Como Viver Onze Dias em Vinte e Quatro Horas

Como Viver Onze Dias em Vinte e Quatro Horas

por Robert Anton Wilson

calendario

Já faz quase um ano que tenho datado todas as minhas cartas com meu próprio calendário multicultural. Obviamente, eu sei que uma cronologia multicultural parece algo muito Politicamente Correcta, mas não deixes que isso te apavore. De facto concordo com o culto PC sobre muitas coisas. Na verdade, eu só discordo deles pelo facto de não gostar da sua intolerância, de suas tácticas fascistas, de sua introdução da lavagem cerebral maoísta da nossa Academia, da sua absoluta falta de senso de humor ou senso comum mediano. Fora isto, eu quase aprovo as ideias do PC.

Para ser sincero, eu comecei a usar um calendário único e não-Ocidental por volta de 1969-71, enquanto escrevia “Illuminatus!” com Bob Shea. Dei-me conta de que o calendário Gregoriano, o sistema padrão do ocidente, data tudo a partir do alegado nascimento de um super-herói de quadradinhos que eu considerava fictício. Ele supostamente tinha uma mãe virgem, um pai que era um pombo, e curava os cegos jogando merda nos seus olhos. Tu podes entender o porquê das minhas dúvidas.

Mas datar tudo a la Papa Gregório não apenas nos condiciona subliminarmente à mitologia do Vaticano, como também divide artificialmente a história escrita em sua metade, criando uma certa visão distorcida sobre o como as coisas actualmente andam desde os tempos do neolítico.

Por exemplo: no calendário Gregoriano, a primeira dinastia Egípcia iniciou-se em cerca de 3400 “A.C.”, a fundação de Roma foi em 509 “A.C.” e a indicação do grande javali Pigasus para a presidência dos EUA aconteceu em 1968 “D.C.”. Tentar escapar à armadilha papista usando A.E.C. ( antes da era comum/cristã) e E.C. (era comum/cristã) não ajuda muito. Continuamos trancados na realidade-túnel romana.

Efeitos colaterais ainda piores do calendário Gregoriano surgem quando tentas imaginar o período de tempo abarcado nas datas que acabamos de mencionar. Isto requerer um pensamento profundo, boa imaginação histórica e ainda, para aqueles tão perto da senilidade quanto eu, possivelmente rascunhos em papel. No calendário Illuminati, entretanto, estes eventos encontram seu lugar numa única linha de tempo: a primeira dinastia egípcia inicia-se por volta de 600 A.L., a fundação de Roma acontece em 3491 A.L. e a apoteose de Pigasus acontece em 5968 A.L. (A.L., como na Maçonaria, significa Anno Lumina — ano de luz). Adicionemos mais algumas datas (Hassan-i-Sabbah foi iluminado em 5092 A.L., os índios americanos descobriram Colombo em 5492 A.L., a Declaração de Independência dos EUA foi assinada em 5776 A.L., Noble Dew Ali nasceu em 1886 A.L.) e a História começa a fazer sentido como uma única sequência organizada, e não quebrada pela metade.

A cronologia Illuminati (ano um A.L., ou 4000 A.C. Gregoriano) começa com o nascimento de Hung Mung, o antigo Caoísta (pré-Taoísta), filósofo chinês que respondia a qualquer pergunta aos gritos de:… “Eu não sei! Eu não sei!” – o mais alto que podia. Assim, o sistema começa com uma data por volta da aurora da civilização e da escrita, e permite-nos ver toda a história como uma sequência única, não interrompida por uma mudança brusca feita para comemorar o deus de um único culto esdrúxulo.

Como disse, dei-me conta de tudo isso, incluindo as cinco estações do ano Illuminati, por volta de 5969/5971 A.L. – exactamente quando “os anos sessenta” morriam sob os cassetetes e gases lacrimogéneos da contra-revolução de Nixon. Foi apenas em 5992 A.L, após descobrir Noble Drew Ali e o Templo da Ciência Moura, que me dei conta que qualquer calendário, mesmo o da minha adorada cronologia Illuminati, impõe uma ordem única sobre um sistema complexo, tendo assim implicações redutoras e quase totalitárias, pelo menos de forma subliminar. Assim, mudei para um sistema multicultural que, ouso pensar, adequadamente representa o que o historiador Crane Brinton chamou da crescente multanimidade (em oposição à unanimidade) actual do Espaço nave Terra.

Por exemplo, no meu calendário multicultural a data na qual comecei a escrever este artigo mostra-se da seguinte forma:

Poundiano – 19 de Ártemis de 72 p.s.U.

Thelêmico – 19 de Setembro, Anno XC

Patafísico – 12 de Absolut de 122 E.P.

Revolucionário Francês – Le Travail de 202

Islâmico – 12 Rabi-2 de 1373 D.H.

Gregoriano – 19 de Setembro de 1994 E.C.

Erisiano – 43 de Burocracia de 3178 y.C.

Chinês – 15º. dia do 8º. mês do Ano do Cão 4692

Maia – 6 de Bambu de 5106

Hebreu – 14 Tishiri de 5755 A. M.

