sonho e realidade VII-o louco

decifrar o oculto

algo nos escapa
e …………………………………………………………………………………………….
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………………………….. seduzidos
introduzimos
o_fascínio_no_campo_de_manobras
os objectos transmitem sinais
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………………………….. o louco é a lâmina que abre e fecha o livro
(o alfa e o omega) ele é a transgressão ao estabelecido
ao não numerado …………………………………………………………………. o louco
é aquela parte de nós
demasiado sábia para se extasiar diante do mistério da criação
e
audaz o bastante para se lançar à aventura
o louco
conforma-se com uma nova forma de viver a noite

e
tudo começa ………………………………………………………………………… um dia
muito antes de terem nascido os deuses
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…………………………………………. o louco despertou de um sono profundo
e
descobriu que lhe roubaram as máscaras
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as sete máscaras que havia moldado e usado nas suas sete vidas
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………………………………………………………………………………………………………….
– benditos sejam os ladrões que me roubaram as minhas máscaras!
disse (do alto da sua bicicleta)
– graças a eles tornei-me louco e, com a minha loucura recuperei a liberdade e
a salvação
a liberdade de estar só
e
a salvo do julgamento dos outros
e
assim ………………………………………………………………………………………………….
……………………………………………………………………………………………………………
……………………………………………………………………………………………………………
……………………………………………………………………………………………………………
……………………………………………………………………………………………………………
…………………………………………………………………………………… a compreensão
depende
de
cada UM

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sonho e realidade VI-comunicar

comunicamos de forma | de forma | de na forma | a da palavra | a do silêncio | e as que | as que menos | as que menos comunicam | são | são precisamente | elas | as palavras

são as que menos | menos comunicam e | as que mais falsas | falsas ou imprecisas | e a razão | a razão razoável | razoável porque | porque deveria | e se deveria | porque não | porque não imagens | imagens a acompanhar | e barulhos | barulhos oscilantes | ainda que | ainda que  mínimos | ainda que  ondulantes | ainda que

as páginas | as páginas em branco | e também | também os olhares | também poros | também respirações | para mais | muito mais comunicação | mais verdadeiramente mais | e exigir reflexos | metamorfoses | toques carnais | toques no ir e no voltar | um toque | um toque aqui | ali | mas um toque | uma carícia e um toque | como afago | um toque que | que | e que se estende

gerador | o toque | gerador de uma acção | comunicando o comportamento | a magia do comportamento | da acção | a de comunicar

comunicar | comunicar com |  comunicar com beijos

sonho e realidade V do kaos

U M  O L H A R   S O B R E  A  R E A L I D A D E

CAOS?
uma pergunta… e uma resposta no olhar de nossa janela. a resposta não é completa tão pouco objectiva – apenas um desfazer de preconceitos e um olhar diferente.

o caos é a possibilidade de tudo…
os gregos o diziam. todavia o público tem uma noção limitada sobre ele – o caos.

para ele (público) o caos é algo dos domínios do mal, da desordem… mas serão estes os conceitos de caos?

o caos enquanto possibilidade de tudo, é uma teoria. uma forma de interpretar a realidade…

os sistemas dinâmicos comportam variações e, com o decorrer do tempo… de forma aleatória. sempre.

dizem que estes sistemas estão sempre presentes e em factos simples; como o de uma folha que cai de uma árvore ou o de uma borboleta batendo asas.

a imprevisão está ligada ao sistema e, a evolução caótica é o resultado desta imprevisibilidade.

olhemos através de nossa janela…
uma acção em progresso. um acto único nos encontros de arte contemporânea algarve-andaluzia (tavira) porque:

no princípio era o caos… talvez em busca das nossas raízes perdidas – a lei é, todavia, simples… porém, o comportamento no espaço
complexo

base: “arte, caos, ou a própria realidade?”

