conto-te

A

tudo começou quando estava a apertar o tubo da pasta de dentes… precisamente nesse momento. e depois…
depois tomámos consciência do que estava a acontecer. espera…
é isso. havia um pintor que desistiu de pintar quadros e resolveu dedicar-se a outros negócios. e iniciou-se na comercialização de sanduíches enroladas em papel de jornal. com o passar do tempo e farto das sanduíches, despediu-se. é aí, só aí, que se perde na memória das experiências passadas.
mas…
passemos adiante. passemos à história. a verdadeira. ou, em substituição, outra qualquer  mas… de relevância similar.

não.
não consigo escrever nada… tudo o que escrevo perde-se nos dias vividos. no “vou fazer-te lembrar”. e isso desgosta-me. de mim. de e para mim.

quando estava a apertar o tubo da pasta de dentes… nesse preciso momento, tudo começou. ouviu-se vozes. vozes estranhas que debitaram discursos algo confusos. afinal… justificava-se. é que estávamos a atravessar, na horizontal, tempos de guerra. e, nos tempos de guerra, ansiamos por informação. por qualquer informação. ainda que transmitida por tecnologias obsoletas – rádios, vozes interiores…
– como é que sabes de todas essas coisas?
perguntei-me e… respondi em seguida. ainda que inseguro:
– porque…

aqui houve uma pausa. um momento semi-morto que se quebrou quando decidi intervir sobre os meus ou… com os meus maus pensamentos. assim:
– espera um momento…! sabes…? não sei quem sou quando a névoa cobre o vale, não mesmo. entendes? e, a propósito, onde estamos?
claro que não houve resposta. não poderia haver, nem isso seria necessário. necessário seria que… pudesse passar uma noite tranquila, sem solavancos. que pudesse dormir… mas não. estávamos a atravessar um tempo de tensões imponderáveis. um tempo que, num abrir e fechar de olhos, navega incidentes.

nesta história habitam duas mulheres e três crianças.

– bom dia.
disse a primeira mulher. e a segunda ficou muda… melhor, não disse. nada disse. os seus olhares fixaram-se – um no outro…
o interessante nisto é que os olhos das duas protagonistas brilharam de felicidade, e as crianças, as três crianças da história, atravessaram a fronteira do razoável e saíram. não mais foram vistas. precisamente. deixaram de pertencer à narrativa.
é aqui que irrompe um corpo ainda jovem. um adolescente que descansa o seu olhar nas duas figuras femininas e resolve entrar na sala contígua onde está, sentado num sofá, um homem. riem-se. um para o outro. saúdam-se e o moço diz:
– fui ao teatro.
o outro nada diz. apenas esboça um sorriso. o jovem volta à palavra:
– fui ao teatro.
– já percebi.
replicou o outro. e ali ficaram no digo-eu-dizes-tu por algum tempo. até que o relógio da sala iniciou o seu movimento circular e o homem se precipitou para o canto da sala onde, encostada, permanecia uma vassoura. o jovem seguiu, sempre, os movimentos do mais velho.
deslumbrado?
é bem possível.
o homem desenha, agora, uma sedutora dança – sempre acompanhado pela vassoura.

como terão dado conta, houve uma curta pausa para que o autor pudesse beber um copo de tinto e comer uma sanduíche de chouriço assado e dois pastéis de bacalhau. e, como é normal nestas coisas literárias, as personagens femininas anteriormente referidas continuam como estátuas, presas pelo olhar, no salão principal da nossa história.

