte – nos inúmeros ritos tradicionais incluem um total “silêncio de movimento” – uma pausa nas funções psicossomáticas. Desejo, Vontade Energétizada e Obsessão, são chaves da manifestação sem limites – de qualquer forma e de qualquer poder que esteja latente no Vazio. a sua fórmula é pois – a Postura da Morte.

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a Mulher Universal o Todo Prevalecente a que Spare frequentemente alude, é simbólico neste conceito – o da Nova Sexualidade e o qual transcende a própria dualidade. ela é o símbolo da polaridade perfeita que se resolve no interior do Nada. é o Desejo Potencial e Primordial. um desejo sempre disposto a irromper espontaneamente de forma a converter-se no “nosso último credo ou crença”. é o único factor constante da nossa mutabilidade, é a Mulher Primitiva a que simboliza o Desejo de união com o Todo (desde o nosso ego consciente até à totalidade – ou, se o entendermos, desde o Zos até ao Kia).  ao ampliar o sentido de querer abarcar o Todo, podemos perceber o sentido do Eu  em si mesmo. entender-se e, finalmente, Ser. ser (Kia). pode, ainda, estar representada em formas como a da Deusa, da Bruxa, da Mulher Primitiva ou em conceitos abstractos como o sexo, o desejo ou qualquer emoção inconcebível. todas estas representações são, sem dúvida, o que Spare denomina “credo ou crença livre” – e estas ferramentas são úteis temporalmente para o Kiasta. porém devemos advertir que o familiar produz fadiga e esta leva-nos à indiferença e à esterilidade. assim sendo, em última instância, há que evitar que estes “credos ou crenças” se quedem enquistados por formas particulares e cheguem a ser familiares, já que a familiaridade conduz à desvitalização, à preguiça e a atitudes convencionais (entenda-se não criativas).

Spare concentrou o tema de sua doutrina no Credo da Afirmação de Zos vel Thanatos.

“Creio no corpo agora e siempre… porque sou a Luz, a Verdade, a Lei, o Caminho e nada encontrará nada salvo através do seu corpo. Não os ensinei o caminho ecléctico entre os êxtases; aquele modo precário e funâmbulo…? Todavia não o conseguiste, por cansados e temerosos. Despertai! Não vos deixeis hipnotizar pela triste realidade em que acreditais e enganais. Uma vez  que a Grande Maré a da mudança chegou. A grande Campainha soou. Deixai que outros esperem a imolação involuntária, a forçada redenção tão certa para muitos apóstatas da Vida. Neste dia, vos peço que procureis na vossa memória, porque grandes unidades se aproximam. O Incentivador de todas as memórias és tu. A tua Alma. A Vida é, tão só, desejo. A Morte reformulação… Eu sou a ressurreição… Eu, que transcendo êxtase por êxtase, meditando na Necessidade de Não Ser no Auto-Amor…” 

             o Credo altamente técnico de Zos-Kia resume-se a poucas sentenças:

nosso Livro Sagrado, o Livro do Prazer. nosso Caminho, o Caminho ecléctico entre êxtases;  aquele caminho precário e funâmbulo. nossa Deidade, a Mulher Todo-Prevalecente. (“e eu me extraviei com ela, no percurso directo”). nosso Credo, o Corpo Vivo. (Zos): (“digo-vos de novo: este é o vosso momento de realidade o corpo vivo”). nosso Sacramento, os Sagrados Conceitos Intermédios. nossa Palavra, não importa – não necessita ser. nossa Eterna Estância, o místico estado de nem um nem outro. o “Eu” Atmosférico. (Kia).

 

a nossa Lei, Violar todas las Leis.

 

(tradução livre a partir da versão francesa por: manuel de almeida e sousa)

O Catecismo de um Revolucionario

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O Catecismo de um Revolucionário de Sergey Nechayev

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM ELE PRÓPRIO:

I – O revolucionário é um homem com um destino. Não tem nem negócios ou interesses pessoais, nem sentimentos ou afeições, nem propriedade, nem mesmo um nome. Nele tudo está absorvido por um só interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: A Revolução.