Illuminati – 43 de Beamtenherrschaft de 5994 A.L.

Algumas lições rápidas e valiosas saltam imediatamente desta cronologia.

Primeira: o tão falado “Milénio” só parece próximo em alguns calendários, e está distante, por exemplo, 245 anos no Hebreu, 798 anos no “Patafísico”, etc.

Segunda: quando chamo este sistema meu, não tenho o objectivo de me vangloriar, mas para indicar limitações e realidades pessoais: muitas alternativas podem existir, de acordo com as preferências do usuário. Podes deixar de lado o Chinês e o Maia, se quiseres, e adicionar o Tibetano e o Asteca, etc. Pessoalmente, adoraria incluir os sistemas Wiccan e Druídico, se alguém pudesse encontrá-los ou inventá-los.

Algumas explicações adicionais:

O calendário Poundiano, criado por Ezra Pound, tenta definir a era pós-cristã e data a partir do 31 de outubro de 1921 (gregoriano) – a data em que Joyce escreveu as últimas palavras do seu “Ulisses” (Pound também completou 36 anos nesta data. Não podes esperar que um egomaníaco, mesmo um tão generoso quanto o velho Ez, se deixe ficar de fora da datação da Nova Era). O termo “p.s.U” significa “post scriptum Ulysses”. O primeiro de dia de novembro de 1921 será, por conseguinte, o 1 de Hefaístos do ano 1 p.s.U. O ano possui 6 meses masculinos para os deuses solares fálicos (Hefaístos, Zeus, Saturno, Hermes, Marte, Fobos – em gregoriano: Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro, março e Abril) e 6 meses femininos para as deusas lunares (Kupris, Juno, Atena, Héstia, Ártemis, Deméter – em gregoriano: Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro e Outubro).

Com este sistema, já progredimos 72 anos na era pós-cristã e entrámos no septuagésimo terceiro.

Para aqueles que têm outras ideias sobre quando iniciou a era pós-Cristã, o calendário Thelêmico data tudo a partir do 1904 gregoriano, quando Aleister Crowley recebeu (ou concebeu) o “Livro da Lei”. Isto faz com que este ano seja o 90, que os thelemitas escreveram em estilo latino – Anno XC. Por algum motivo, Crowley não renomeou os meses, então… mantenho os nomes gregorianos neste caso.

Como um multiculturalista, não tenho favoritos. De certo modo, nós já evoluímos 72 anos além do culto de Cristo, e noutro sentido já evoluímos 90 anos. Como disse Sri Syadasti, “Todos os sistemas são verdadeiros em algum sentido, falsos em algum sentido, verdadeiros e falsos em algum sentido, verdadeiros e sem sentido em algum sentido, falsos e sem sentido em algum sentido, e verdadeiros e falsos e sem sentido em algum sentido”. Um ensinamento secreto Illuminati afirma que se repetires isto 666 vezes, atingirás a Iluminação Total, em algum sentido.

Para aqueles que concordam que entrámos na Era ‘Patafísica, incluí seu calendário, iniciando no nascimento de Alfred Jarry em 8 de setembro de 1873 (ele divide o aniversário com a Virgem Maria nos mitos católicos e com Molly Bloom nos mitos joyceanos; ‘patafísicamente, esta “coincidência” deve significar algo). Assim, cada ano ‘Patafísico começa no aniversário de Jarry, renomeado para 1 de Absolut, e segue adiante através de 13 meses com 29 dias cada (Absolut, Maha, As, Sable, Decervelage, Gueles, Pedale, Clinamen, Palotin, Merdre, Gidouille, Tatane e Phalle). Já que cada semana tem sete dias e cada mês quatro semanas, e 7×4=28, temos um dia extra para cada mês. Nós chamamos a estes meses de “imaginários”, por analogia com os números imaginários. Cada mês começa num domingo, o que simplifica o sistema e assegura que o dia 13 sempre cairá numa sexta-feira.

À medida em que crescem visões e abduções por OVNIs, ocorrências de poltergeists e encontros como o Chupacabras, muitos podem considerar o calendário ‘Patafísico o mais plausível de todos. Como afirmou Jarry, todas as outras ciências lidam com generalizações, mas a ‘Patafísica lida apenas com o excepcional.

O calendário revolucionário francês data tudo a partir do 1792 gregoriano, e como eu escrevo isto a meio e às cinco Sansculotides, ou dias de festa (Les Vertus, Le Genie, Le Travail, L’Opinion e Les Recompenses), não se usa o nome do mês. Daqui a três dias (22 de setembro) começa o mês de Vendemaire, seguido por Brumaire, Frimaire, Nivose, Pluvose, Ventose, Germinal, Floreal, Prairial, Messidor, Thermidor e Fructidor.

O calendário Islâmico começa com a fuga do profeta (hégira), no ano de 4622 A.L. (622 gregoriano). D.H. significa depois da hégira, a abreviatura usual utilizada por Muçulmanos; assim, este ano será o de 1373 D.H.. Podes procurar os meses em qualquer enciclopédia. Eu não pretendo fazer todo o trabalho por ti e, se eu o fizesse, este artigo sairia maior do que o desejam os editores.

