ZOS VEL THANATOS

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ZOS VEL THANATOS

 

o sistema de bruxaria de Austin Osman Spare é a Unificação. uma unificação entre Arte e Magia que opera no campo da estética e cujo objectivo é o auto-conhecimento do Génio Criativo. este progresivo auto-conhecimiento solta-se e percorre o caminho da encarnação – do Sonho Primordial – que se relaciona directamente com o Divino Artista.

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o sistema de bruxaria de Austin Osman Spare, denominado, também, de Culto do Zos-Kia está relacionado, fundamentalmente, com o Desejo. todo o Desejo. e no sonho que qualquer pessoa transporta no seu Ser Interior. e tal sonho pode ser materializado ou (segundo o mago): “feito carne como a verdade viva em sua experiência” e mediante um método específico de bruxaria – chamado Ressurgimento Atávico. o ressurgimento de atavismos é processado por métodos onde o cumprimento do desejo não é alheio. tal processo implica o envolvimento da interacção da vontade, o desejo e o “credo” – em liberdade e ao acaso.

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segundo o dicionário um atavismo é:

   1.- um fenómeno de herança descontinua, pela qual um descendente apresenta características de um antepassado que não se revelaram ou não estiveram latentes nas gerações intermédias;

   2.- regresso a um estado mais primitivo;

   3.- tendência a imitar ou a manter formas de vida, costumes, etc., arcaicas.

neste contexto um Atavismo será tudo aquilo que implica conteúdos subconscientes e profundamente enraizados – mas esquecidos – ou, ainda, perdidos nas profundezas da mente – que podem constituir recordações ou memórias ancestrais (tanto relativas a reencarnações passadas como a níveis de consciência pré-humanos). usualmente apresentam-se sob formas semi-bestiais e transportam consigo conteúdos emocionais mui próximos do dito terrível, para a consciência mundana quando confrontados com essa realidade. daqui surgem, naturalmente, as lendas dos espíritos familiares das bruxas e os mitos que se referem a homens que se convertem em animais (licantropia). daí as técnicas ritualistas de identificação – como é o caso do colocar máscaras de animais na maioria dos sistemas chamânicos e mágicos da antiguidade.  exemplo disso, serão os ritos do Antigo Egipto.

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a técnica da obsessão induzida por processos mágicos que Spare usou para materializar o “sonho inerente”, baseava-se na busca e na concentração no desejo. e o desejo era representado por um símbolo, o qual seria (deveria ser) o sentido ou o estar vivo e, por conseguinte, potencialmente criativo através do acto espontâneo da vontade magnetizada.

Spare utilizou três metodos para despertar os extractos de memórias subconscientes: o sistema de sigilos, o alfabeto do desejo e a utilização de símbolos “sensíveis”.

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no sistema de sigilos, Spare condensava o seu Desejo numa frase curta. posteriormente apagava (dessa frase) todas as letras que se repetiam. quando a frase estivesse “minimizada” (quando a frase do desejo estivesse reduzida ou “limpa”) compunha um grifo ou sigilo com a combinação das letras resultantes, depurando o desenho segundo a sua Arte. o símbolo resultante não devia sugerir, de forma alguma, a natureza de seu Desejo.

no Alfabeto do Desejo cada letra representa uma sensação pensante, um conceito estético, um principio sexual localizado nos estratos de memórias ancestrais apropriadas à sua forma e natureza. Spare observou certas correspondências entre os movimentos internos do impulso sexual e as formas externas da sua manifestação em símbolos, sigilos, ou letras simples representadas e carregadas com a sua energia. Spare utilizou também este alfabeto para criar imagens elementares ou “chamar” os “espíritos” de outras esferas.

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os Símbolos Sensíveis podiam ser utilizados para a profecia e adivinhação. introduzindo o sigilo adequado no subconsciente, o mago seria capaz de “pensar por si mesmo”. se o sigilo tivesse uma pregunta que se referisse a algum acontecimento futuro, criava – a partir da sua própria sensibilidade – uma verdadeira imagem criativa imprimindo aí, as partes simbólicas. se estivesse correctamente construído e sem elementos supérfluos, os quais viessem a poder criar ramificações inúteis, provocaria o nascimento da própria verdade ou resposta, uma vez que cada pergunta continha, de alguma forma, a resolução ou a própria resposta.

 

Spare considerava que, para que esta linguajem mágica viesse a ser verdadeiramente eficaz, cada individuo devia desenvolver a sua própria estrutura de alfabeto e que, a partir do subconsciente ou através de sonhos ou, ainda, por meio da escrita automática criasse o seu método – um pouco como os actuais artistas de vanguarda:… em processo e progresso. considerava, também, que os fracassos no que concerne à adivinhação, se devem ao facto de que o operador nem sempre pode conectar ou vincular a mente subconsciente com a mente consciente através do simbolismo tradicional que nos proporciona certos métodos adivinhatórios.

 

para ele, em exclusivo, Spare criou um baralho de cartas chamado ‘Arena de Anon’, que consistia numa sequência de figuras magicas – variações do seu Alfabeto do Desejo. quando os visualizava intensamente, estes podiam excitar o subconsciente e surgia (segundo ele) uma ou várias imagens concordantes com a natureza do sigilo. todavia, para que tal sigilo tivesse êxito era importante esquecer deliberadamente o objecto de desejo, uma vez que não sendo assim a consciência desvirtuaria todo o processo. e isso, impedia a sua livre materialização e – logicamente – expressão. para ele havia que vazar a mente de tudo, excepto do sigilo. e este, elaborado de tal forma que nos conduz directamente à Mistica de Zos e do Kia.

