o lixo decididamente um luxo

lixo

o lixo é um luxo (ou de uma reflexão para um manifesto quase poétiCU/artístiCU)

alucinante é o ritmo dos anúncios-lâmina as aves exóticas vibram encontros de fazer eriçar cabelos e cada parte do seu corpo se envolve na mente com harmoniosos sons próximos mui próximos da demência e nos limites da pele ele olha para ela para melhor entender como se sente bem quando dança nos olhos dos transeuntes então como bom ladrão de incautos cegos executa no teclado moinhos e odes dedilhadas delicadas e dedicadas aos rouxinóis é nesse momento que transcreve algumas letras separadas convenientemente para que  o espetáculo se assemelhe a um desfile de anjos reflectidos nos olhos claros e no sorriso inocente mas a desonestidade prevalece nos quadris quentes e isso ajuda a mover-se sobre os seus pecados vibrantes e hipnóticos para dizer – eu vi e caí sobre mil resistências que doce é o aroma da sedução – com um sorriso doce provoca-a e convida-a à dança sensual e deixa-se envolver junto à antecâmara dos violoncelos pelas suas mentiras
o

o fluxo laminar deixou-se cair sobre as chaves homero pro- punha-se nesse momento reconstruir sobre as ruínas a cidade bombardeada após aprofundada análise das obras de arte ocidental e de uma série de glyphs gravados na pele das vítimas o desenhador da coisa era um arquitecto da comissão das obras municipais foi ele quem pintou um burro para o andor da procissão que para o efeito usou uma impressora que transpirava poemas em linha e uma série de pausas cujo comprimento e cumprimento seria determinado através da formatação de códigos muito precisos em seguida registou um guincho guinado para o lado de fora que se movia no papel seguiu-se a reprodução do ruído e foram igualmente transcritas belas músicas com o auxilio da sua própria voz compôs também um texto que reconhece as palavras e ob- jectos tridimensionais inscritos no espaço-tempo os quais pre- tendem desatar os textos num tour de force mas nem sempre fazem uso de caracteres do alfabeto grego e tão pouco escapam aos parágrafos desenhados ao longo dos discursos sem fundo e tão pouco tecto o artista salientou ainda que o mundo é na verdade uma complexa alegoria digital onde os escritos poéticos serão sempre alvo de consulta por via de forças magnéticas emitidas por investimentos precisos
as

lixo-4

as consoantes que circulam não são mais que consoantes as vogais é que são outra coisa mais colorida coisa arquivada na memória do tempo coisa devidamente estudada pelo menino arthur sentado sobre os lençóis manchados pelos restos de uma noite de sexo numa qualquer pensão de paris há todavia pensou ele notas de era uma vez que emanam magnetismo e um certo odor a filosofia e também a velhos jornais vendidos em caixas de cartão nas ruas a vida só poderá ser devidamente contemplada do alto dos moinhos de vento mas antes há um conjunto de instruções a cumprir claro que são úteis e não podem jamais ser descoradas para que melhor seja cumprida a sua real limpeza-a-seco e como é evidente só assim os devotos alcançarão com o olhar o sudário sagrado e nos poderão responder a questões que urge descodificar
as

as línguas zumbem na cabeça com secretas palavras qualquer peça que escreva exclui a escrita é assim como um remover de todas as especificidades e convertê-las em ambiguidades é como incendiar os dias por necessidade e é ainda ordenar o que segue e o que segue não é mais que uma verificação e confirmação do absoluto a língua será a resposta evasiva ou um endereçar de intenções é portanto como escrever uma mensagem à baleia mais próxima e sonharem-se áfricas em carne viva e é também muitas vezes o manter do todo sobre um beijo usado num sigilo mágico depois é só achar a raiz quadrada de uma gaita-de-foles ou de um pedaço de papel ou mesmo de um número escolhido aleatoriamente para se poder deixar o rolo de papel gerir todas as questões que possam ser levantadas só então nos resta submergir no teclado da máquina de escrever e soltar um grande soluço em branco o objecto resultante seguirá o seu caminho a trote – nem mais – como é bom cavalgar um secador de cabelo armado de globos oculares escreve-me um soneto com os restos do cianeto e deixa-me mergulhar nessa caixa de ar verde que escondes na varanda
uma