II – No mais profundo do seu ser, e não somente em palavras, mas também em atos, quebrou todo o laço com a ordem burguesa e o conjunto do mundo civilizado, assim como com as leis, as tradições, a moral e os costumes que têm lugar nesta sociedade. É o inimigo implacável desta sociedade, e se aí continua a viver, é unicamente para melhor a destruir.

III – Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a destruição. É para este fim, e só para este fim, que estuda a mecânica, a física, a química e, se a ocasião se apresentar, a medicina. É no mesmo propósito que se dedica, dia e noite, ao estudo das ciências da vida: os homens, os seus caracteres, as suas relações entre eles, assim como as condições que regem em todos os domínios a ordem social atual. O objetivo é sempre o mesmo: destruir o mais rapidamente e o mais seguramente possível esta ignomínia que é a ordem universal.

IV – O revolucionário despreza a opinião pública. Tem desprezo e ódio pela moral social atual, pelas suas diretivas e suas manifestações. Para ele, o que é moral, é o que favorece o triunfo da Revolução, o que é imoral e criminoso, é o que a contraria.

V – O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida, e que, em consequência, não é mais independente. ele não tem qualquer deferência pelo Estado principalmente, ou por toda classe cultivada da sociedade, e não deve daí esperá-las igualmente. Entre ele e a sociedade, um combate de morte é travado, uma luta aberta ou clandestina, sem tréguas e sem misericórdia. Deve estar preparado para suportar todos os tormentos.

VI – É necessário que o revolucionário, duro para com ele próprio, o seja também para os outros. Todas as simpatias, todos os sentimentos que poderiam emocioná-lo e que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento, devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. Para ele não existe mais que um prazer, que uma consolação, que uma recompensa, que uma satisfação: o sucesso da Revolução. Não deve haver, dia e noite, mais que um pensamento e um objetivo: a destruição inexorável. E prosseguindo com sangue frio e sem descanso a realização deste plano, deve estar pronto a morrer, mas pronto a matar com as suas próprias mãos todos aqueles que se oponham à sua realização.

VII – A natureza do verdadeiro revolucionário exclui todo o romantismo, toda a sensibilidade, todo o entusiasmo, todo o impulso. Exclui também todo o sentimento de ódio ou de vinganças pessoais. A paixão revolucionária, tomada nele um hábito constante e quotidiano, deve unir-se ao cálculo frio. Por toda a parte e sempre é necessário obedecer-lhe, não aos seus impulsos pessoais, mas ao que exige o interesse geral da Revolução.

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DEVER DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM SEUS CAMARADAS:

VIII – O revolucionário não pode ter amizade e simpatia senão por aquele que demonstrou pelos seus atos que é igualmente um servidor da Revolução. A amizade, a dedicação, as obrigações passadas para com tal camarada não se medem senão depois da sua utilidade no trabalho prático da revolução destruidora.

IX – É supérfluo falar de solidariedade entre revolucionários: é sobre ela que repousa toda força de trabalho revolucionário. Os camaradas, que atingiram o mesmo grau de consciência e de paixão revolucionária, devem, tanto quanto possível, discutir em comum as questões importantes e tomar decisões unânimes. Para executá-las cada um deve, antes de tudo, contar consigo próprio. Logo que se trate de executar uma série de atos de destruição, cada um deve operar por sua conta e risco e não reclamar ajuda ou assistência aos seus camaradas, porque isto é absolutamente indispensável para o sucesso do empreendimento.

X – Todo o militante revolucionário deve ter à sua disposição alguns revolucionários de segunda ou terceira categoria, quer dizer, aqueles que ainda não foram admitidos em definitivo. Deve considerá-los como uma parte do capital comum posto à sua disposição. Deve gerir a sua parte de capital com economia e retirar o máximo de benefício. Deve-se considerar a si próprio como um capital necessário ao triunfo da revolução, capital que não pode, contudo, dispor sozinho e sem consentimento do conjunto dos outros camaradas.