 

no Livro do Prazer, Spare define Zos como sendo o corpo do ser humano (na sua totalidade). ou seja, tudo aquilo que encarna e se manifesta – o ego cognitivo e perceptivo, “O Corpo considerado como unidade”. daí o simbolizar graficamente como uma mão.

 

o símbolo complementar é Kia o “Eu” atmosférico, “a absoluta liberdade que ao ser livre é suficientemente poderosa para ser encarada como realidade”. é a Fonte única de toda e qualquer manifestação e a Verdade única por detrás de todas as ilusões, é a Energia Primária, o Vazio. o Kia é representado simbolicamente como um Olho.

 

a ‘manipulação’ da Mão e do Olho, símbolos do intercâmbio – Falo e Vagina, provocam a “consciência do tacto” e do “êxtase na visão”, o Zos e o Kia são – portanto – instrumentos da sensibilidade. são uma visão que exprime o fundamento da Nova Sexualidade que Spare desenvolve com o objectivo de formar uma arte mágica, a arte da sensação visualizada. a que proporciona “chegar à unidade – cada um com todas as sensações”. ou seja: cada um capaz de transcender as polaridades duais da existência através da aniquilação da identidade separada por mecanismos que nos levam à Postura da Morte (Thanatos).

 

a Mão simboliza a Vontade Creativa e o Olho Desejo/Imaginação. e, no ponto médio de contacto entre esta corrente activa de vontade e a corrente passiva, a da Imaginação, nasce o conceito de Nova Sexualidade.

 

a Nova Sexualidade, no sentido que Spare concebeu, não é a sexualidade das dualidades positivas. será antes, o Grande Vazio, o vazio do Negativo – o Olho de Potencial Infinito. a Nova Sexualidade é, simplesmente, a manifestação da Não-manifestação, o nem-uma-coisa-nem-outra ou  “a entrada no vazio entre dois pontos”.

 

o mecanismo da Nova Sexualidade baseia-se na tese da dinâmica da Postura da Morte, uma fórmula desenvolvida com o propósito de materializar todo o potencial negativo em termos de um poder positivo. no antigo Egipto a múmia foi a imagem dessa fórmula e a simulação por parte do Adepto do estado – morte – nos inúmeros ritos tradicionais incluem um total “silêncio de movimento” – uma pausa nas funções psicossomáticas. Desejo, Vontade Energétizada e Obsessão, são chaves da manifestação sem limites – de qualquer forma e de qualquer poder que esteja latente no Vazio. a sua fórmula é pois – a Postura da Morte.

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a Mulher Universal o Todo Prevalecente a que Spare frequentemente alude, é simbólico neste conceito – o da Nova Sexualidade e o qual transcende a própria dualidade. ela é o símbolo da polaridade perfeita que se resolve no interior do Nada. é o Desejo Potencial e Primordial. um desejo sempre disposto a irromper espontaneamente de forma a converter-se no “nosso último credo ou crença”. é o único factor constante da nossa mutabilidade, é a Mulher Primitiva a que simboliza o Desejo de união com o Todo (desde o nosso ego consciente até à totalidade – ou, se o entendermos, desde o Zos até ao Kia).  ao ampliar o sentido de querer abarcar o Todo, podemos perceber o sentido do Eu  em si mesmo. entender-se e, finalmente, Ser. ser (Kia). pode, ainda, estar representada em formas como a da Deusa, da Bruxa, da Mulher Primitiva ou em conceitos abstractos como o sexo, o desejo ou qualquer emoção inconcebível. todas estas representações são, sem dúvida, o que Spare denomina “credo ou crença livre” – e estas ferramentas são úteis temporalmente para o Kiasta. porém devemos advertir que o familiar produz fadiga e esta leva-nos à indiferença e à esterilidade. assim sendo, em última instância, há que evitar que estes “credos ou crenças” se quedem enquistados por formas particulares e cheguem a ser familiares, já que a familiaridade conduz à desvitalização, à preguiça e a atitudes convencionais (entenda-se não criativas).

Spare concentrou o tema de sua doutrina no Credo da Afirmação de Zos vel Thanatos.

“Creio no corpo agora e siempre… porque sou a Luz, a Verdade, a Lei, o Caminho e nada encontrará nada salvo através do seu corpo. Não os ensinei o caminho ecléctico entre os êxtases; aquele modo precário e funâmbulo…? Todavia não o conseguiste, por cansados e temerosos. Despertai! Não vos deixeis hipnotizar pela triste realidade em que acreditais e enganais. Uma vez  que a Grande Maré a da mudança chegou. A grande Campainha soou. Deixai que outros esperem a imolação involuntária, a forçada redenção tão certa para muitos apóstatas da Vida. Neste dia, vos peço que procureis na vossa memória, porque grandes unidades se aproximam. O Incentivador de todas as memórias és tu. A tua Alma. A Vida é, tão só, desejo. A Morte reformulação… Eu sou a ressurreição… Eu, que transcendo êxtase por êxtase, meditando na Necessidade de Não Ser no Auto-Amor…” 

             o Credo altamente técnico de Zos-Kia resume-se a poucas sentenças:

nosso Livro Sagrado, o Livro do Prazer. nosso Caminho, o Caminho ecléctico entre êxtases;  aquele caminho precário e funâmbulo. nossa Deidade, a Mulher Todo-Prevalecente. (“e eu me extraviei com ela, no percurso directo”). nosso Credo, o Corpo Vivo. (Zos): (“digo-vos de novo: este é o vosso momento de realidade o corpo vivo”). nosso Sacramento, os Sagrados Conceitos Intermédios. nossa Palavra, não importa – não necessita ser. nossa Eterna Estância, o místico estado de nem um nem outro. o “Eu” Atmosférico. (Kia).

 

a nossa Lei, Violar todas las Leis.

 

(tradução livre a partir da versão francesa por: manuel de almeida e sousa)

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