uma voz — come as batatas e bebe o chá – era tão só uma paisagem manchada por documentos uma dor que sobrevoa- va o quarto não é necessariamente mas possivelmente será o espaço que ela pode ocupar nas páginas deste romance que aborda os últimos dias de sua vida assim como o que poderia ter feito antes do seu desaparecimento é também um extraordinário guia de monumentos inexistentes encontrados em algum casebre no centro da cidade em algum lugar obscuro sim mas nós sabemos o que queremos dizer e ilustrar nós sa- bemos e este é o caso todas as missivas rabiscadas nas nossas esquizofrénicas folhas de vidro poderão vir a ser soletradas de acordo com uma fonética concebida com o auxilio desinteressado de um software específico e desenvolvido por estudiosos da área da patafísica assim sendo resta-nos afirmar que a paisagem não é mais que isso mesmo uma paisagem pintada com café por uma grande artista sobra-nos a tarefa de lhe atribuir um título e claro publicar a coisa que gravámos nos seus ossos ressequidos um breve epitáfio onde como é lógico não nos esqueceremos de referir os seus notáveis dotes literá- rios porém o odor fétido a comida de gato não vem ao caso tal facto singir-se-à a pequenas notas nas bordas laterais do seu livro não mais que isso
na

lixeiras

na e da mesma forma – a dúvida aparentemente pressupõe um conceito de certeza e se assim for a não-referencialidade pressupõe o conhecimento do referencial mas será que quero sequer saber disso que poderá importar tal conceito quando as páginas do livro não estão devidamente baralhadas as pá- ginas a páginas tantas não deverão estar ligadas e não estando revelarão o escrito com maior facilidade daí se infere que é realmente importante baralhar as páginas de um livro as páginas devem ser soltas devem sentir-se libertas em plena liber- dade sem qualquer referência numérica é facto – as páginas cumprem melhor a sua função de página se permitirem leitu- ras aleatórias a poesis reivindica hoje isso mesmo a destruição do círculo dos signos e dos símbolos
portanto

portanto a borda do oceano é a praia e as gaivotas as ondas o cheiro a sal ou a algas o brilho do sol na água tudo isso é a paisagem que anteriormente foi dito ter sido desenhada com café ou seja – qualquer coisa que digamos de forma descriti- va é na melhor das hipóteses parcial construímos assim uma outra estética ou mesmo linguagem produzida por todos movida por nossas próprias chaves as nossas muitas chaves escolhidas num qualquer momento e de forma aleatória com este molho de chaves poremos a máquina a funcionar a escrever e antes mesmo de começar com a cabeça entre as mãos poderemos parir um lindo romance e viajar no tempo que surge et voilá assistiremos ao desenlace dos mil e um objectos do nosso desejo só então poderemos recuar e atingir o início ou avançar vertiginosamente só então o nosso livro soltará página por página até que fiquemos sem papéis no andor ou mesmo no andar o importante é disparar em linha recta
e

e falar ou andar sobre rolamentos de esferas ou mesmo escrever um soneto contemplando uma outra paisagem ou não escrever e com as pontas dos olhos atingir sem aviso outras histórias por exemplo – uma noite imaginada no cabaret voltaire – para quê contemplar aquilo que o inferno é ou dizem ser se o conhecemos tão bem precisamente ao procurar viver o nosso quotidiano encalhamos forçosamente nesse maldito ruído faz já parte da nossa bagagem e para quê calcular a diferença entre volumes de ar deslocados por uma camisa limpa e bem passada por um ferro de vapor ou pela mesma camisa quando enrugada e suja sim para quê fazer um filme sobre uma nave espacial embrulhada em redes de cabelo quando o mais importante é promover o desemprego e destruir escolas de formação para fabulosas profissões obsoletas a questão é mes- mo essa todavia uma pergunta – será que não estais cansados de ser carrascos de vós próprios
então