XI – Todas as vezes que um camarada se encontra em perigo, o revolucionário, para saber se o deve salvar ou não, não tem que consultar o seu sentimento pessoal, mas só e unicamente o interesse da causa revolucionária. Também lhe é necessário pensar por uma parte na utilidade que representa o seu camarada, por outra parte no dispêndio de forças revolucionárias que exigirá a sua libertação, e agir no sentido para onde pende a balança.

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM A SOCIEDADE:

XII – Um novo membro, depois de ter feito as suas provas, não em palavras, mas em atos, não pode ser admitido na Associação senão por unanimidade.

XIII – Um revolucionário penetra no mundo do Estado, no mundo das classes, neste mundo que se pretende civilizado, e aí vive pela única razão de que acredita na sua próxima e total destruição. Não é um revolucionário, se ainda alguma coisa o prende a este mundo. Não deve recuar, se se trata de quebrar algum laço que o una a este mundo decrépito, ou de destruir alguma instituição ou algum indivíduo. É-lhe necessário odiar igualmente tudo e todos. O pior para ele, é de ter ainda neste mundo laços de parentesco, de amizade ou de amor: não é um revolucionário, se semelhantes laços podem prender o seu braço.

XIV – O revolucionário pode e deve frequentemente, viver no seio da sociedade, em vista da sua implacável destruição, e dar ilusão de ser totalmente diferente do que realmente é. Um revolucionário deve procurar entradas em toda a parte, na alta sociedade como na classe média, nos comerciantes, no clero, na nobreza, no mundo dos funcionários, dos militares e dos escritores, na polícia secreta e até no palácio imperial.

XV – Toda esta ignóbil sociedade se divide em categorias. A primeira corresponde aqueles que são para suprimir sem demora. Os camaradas terão de fazer listas dos seus condenados, classificados, tendo em conta as suas maleficências relativas e os interesses da obra revolucionária, de tal modo que os primeiros números sejam liquidados antes dos outros.

XVI – A feitura destas listas e o estabelecimento das categorias não devem depender do caráter pernicioso de tal ou tal indivíduo, nem do ódio que inspira aos membros da organização ou do povo. Este caráter pernicioso e este ódio podem mesmo ser úteis numa certa medida para empurrar o povo para a revolta. Deve-se somente ter em conta o grau de utilidade que representa a morte de tal ou tal pessoa para a obra revolucionária. É necessário executar primeiramente os indivíduos mais perigosos para a organização revolucionária, e aqueles cuja morte violenta e súbita é a mais apropriada para assustar o governo e enfraquecer sua força, privando-os dos seus auxiliares mais enérgicos e mais inteligentes.

XVII – A segunda categoria compreende aqueles a quem se deixa provisoriamente a vida, e cujos atos sublevarão a indignação do povo e o conduzirão inevitavelmente à revolta.

XVIII – A terceira categoria é composta por um grande número de bestas brutas altamente colocadas, que não brilham nem pela inteligência, nem pela energia, mas que possuem, em razão da sua situação, riquezas, altas relações, de influência e de poder. É necessário explorá-los por todos os meios possíveis, agarrá-los nas nossas redes, fazer-lhes perder o controle, penetrar até o fundo dos seus segredos desonestes, e assim fazer deles os nossos escravos. Desta maneira o seu poder, as suas relações, a sua influência e a sua riqueza serão para nós um tesouro inesgotável e um precioso socorro nos múltiplos empreendimentos.

XIX – A quarta categoria compreende toda a espécie de funcionários ambiciosos, assim como os liberais das diferentes tendências. Pode-se conspirar com estes últimos adotando o seu próprio programa fazendo-lhes acreditar que o seguem cegamente. É necessário tomar bem em mãos, apoderar-se dos seus segredos, comprometê-los a fundo para lhes tornar impossível qualquer retirada, e servir-se deles para provocar perturbações no Estado.