sonho e realidade IV-desafiando os verdadeiros poetas

os irmãos da confraria com seus aventais

desafiávamos, no já distante ano de 2008, os poetas do reino a participarem num projecto “alfarroba”…

depois, tudo caiu no esquecimento – ainda que tenhamos recebido algumas propostas de edição ou para edição. mas insuficientes. rebuscando arquivos, concluímos (só agora) que grandes obras literárias se perfilavam – perfilam.

estamos prontos para um novo desafio… queremos mesmo editar um livro que obedeça à proposta. uma edição que compilará o recebido. actuem e actuaremos.

aí vai (de novo) a proposta:

ness
3′ art3

uma 3sp3ci3 d3 acção – 3 a palavra 3stá r3duzida a z3ro – um proj3cto da confraria de alfarroba

introdução do grão mestre da alfarroba

>>>> pois …… é ……>  e tudo não passa de um sonho… >>>> a poesia ness/ velocipédica/ alfarroba
>>> é um jogo de azar
e
assim sendo
sugerimos como ferramenta base um computador com tradutor de texto vulgar …..> não mais.
não precisa de fazer nada >>>>> é só deixar que o azar actue livremente

como escrever um poema

>>>> fácil >>>> é como o rasgar de uma folha de papel…
então >>>>> escolha, ou elabore, o seu texto base >>>> escreva-o
e >>>> na internet procure um tradutor >>>> qualquer um serve >>>>> não deve colocar nas palavras acentos ou outros símbolos >>>> introduza o texto na caixa correspondente
e …>>>> clique no botão

>>> ex. escolha a língua francesa ou inglesa … >>>>> verifique o resultado. copie e volte a traduzir … >>>>> agora para português.

O RESULTADO É SURPREENDENTE!?…. O INÍCIO DO POEMA ESTÁ CONSEGUIDO >>>>> VOCÊ É UM POETA NESS AUTÊNTICO!!…..

não está satisfeito com o resultado?….
pas de problémme!…

volte a processar…. opte, agora, por uma tradução para chinês, grego… e >>>> em seguida volte ao português.

os poemas ness/ velocipédicos/ alfarroba não devem ser retocados >>>> os poemas ness/ velocipédicos/ alfarroba são um desafio poético (a sério).

recusamos a alteração >>>> recusamos plagiar os tradutores web >>> recusamos ser poetas como qualquer outro >>> nós somos ness/ velocipédicos/ alfarroba >>>>>>>>>>> somos originais
e
vamos criar a nossa própria editora >>>> cada livro nosso >>>>> uma pedrada no charco poético nacional
nós… buscamos resultados surpreendentemente surpreendentes
e
>>> ainda que surjam palavras até ao momento desconhecidas >>>> cada palavra (nova) enriquecerá o vocabulário ness ….. serão uma nova entrada no nosso dicionário ness

exemplo poético de grande dimensão ness:

saber não rimar
com a solidão do grande chapéu charmant de dias
para pensar nos obstru-sistemas
das rodas de exquis
do mo e nos parpados
dos comprimentos pelos rinconeras
das danças do roxo trimable esse
de vibra o crime da inércia
quando alimentam com demoníaco
por favor às leituras de meu shout
do herbaceo
escutar da pena corrals
despido
o que você o levanta

sonho e realidade III

 

o clássico anarquismo afirma-se no combate à coroa e à igreja

afirma-se, portanto, igualitário e… ateísta

mas o rei passou a transportar o rótulo de anarquista. e… o padre, qual mago de circo, tirou já, da cartola, o rótulo de herege. o dueto não deixa espaço ao político, ao democrata, ao socialista – esses, não sentem a música porque não têm ritmo…

o terrorista e o monarca são arquétipos… os outros são meros funcionários.

o tempo em que o anarquista e o rei se estrangulavam numa esplêndida batalha, passou. os dois estão, agora, relegados ao caixote de lixo dos nossos computadores – não passam de meras curiosidades de um passado que rebuscamos no google. eles eram os dois rostos de janus – a unidade. e… o sonho de uma razão. outra…

eles são os monstros mais desejados. talvez – também – desejosos.