Tu já conheces o calendário Gregoriano, batucado em nossas cabeças por nossas escolas alegadamente “seculares”, e utilizado por todos os que detêm poder na nossa sociedade – bancos, corporações, até mesmo os governos. Meu sistema tenta quebrar o condicionamento/hipnose criado por esta uniformidade artificial.

O calendário Erisiano, que devemos à sublime genialidade de Malaclipse – O Mais Jovem, data os eventos a partir de 2816 A.L. (1184 AEC, gregoriano), o ano da Esnobada Original. Se não sabes o que foi a Esnobada Original, vai – já – ler o “Principia Discordia”, onde encontrarás a Esnobada, juntamente com a Maçã de Ouro, a Guerra de Tróia e tudo o mais no universo, com explicação de tudo e de uma vez por todas. Cada ano tem cinco estações, representando os cinco graus de SNAFU impostos sobre nós pela Esnobada Original – Caos, Discórdia, Confusão, Burocracia e Relações Internacionais. Isto dá-nos 73 dias para cada estações, o que equivale a um dia Chokmah na Cabala. Aqui o Sábio e Subtil encontrará um profundo segredo oculto, se puder Saber, Ousar, Querer e Calar.

A cada quarto ano, obviamente, damos de caras com aquele maldito dia extra que também deixa os Gregorianos perplexos. Nós, os Erisianos, chamamos a esse dia o Dia de São Tibb, já que todos concordam que São Tibb nunca existiu.

O calendário chinês faz mais sentido do que qualquer um dos outros, mas eu acho-o complicado demais para explicar. Tu o procurarás, certo? Enquanto isso, fica feliz por saber que vivemos agora no ano 4692, e que não tens de te preocupar sobre qualquer maldito Milénio nos próximos 308 anos.

Eu acho o calendário Maia ainda mais perturbador, mas mantenho-o nas minhas cartas porque gosto dos nomes dos dias: Crocodilo, Noite, Serpente, Veado, Jade, Macaco, Bambu, Águia, Pensamento, Tempestade, Vento, Rede, Morte, Coelho, Cão, Dente, Jaguar, Cera, Faca e Caçador. Faz-me lembrar da minha última viagem de ácido. Este ano será o de 5106 deste ciclo, mas numerosos ciclos se sucedem sem parar e não necessariamente terminam no 2012 gregoriano, não importa o que tenhas escutado; isto deve apenas marcar a abertura de outro mega-ciclo.

Pesquisa por ti mesmo sobre o sistema Hebreu. Realmente acharás que podes aprender alguma coisa importante sem esforço pessoal?

Os anos Illuminati já os conheces. As cinco estações têm os nomes Verwirrung, Zweitracht, Unordnung, Beamtennherrschaft e Realpolitik, cada uma com 73 dias. Como os Gregorianos e os Erisianos, também temos um dia extra pendurado a cada quatro anos. Chamamos-lhe Heiligefliegendekindersheissetag – nele acontecem rituais que superam – muito – os do dia de São Tibb.

A beleza deste sistema multicultural, para mim, reside na sua completa falta de fidelidade a qualquer realidade pessoal, o que condiciona os usuários a pensar em termos de realidades comparativas. Assim, para a maioria de nós, 25 de dezembro significa o dia do Cristo e, mesmo os ateus se sentem engolfados pelas Grades e Realidade do culto romano. No meu sistema de calendário múltiplo, por outro lado, a mesma data aparece de várias formas – como 25 de Zeus de 72 p.s.U, ou 25 de Dezembro do Anno XC, ou como 25 de Sable de 122 E.P., ou como 5 de Nivose de 203, ou como 22 de Rajab de 1373 D.H., ou como 67 de Relações Internacionais de 3178 y.C., ou como o 22º. dia do 11º. mês de 4592, ou como 11 de Cão de 5106, ou como 23 de Teves de 5755 A.M., ou como 67 de Realpolitik de 5994 A.L.. Tens uma vasta gama de escolhas sobre o que celebrar. Por que não celebrar todos de uma só vez? Só que não deves dirigir o carro depois.

Eu gostaria de agradecer a Hakim Bey, James Koehnline, Gregory Hill e John ver der Does pela ajuda com partes deste multicalendário. Se alguém encontrar algum erro, por favor, avise-me imediatamente.

Obviamente, a minha motivação básica para tentar popularizar este sistema reside na esperança de que algumas pessoas o utilizem e fiquem curadas – deixem de perguntar “Mas qual a data verdadeira?”. Elas então poderão constatar a falácia de todas as perguntas deste tipo, e alcançarão grande parte dos objectivos da Semântica Geral, do Erisianismo, do Desconstrucionismo e do Budismo. Alguns podem até vir a compreender o porquê de “é” não aparecer em ponto algum deste artigo.

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Traduzido por  Daniel Pellizzari 

adaptação ao português escrito em portugal de confraria da alfarroba

 
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