XX – A quinta categoria compreende os doutrinários, os conspiradores, os revolucionários, todas as pessoas que tagarelam nas reuniões ou escrevem no papel. É necessário, sem cessar, empurrá-los, comprometê-los com manifestações práticas e perigosas: o resultado será o desaparecimento do maior número, enquanto que alguns se revelarão os verdadeiros revolucionários.

XXI – A sexta categoria é de uma grande importância: trata-se das mulheres, que convém dividir em três classes. A primeira compreende as mulheres superficiais, sem espírito e sem coração, de que é necessário servir-se da mesma maneira como os homens da terceira e quarta categorias. Incluímos na segunda classe as mulheres inteligentes, apaixonadas, prontas a dedicarem-se, que não estão ainda nas nossas fileiras, porque elas não chegam ainda a uma inteligência revolucionária prática e sem verborragia. É necessário utilizá-las como aos homens da quinta categoria. Vem enfim, as mulheres que estão completamente conosco, quer dizer, que estão totalmente integradas e aceitaram integralmente o nosso programa. Devemos considerá-las como o nosso tesouro mais precioso e a sua ajuda é indispensável em todos os nossos empreendimentos.

DEVERES DA ASSOCIAÇÃO PARA COM O POVO:

XXII – A associação não tem outro objetivo que a emancipação total e a felicidade do povo, quer dizer, da parte da humanidade constrangida a trabalhos duros. Mas, persuadido que esta emancipação e esta felicidade não podem ser atingidas senão através de uma revolução popular que destruirá toda a sociedade, a associação colocará tudo em curso para aumentar e multiplicar os males e os sofrimentos que encolerizarão a paciência do povo e desencadearão a sua revolta massiva.

XXIII – Pelo nome de “Revolução Popular” a nossa sociedade não entende um movimento de tipo clássico ocidental, que não atinge em nenhum caso nem propriedade privada, nem a ordem social transmitida pela dita civilização e a pretensa moralidade, e que se limitou até agora a suprimir um sistema político para o substituir por um outro e fundar um Estado dito revolucionário. Só pode trazer a salvação ao povo uma revolução que condene absolutamente toda a idéia de Estado, perturbe completamente na Rússia as tradições, as instituições e as classes sociais do Estado.

XXIV – Neste objetivo a Associação não tem de modo algum a intenção de impor ao povo qualquer organização vinda de cima. A futura organização sairá, sem dúvida, do movimento da vida popular, mas isto será obra das gerações vindouras. A nossa tarefa é de destruir, uma destruição terrível, total, implacável, universal.

XXV – Também é necessário, aproximar-nos do povo, procurar, antes de tudo, a aliança com estes elementos da vida popular, que, desde a fundação do Estado moscovita, são, sem cessar, educados contra todos os auxiliares diretos ou indiretos do Estado: nobreza, burocracia, clero, grandes e pequenos comerciantes, e numa palavra, contra todos os exploradores do povo. É necessário aliarmo-nos com o mundo dos aventureiros e dos bandidos, que são, na Rússia, os únicos verdadeiros revolucionários.

XXVI – Reunir todos estes elementos para fazer uma força única, invencível e capaz de destruir tudo: tal é a razão de ser de toda a nossa organização, de toda a nossa conspiração, de todo o nosso empreendimento.

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Sergey Gennadiyevich Nechayev (Sergei Nechaev, Сергей Геннадиевич Нечаев), nasceu em 2 de Outubro de 1847, morreu em 21 de Novembro ou 3 de Dezembro de 1882) foi um anarquista revolucionário russo que ficou associado ao Movimento Niilista e reconhecido pela obstinação de fomentar a revolução utilizando qualquer meio, incluindo a violência política.