é o anarquista/rei que nos move. é o homem/deus que nos faz dançar ao ritmo pausado de um rito mágico e presidido por uma divindade que habita os nossos mais fantásticos sonhos e… nossas fantasias – as que os outros chamam utopias – precisamente: “o estado sou eu”…

agarra-o e… segura-o.

a poesia experimental portuguesa em processo

– a experiência adquirida nos já muitos projectos experimentais levou-nos – sempre – em demanda de uma outra realidade estética onde a palavra rima com sonoridade… as letras do alfabeto substituem claves, mínimas, semínimas, colcheias… o corpo do actor adquire o significado que lhe atribuem a sua vibração, movimento…
buscamos certa harmonia… mesmo quando pela destruição levados pelo impulso poético.

(sobre as acções de mandrágora)

o novo espectáculo de mandrágora contempla a poesia experimental portuguesa

sonho e realidade II

sonho e realidade. o mistério

a metáfora é ———–> a do caminho, do conhecimento

os maus sonhos depositamos numa caixa negra por debaixo da mão do deus (dos deuses). os bons sonhos, esses, vivem-se… passeiam-se na estrutura da árvore – a da vida – pelos seus 22 caminhos.

os campos, os castelos, as quinas, a coroa, o timbre e… o encoberto

símbolos, avisos, tempos

um 11ª símbolo está oculto – encoberto. um ramo. aparentemente desligado dos demais. guardião dos misteriosos segredos – o  maior dos segredos

um rosto contempla o ocidente ———–> “o mar portuguez”

contempla apenas, não age enquanto as armas do brasão estejam incorrectamente inscritas… faltam os 11 besantes os 11 dinheiros inscritos na bandeira do primeiro dos reis –  5 grupos de 11 besantes (representavam o direito de cunhar moeda – mas facto é que são os 11 sefirot da árvore da vida) e, esses 5 grupos (as 5 quinas) deverão apresentar a forma de cruz

assim é

DadA por Hugo Ball

Zurique, 14 de Julho de 1916

 

DadA é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele. Dadá vem do dicionário. É bestialmente simples. Em francês quer dizer “cavalo de pau”. Em alemão: “Não me chateies, faz favor, adeus, até à próxima!” Em romeno: “Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso.” E assim por diante.

dada-mona-lisa de m. duchamp

Uma palavra internacional. Apenas uma palavra e uma palavra como movimento. É simplesmente bestial. Ao fazer dela uma tendência da arte, é claro que vamos arranjar complicações. Psicologia Dadá, literatura Dadá, burguesia Dadá e vós, excelentíssimo poeta, que sempre poetastes com palavras, mas nunca a palavra propriamente dita. Guerra mundial Dadá que nunca mais acaba, revolução Dadá que nunca mais começa. Dadá, vós, amigos e Também poetas, queridíssimos Evangelistas. Dadá Tzara, Dadá Huelsenbeck, Dadá m’Dadá, Dadá mhm’Dadá, Dadá Hue, Dadá Tza.

Como conquistar a eterna bemaventurança? Dizendo Dadá. Como ser célebre? Dizendo Dadá. Com nobre gesto e maneiras finas. Até à loucura, até perder a consciência. Como desfazer-nos de tudo o que é enguia e dia-a-dia, de tudo o que é simpático e linfático, de tudo o que é moralizado, animalizado, enfeitado? Dizendo Dadá. Dadá é a alma-do-mundo, Dadá é o Coiso, Dadá é o melhor sabão-de-leite-de-lírio do mundo. Dadá Senhor Rubiner, Dadá Senhor Korrodi, Dadá Senhor Anastasius Lilienstein.

