do texto e do drama

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A concepção do texto como elemento dramático (base) é superado.

A compreensão do drama passa naturalmente pela justaposição de códigos, símbolos e signos (desde a vocalização ao gesto, da atitude aos elementos técnicos – som, luz, etc. – passando pelo elemento linguístico, assim como tudo o que intervém em conformidade com a actuação e tudo o que se oferece no espectáculo enquanto objecto estético – total).

Impõe-se, pois, uma valorização da acção dramática ainda que se questione estilo, forma, género… tudo isto não exclui, naturalmente, as propostas reflexivas e a presença de um «espectador» (enquanto colectivo) com seus hábitos de consumo cultural…

A imposição de conceitos como sejam o espaço frontal  ou o diálogo formal, implicam uma quase impossibilidade de viajarmos por entre propostas que impliquem o drama em espaço físico, dinâmico, liberto …. um espaço que; como diria Artaud: “exige seja ocupado e que permita uma linguagem própria e concreta….” ou seja, um espaço aberto aos sentidos, um espaço independente e livre de qualquer imposição.

Um espaço aberto a qualquer linguagem, à espontaneidade e à criatividade que irrompe do corpo (todo) do actor enquanto criador de acção, enquanto sacerdote de um ritual – o drama.

“Há uma poesia dos sentidos 

como há uma poesia da linguagem… 

essa linguagem é o tudo, o tudo 

que ocupa a cena, tudo o 

que pode expressar-se 

ou manifestar-se…” 

(Antonin Artaud)

Estamos perante uma acção que se afasta do convencional, logo que se afasta do logocentrismo, do teatro burguês  – a visão de um teatro como texto representado, valoriza apenas um tipo de representação muito determinado e concreto. representação que tem limitado (durante anos) a possibilidade de potênciar outro tipo de mecanismos tão mais eficazes na sua teatralidade ou relegado para espaços marginais ou experimentais as tentativas de impor a diferença. Difícil, sem dúvida, afastar este formalismo tão entranhado na nossa prática cultural e contrapor-lhe manifestações radicalmente opostas como seja o regresso a manifestações claramente populares e tradicionais, onde não falte a acrobacia, dança, técnicas circenses, etc. isto para não mencionar a recusa sistemática ao absurdo, à criação de efeitos que se afastam das convenções do que é tido como correcto em arte… a recusa da da liberdade, espontaneidade, que irrompe e subverte todas as convenções de um teatro limitado ao debitar de palavras ou a ideia de um teatro de autor. Hà pois, uma certa tendência para conceptualizar o teatral na relação com determinados espaços como por ex. O espaço à Italiana – frontal. E a um público determinado. Podemos mesmo afirmar que práticas criadoras de um texto preferencialmente literário impõe um diálogo francamente autoritário.

A poesia da linguagem é natural nas todas vertentes expressivas (música, dança, plástica, pantomina, mímica, gesticulação, entonização – entendida, esta, como essa faculdade que tem as palavras de criar uma musica própria – um ritmo). O caminho que conduz ao movimento, que leva o actor a compreender as linguagens em jogo, produz-se pela via dos sentidos. O submeter-se espontaneamente e cuidadosamente a estímulos diversos que permitam observar as reacções naturais do corpo enquanto organismo. Um trabalho com cor, com ritmo, com materiais, com a música para que se possa entender a dinâmica de uma cor determinada, dum material como o ferro ou a madeira, sentir o tempo, o vento. 

Um teatro abstracto mas que pode provocar o sentido de pesquisa do espiritual, uma ideia de formas e matérias. Submergir ao actor noutra dimensão de consciência que permite extrair de si mesmo a essência de seus estímulos e movimentos.E o movimento é essa força perfeita que explica o mundo…  

São os corpos, as massas, que no seu envolvimento encontram a justiça e a perfeição do 

ritmo, isoladas de uma racionalização que só pode chegar como reflexão 

final e não procedente da prática dramática.

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