Carta de Piotr Kropotkin a Vladimir Lenin

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“Vivendo no centro de Moscou, você não pode conhecer a verdadeira situação do país. Teria de deslocar-se às províncias, manter estreitos vínculos com as pessoas, compartilhar seus desejos, trabalhos e calamidades; com os esfomeados – adultos e crianças – suportar os inconvenientes sem fim que impedem a obtenção de provisão para um mísero lampião … E as conclusões a que chegaria, poderiam ser resumidas numa só: a necessidade de abrir caminho para condições de vida mais normais. Se não o fizermos, esta situação nos conduzirá a uma sangrenta catástrofe. Nem as locomotivas dos aliados, nem a exportação de trigo, algodão, cobre, linho ou outros materiais dos quais temos enormes necessidades poderão salvar a população.

Em vez disso fica uma verdade: ainda que a ditadura de um partido constituísse um meio útil para combater o regime capitalista – o que duvido muito – , esta mesma ditadura seria totalmente nociva para a criação de uma ordem socialista. O trabalho, necessariamente, tem de constituir-se na base das forças locais, mas até agora, isto não ocorre nem é estimulado por nenhum lado. Em seu lugar se encontram, a todo instante, individualidades que desconhecem a vida real e cometem os maiores erros, ocasionando a morte de milhares de pessoas e arruinando regiões inteiras.
Sem a participação das forças locais, sem o trabalho construtivo de baixo para cima, executado pelos trabalhadores e todos os cidadãos, a edificação de uma nova vida é impossível.
Uma obra semelhante poderia ser empreendida pelos sovietes, pelos conselhos locais. Mas a Rússia, devo enfatizar, é uma república soviética apenas no nome. A influência e o poder dos homens do partido, que são frequentemente estranhos ao comunismo – os devotos da ideia estão sobretudo instalados aí no centro – têm aniquilado a influência verdadeira e a força daquelas instituições que muito prometiam: os sovietes. Repito: não há mais sovietes na Rússia, mas somente comitês do partido que fazem e desfazem. E as suas organizações padecem de todos os males do funcionalismo.
Para sair da desordem atual a Rússia deve retomar o espírito criador das forças locais que, asseguro, são as únicas capazes de multiplicar os fatores de uma nova vida. Quando antes se compreender isto, melhor! As pessoas se disporão a aceitar mais facilmente as novas formas de organização social. Entretanto, se a situação atual se prolongar, a mesma palavra socialismo se converterá numa maldição, como ocorreu na França com a ideia igualitária durante os quarenta anos que seguiram ao governo dos jacobinos.”

Piotr Kropotkin – Dimitrov, 04 de março de 1920
Da Enciclopédia Anarquista.

Igreja da Santa Cruzada do Caos Perpetuo

 

 

 

Igreja da Santa Cruzada do Caos Perpétuo (1)

 

 

 

Os irmãos reunidos em conclave – propõem:… Um outro programa que aponta para uma cada vez maior, uma cada vez maior, radicalização de atitudes. 

Companheiros:

 

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1. Actuem conscientes de que o racismo psíquico e económico veio substituir a discriminação aberta e é hoje um dos aspectos mais repugnantes da nossa sociedade.

2. Abandonem toda a pureza ideológica, abracem o anarquismo “tipo 3” (para utilizar a terminologia de Bob Black): -Nem colectivista nem individualista. Limpem os Templos, destruam os ídolos, desembaracem-se “do velho”, das relíquias e dos mártires.

3. O movimento anti trabalho ou “trabalho zero” é fundamental, incluindo o ataque radical e violento contra a “educação” e servidão das crianças.

4. Substituam as tácticas caducas de publicação/propaganda pela pornografia e o entretenimento popular como veículos de uma reeducação radical.

5. Na música a hegemonia do compasso 2/4 e 4/4 tem de ser combatida. Precisamos de uma nova música, totalmente disparatada. No entanto confirmadora de vida. Potente mas ritmicamente subtil. O mesmo combate deverá ser dirigido aos “performers” auto flageladores. Morte à arte da mutilação viva a arte portadora de vida e de liberdade! Necessitamos de uma nova estética. E JÁ!