Quer dizer, em alemão: a hospitalidade da Suíça é incomparável, e em estética tudo depende da norma.

dada-messe colagem de raoul hausmann -1920

Leio versos que não pretendem menos que isto: dispensar a linguagem. Dadá Johann Fuchsgang Goethe. Dadá Stendhal. Dadá Buda, Dalai Lama, Dadá m’Dadá, Dadá m’Dadá, Dadá mhm’Dadá. Tudo depende da ligação e de esta ser um pouco interrompida. Não quero nenhuma palavra que tenha sido descoberta por outrem. Todas as palavras foram descobertas pelos outros. Quero a minha própria asneira, e vogais e consoantes também que lhe correspondam. Se uma vibração mede sete centímetros, quero palavras que meçam precisamente sete centímetros. As palavras do senhor Silva só medem dois centímetros e meio.
Assim podemos ver perfeitamente como surge a linguagem articulada. Pura e simplesmente deixo cair os sons. Surgem palavras, ombros de palavras; pernas, braços, mãos de palavras. Au, oi, u. Não devemos deixar surgir muitas palavras. Um verso é a oportunidade de dispensarmos palavras e linguagem. Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa.
Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.

 Hugo Ball

do surrealismo portugues

 um

AVISO

aviso a tempo, por causa do tempo

António Maria Lisboa (1928/1953)

Declara-se para que se saiba:

 

1.º que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2.º que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entanto fruto e elemento exacto e necessário da sociedade – com a qual não simpatizamos igualmente.

3.º que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade. Seremos nós os melhores cofres-fortes dos segredos do estado: ignoramo-los.

4.º que sendo individualmente e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regozijo em ver essas mesmas normas nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5.º que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a familia, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, cientifico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.

6.º que a critica é a forma da nossa permanência.

Acreditamos que nestes seis pontos fundamentais vão os elementos necessários para que o Estado, os Governos, a Policia e a Sociedade nos respeitem; nós há muito que nos limitamos neles e neles temos conhecido a maior liberdade. Não se tem do mesmo modo limitado o Estado, a Policia e a Sociedade e muito menos o seu ultimo reduto: a Familia. A eles permaneceremos fiéis pois todo o nosso próprio destino e não só parte dele a estes seis pontos andam ligados como homens, como artistas, como poetas e por paradoxo como membros desta sociedade.

Projecto de Sucessão

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra.

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponhas as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar de fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

 

António Maria Lisboa

Manifesto O Teatro da Morte

Manifesto: O Teatro da Morte

por Tadeusz Kantor

 

1. Craig afirma: a marionete deve voltar; o actor vivo deve desaparecer. O homem, criado pela natureza, é uma ingerência estranha na estrutura abstracta de uma obra de arte.
De acordo com Gordon Craig, em algum lugar às margens do Ganges, duas mulheres invadiram o templo da Divina Marionete, que conservava sob vigilância o segredo do verdadeiro TEATRO. Essas duas mulheres tinham inveja desse SER perfeito e almejavam seu PAPEL, que era iluminar o espírito dos homens pelo sentimento sagrado da existência de Deus; almejavam a sua GLÓRIA. Apropriaram-se de seus movimentos e seus gestos, das suas vestimentas maravilhosas, e, recorrendo a uma medíocre paródia, admiraram-se satisfazendo os gostos vulgares da plebe. Quando enfim construíram um templo à imagem do outro, o teatro moderno – o que conhecemos muito bem e que ainda permanece – nasceu assim: a ruidosa Instituição de utilidade pública. E, ao mesmo tempo que ela, surgiu o ACTOR.
Em apoio da sua tese Craig invoca a opinião de Eleonora Duse: “Para salvar o teatro, é preciso destruí-lo; é preciso que todos os comediantes e todas as comediantes morram de peste… são eles que levantam obstáculos à arte…”