então e decididamente não leio o mundo leio sim pelo prazer do acto o de ler uma outra escrita diferente – uma linguagem de uma só consoante de uma única vogal um urro em coro  e em vários tons em fuga consciente de toda a informação empacotada de palavras acolchoada em discursos empalhados – há que fazer um certo borbulhar nas mentes tendo em conta que há uma visão a cumprir a que vemos antes mesmo de vermos – pouco é o que sabemos sobre laranjas antes de termos comido a primeira
alguns

alguns argumentam contra-necessidades e reforçam a tecla – para as artes – todavia afirmam que há excepções para a coisa escrita dizem que sendo um suporte do verbal teremos neces- sariamente de responder com o verbal será que isso significa – paira nas suas mentes – que a linguagem e a imagem são meios cativos da sua especificidade – não são – entrementes os membros da velha “ordem” desafiam as estéticas alheias e perguntam – alguém pode escrever para não “comunicar” a resposta é um enorme nós é um argumento nosso apreender e experimentar outras linguagens afinar os sentidos através delas (linguagens) usá-las como simples meio para disparar sobre o fim esse é o seu uso o desejado pensamos nós e artistas há que tentam justificar essas experiências as da “não-comunicação” como uma forma de alienação como um discurso burguês “vazio” não como  uma  linguagem vivida a que ultrapassa qualquer exercício ou uma linguagem não realizada tais argumentações limitam não só a  coisa –  mas  a liberdade e espontaneidade de quem está no terreno não iluminam os espaços perante tal constatação para eles agreste respondem apenas e invariavelmente – não entendo
ou

 

ou isto ou aquilo ou nem isto nem sequer aquilo ou um guer- reiro no vazio cósmico encharcado em água de bruxas deferindo despachos de subvenção contemplando actos criativos o importante é prestar atenção a quem está por trás da cortina a manipular a coisa ou coisas ou simplesmente escrever comentários numa rede social e a arranhar o entre-espaço dos quadros de celulóide do último filme afinal a linguagem é em primeiro lugar uma questão política e uma vez escrita esta frase com uma caneta de tinteiro (permanente) não fará mais sentido qualquer outra uma vez que a cultura da destruição pode e deve sempre provocar danos nas chuvas transversais como diria um poeta do nosso burgo o objectivo nestas coisas é o agitar de mãos como desenharia um qualquer futurista italiano ou até russo num pedaço de papel para depois usar a imagem resultante na produção de janelas de bairros sociais ou e também escrever um belo romance sobre romãs podendo ou não trocar fotos de andorinhas a recitar manifestos comunistas muitos usam também pregos para pendurar pala- vras ou máquinas de costura e até um qualquer guarda-chuva em actividade considerada ilegal

porquê o “lixo é um luxo” nota a propósito e despropósito para o leitor menos atento

a questão aqui prende-se ao ritmo não mais que isso depois de jantar disparava sobre a máquina de escrever – era antiga e pesada – que repousava sobre a mesa da cozinha digitava ou escrevia furiosamente – uma escrita doce e quase automática

– até à hora de ir para a cama mais tarde o escrever passou  a rito nocturno – até que chegasse o dia – mas ultimamente escrevo em cadernos por longos períodos sobretudo quando viajo de comboio se isso te aborrece dirige-te ao frigorifico   e soletra todos os poemas da secção de congelados e volta    a encher o espaço com os comestíveis e bebidas correspondentes em alternativa poderás humanizar as partes que estão livres com coisas tuas os escritos devem consistir em nada um grande nada ou nada mais que sinais de pontuação (sempre em falta como terás verificado) e isto apenas para provar que existem poemas líricos e bolas de neve no deserto nada mais a assinalar para além de sugerir que imagines um amontoado de livros encontrados por acaso no fundo do refrigerador

nota final e importante – nunca te sirvas do micro-ondas

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