6. O anarquismo tem de se descartar do materialismo evangélico e do banal cientifismo bidimensional do século XIX. Os “estados mais elevados de consciência” não são mais meros fantasmas inventados por sacerdotes malvados. O oriente, o oculto, as culturas tribais possuem técnicas que podem ser assimiladas de maneira verdadeiramente anarquista. Sem “estados mais elevados de consciência”, o anarquismo consome-se (dilui-se) e seca num queixoso lamento. Necessitamos de um tipo prático de “Anarquismo Místico”, isento de toda a merda pseudo filosófica e do deslumbramento do “New Age” – Inexoravelmente herético e anti clerical. Ávido de todas as novas tecnologias de consciência e metanóia, uma democratização do chamanismo, ébria e serena.

7. A sexualidade foi assaltada, obviamente pela direita, mais concretamente pela pseudo vanguarda da “pós sexualidade”, e mais subtilmente pela recuperação espectacular nos media e publicidade. Chegou o momento da reafirmação explosiva do Eros Polimorfo, de uma glorificação literal dos sentidos – queremos uma doutrina de gozo. Abandonemos a vergonha.

8. Ensaiemos novas tácticas para ocuparmos a caduca mentalidade das “esquerdas”. Enfatizemos os benefícios práticos, materiais e pessoais na criação de redes radicais. Os tempos não são propícios para a violência ou combatividade (directa), mas com toda a certeza a sabotagem e a imaginação têm sempre lugar cativo no “espectáculo”. Trama e conspira, não te acomodes nem te lamentes!… O mundo da arte, em particular, merece uma boa dose de “terrorismo poético”.

9. A sociedade pós industrial trás algumas vantagens (p.ex:… criação de redes digitais) ainda que possa vir a manifestar-se mais opressiva. As comunas de 60 procuraram fazer frente às forças de opressão – fracassaram. Como podemos separar o conceito de espaço dos mecanismos de controlo? Os gangsters territoriais, as nações estado, meteram a mão no mapa mundo. Quem inventará para nós uma nova cartografia – a da autonomia? Quem pode esboçar um mapa que inclua os nossos desejos?

O anarquismo implica em ultima instância a Anarquia – e a anarquia é caos. – Caos é o princípio da criação continua…

O CAOS não morreu.

 

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(1) . a Igreja da Santa Cruzada do Caos Perpétuo é uma tribo que cresce… estamos a ocupar espaços de acção e em breve teremos o nosso TEMPLO. Propomos entre muitas outras coisas: “Trabalho Zero”, boicote total às multinacionais do consumo.

Depois de um bom almoço acompanhado por bom vinho devemos repousar, olhar o Mar e construir poemas. O dia seguinte será ainda mais profícuo – a imaginação inunda a nossa mente, acordamos mais inteligentes – e voltaremos a nada fazer – NADA mais do que qualquer super homem pede.

 

DESARTES DESASTRES

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a arte corporal do poeta é uma forma emergente, o que poderá justificar a ausência de elementos que marquem um estilo. esta acção, cujo suporte é o corpo, contém em si o rufar de tambores, pés e músculos – uma base. o chão. a terra. e os corpos como sombras, agitam-se em transe. o corpo e a terra… pluralidade numa relação de causa-efeito numa explosão de símbolos e signos. um entendimento único, absoluto, verdadeiro, dirigido ao espectáculo construído por “magos” e “bruxos” recuperadores (em processo) de rituais perdidos – um poema intenso, xamânico.

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nesta acção focalizada no corpo do artista, devemos abarcar outras morfologias contemporâneas como o vídeo arte, a mail art, a foto performance… porque, ainda que essas acções possam vir a não contar com o corpo do artista (de forma explícita, claro), elas são uma referência ao acto e à acção do actuante.

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partimos, pois, do princípio de que o trabalho artístico é o que é. não é pintura, teatro, metáfora ou qualquer outra coisa – é uma imagem num universo onde tudo são imagens. então, o corpo em movimento vibra, liberta o vapor que exala já o transe. o espectáculo, este espectáculo, ganha forma numa terra selvagem e os poetas-magos atraem a si as forças telúricas, no bater dos pés nus.

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texto de manuel almeida e sousa
imagem de performance de mandrágora