2. Teoria de Craig: o homem-actor suplanta a marionete e toma seu lugar, causando assim o declínio do teatro.
Há algo imponente na atitude desse grande utopista quando afirma: “Exijo com toda a seriedade o retorno do conceito da supermarionete ao teatro… e desde que ela reapareça, as pessoas poderão novamente venerar a felicidade da existência e render uma divina e alegre homenagem à MORTE.” De acordo com a estética SIMBOLISTA, Craig considerava o homem submetido a paixões diversas, a emoções incontroláveis e, por conseguinte, casuais como um elemento absolutamente estranho à natureza homogénea e à estrutura de uma obra de arte, como um elemento destruidor do seu carácter fundamental: a coesão. Craig – assim como os simbolistas cujo programa, em seu tempo, teve um desenvolvimento notável – tinha atrás de si os fenómenos isolados mais extraordinários que, no século XIX, anunciavam uma época nova assim como uma arte nova: Heinrich von Kleist, Ernst Theodor Hoffmann, Edgar Allan Poe… Cem anos antes, e por razões idênticas às de Craig, Kleist tinha exigido que o actor fosse substituído por uma marionete, pensando que o organismo humano, submetido às leis da NATUREZA, constituía uma ingerência estranha na ficção artística nascida de uma construção do intelecto. As outras censuras de Kleist faziam-se sobre os limites das possibilidades físicas do homem e ele denunciava além disso o papel nefasto do controle permanente da consciência, incompatível com os conceitos de encantamento e de beleza.

3. Da mística romântica dos manequins e das criações artificiais do homem do século XIV ao racionalismo abstrato do século XX
Ao longo do caminho que se pensava seguro e que foi tomado ao homem do Século das luzes e do racionalismo, eis que avançam, saindo repentinamente das trevas, sempre mais numerosos, os SÓSIAS, os MANEQUINS, os AUTÓMATOS, os HOMÚNCULOS – criações artificiais que são várias injúrias às criações próprias da NATUREZA e que carregam em si todo o menosprezo, todos os sonhos da humanidade, a morte, o horror e o terror. Assiste-se ao aparecimento da fé nas forças misteriosas do MOVIMENTO MECÂNICO, ao nascimento de uma paixão maníaca de inventar um MECANISMO que sobrepujasse em perfeição, em implacabilidade, o tão vulnerável organismo humano. A tudo isto num clima de satanismo, no limite do charlatanismo, das práticas ilegais, da magia, do crime, do pesadelo. É a CIÊNCIA-FICÇÃO da época, na qual um cérebro humano demoníaco cria o HOMEM ARTIFICIAL. Isto significava simultaneamente uma crise de confiança súbita em relação à NATUREZA e a esses domínios da actividade dos homens que lhe estão intimamente associados.
Paradoxalmente, é dessas tentativas românticas e diabólicas ao ponto de negar à natureza seu direito à criação que nasce e se desenvolve o movimento RACIONALISTA ou mesmo MATERIALISTA – sempre mais independente e sempre mais perigosamente distanciado da NATUREZA – a corrida para um “MUNDO SEM OBJECTO”, para o CONSTRUTIVISMO, o FUNCIONALISMO, o MAQUINISMO, a ABSTRACÇÃO e, finalmente, o VISUALISMO PURISTA que reconhece simplesmente a “presença física” de uma obra de arte. Esta hipótese arriscada que tende a estabelecer a génese pouco gloriosa do século do cientismo e da técnica engaja apenas minha própria consciência e serve unicamente à minha satisfação pessoal.

4. O dadaísmo, introduzindo a “realidade já pronta” (os elementos da vida), destruiu os conceitos de homogeneidade e de coerência da uma obra de arte postulados pelo simbolismo, a Arte nova e por Craig
Mas retornemos à marionete de Craig. Sua ideia de substituir um actor vivo por um manequim, por uma criação artificial e mecânica, em nome da conservação perfeita da homogeneidade e da coerência da obra de arte, não faz mais sentido – hoje. Experiências ulteriores que destruíram a homogeneidade da estrutura de uma obra de arte introduziram nela elementos ESTRANHOS, através de colagens e de montagens; a aceitação da realidade “já pronta”; o pleno reconhecimento do acaso; a localização da obra de arte na estreita fronteira entre REALIDADE DA VIDA e FICÇÃO ARTÍSTICA – tudo isto tornou negligenciáveis os escrúpulos do início de nosso século, do período do simbolismo e da “Art nova”.
A alternativa “arte autónoma de estrutura cerebral ou perigo de naturalismo” deixou de ser a única possibilidade.
Se o teatro, em seus momentos de fraqueza, sucumbiu ao organismo humano vivo e a suas leis, é porque aceitou, automática e logicamente, esta forma de imitação da vida que constituem sua representação e sua recriação.
Ao contrário, nos momentos em que o teatro era suficientemente forte e independente para permitir libertar-se dos constrangimentos da vida e do homem, produzia os equivalentes artificiais da vida que, sujeitando-se à abstracção do espaço e do tempo, eram ainda mais vivos e mais aptos a atingir a absoluta coesão.
Em nossos dias essa alternativa na escolha perdeu tanto seu significado quanto seu carácter exclusivo. Pois criou-se uma nova situação no domínio da arte e existem novos quadros de expressão.
O surgimento do conceito de REALIDADE “JÁ PRONTA” retirada do contexto da existência tornou possíveis sua ANEXAÇÃO, sua INTEGRAÇÃO na obra de arte através da DECISÃO, do GESTO e do RITUAL. E isto é presentemente muito mais fascinante e mais poderosamente inserido no real que qualquer entidade abstracta ou artificialmente elaborada, ou que esse mundo surrealista do “MARAVILHOSO” de André Breton. Happenings, “eventos” e “instalações” reabilitaram impetuosamente regiões inteiras da REALIDADE até então desprezadas, desembaraçando-as do peso do seu destino – terra a terra. Esse DESLOCAMENTO da realidade pragmática – essa “suspensão” para fora das fronteiras da prática quotidiana – puseram em movimento a imaginação dos homens muito mais profundamente que a realidade surrealista do sonho onírico.
Foi isto que finalmente fez desaparecer toda importância aos temores de ver o homem e sua vida interferir no plano da arte.

5. Da “realidade imediata” do happening à desmaterialização dos elementos da obra de arte.
Portanto, como toda fascinação, também esta se tornou, depois de certo tempo, CONVENÇÃO pura – universalmente, tolamente, vulgarmente utilizada. Essas manipulações quase rituais da realidade, ligadas à contestação do ESTADO ARTÍSTICO e do LIGAR reservado à arte, começaram, pouco a pouco, a tomar um sentido e um significado diferentes. A PRESENÇA material, física do objecto e o TEMPO PRESENTE no qual podem figurar unicamente a actividade e a acção aparentemente atingiram seus limites e tornaram-se um entrave. ULTRAPASSÁ-LAS significava privar essas relações de sua IMPORTÂNCIA material e funcional, ou seja, de sua possível APREENSÃO.
(Dado que se trata aqui de um período muito recente, ainda não terminado, fluido, as considerações seguintes referem-se e ligam-se às minhas próprias actividades criativas.) O objecto (A Cadeira, Oslo, 1970) tornava-se vazio, desprovido de expressão, de encadeamentos, de pontos de referência, de sinais de uma intercomunicação voluntária, de sua mensagem; ele estava orientado para nenhum lugar e tornava-se um engodo. Situações e acções permaneciam encerradas em seu próprio CIRCUITO, ENIGMÁTICAS (O Teatro impossível, 1973). Em minha manifestação intitulada Cambriolage (Furto) deu-se uma INVASÃO ilegítima sobre o terreno em que a realidade tangível encontrava seus prolongamentos INVISÍVEIS. Cada vez mais distintamente se precisa o papel do PENSAMENTO, da MEMÓRIA e do TEMPO.

Tadeusz Kantor