– porque não esfregas, por dentro, com palha de aço…?
perguntou o rapaz.
porém, o nosso homem nada disse para evitar uma quebra que viesse a impossibilitar a visualização do acto. e lá prosseguiu (com a vassoura) numa dança surpreendente.
– limpa como nunca.
tornou o mancebo.
foi então que o homem parou. e, como uma flecha, lançou a vassoura na direcção do outro. este sussurrou… melhor, deixou escapar um sussurro sombrio.
– olha-me. olha-nos. como gotas. gotas cristalizadas e insatisfeitas… ah…! os ossos aos pedaços…
então…
só então se senta. desenvolve-se, neste momento, um surpreendente e vigoroso silêncio. gera-se um calor extremo, talvez empurrado pelo vento. um calor que distrai a aparência das coisas com a sua própria distracção. em seguida, erguendo-se com firmeza, o mais velho apenas diz:
– vai buscar a espingarda!…
boquiaberto, o jovem dispara uma resposta:
– vendeste-a!
e após um breve silêncio:
– da espingarda comemos dois meses… lembras-te?
– um actor não precisa de uma arma de fogo para ter uma espingarda nas unhas! tudo é aquilo que queremos que seja… sabes disso. e há muito.
respondeu prontamente o homem. então, o efebo percorre com olhar ziguezagueante a sala e os seus olhos colam-se à vassoura. e… a vassoura torna-se espingarda. aponta, ensaia movimentos agressivos com o cabo da ferramenta de limpeza. o nosso homem vai colocar-se à sua frente e… ordena:
– dispara!
confuso, o rapazinho só diz:
– com a vassoura?… estás louco?
– repito-te:… um actor não precisa de uma espingarda. tudo são espingardas para ele. a verdade é a espingarda…! e a vassoura… deixa de existir quando a verdade é atingida. vá. pega nessa merda e dispara!
ao ouvir as palavras do mais velho, paira na sua mente uma sensação de estarem, os dois, presos à parede. reduzidos à dimensão de sombras… e percebe que cada um deverá pensar no outro como inimigo a abater.

e nós… prevemos que um bloco de gelo encantado se quebrará, mais tarde ou mais cedo e que os dois homens desta história fazem já parte de uma ridícula fotografia.
porém… o melhor será prosseguir e esquecer tudo. de tudo o resto. talvez muito em breve saibamos soletrar convenientemente a narrativa presente.

prossigamos então e encetemos um outro capítulo o

B

o rapaz está, neste momento, a dirigir o cano da espingarda-vassoura para o seu interlocutor. os seus pensamentos vagueiam… ocupam-se de enganos que se alimentam de rasgos… chega a sentir-se superior a si próprio. e está – quase – a acreditar ser o herói da história. não. ainda não. é invadido, entrementes, pela dúvida e…:
– tomaste os medicamentos?
– claro!… mas não é isso que está em jogo. agora… agora, só quero que me mates! que dispares, sobre mim, um tiro de carabina. um tiro certeiro sobre este corpo devorado pela dança. pelo palco. pelos aplausos incertos do público. quero. exijo que me mates. agora. já!…
o homem falou e as ideias arrastaram-se pelos labirintos. o moço escutou. confuso. os seus fantasmas escorreram-lhe pela testa. não os via, mas… compreendeu. ainda não era tarde. claro. o crime deveria ser consumado. mas… não seria mais natural evitá-lo?
– não posso. não posso, pai. não te posso matar!
a voz do sangue foi abafada por um tremendo gargalhar. e o riso alarve cedeu espaço à palavra:
– não te posso matar, pai!
– pai?… não. o teu pai é… era o meu mestre. estou pronto para a viagem rapazinho. estou pronto para me reencontrar com ele. mata-me! basta um tiro certeiro. aqui!

as histórias são um bom local para a prática de assassínios e suicídios. carreguemos as armas e disparemos. nunca distraídos. antes com os sentidos alerta, abstraindo-nos do ruído da chuva. e com a atenção devida. ainda que a nossa escrita se resuma a meia dúzia de frases húmidas.
agora sim. a vassoura disparou dois tiros porque o nosso herói acreditou que era…

verdade.
e… a verdade permite-nos passar ao novo capítulo. o capítulo…

C

–    passei hoje pela casa onde nasci. as janelas tiritavam de frio. devia ser do vento da manhã porque em agosto… lá e frente a frente, dialogámos com a memória das vozes rebocadas nas paredes. reclamámos a atenção devida. e indiferentes aos transeuntes, saltámos, jogámos e  descobrimos tudo o que o tempo nos ensinou…

foi assim que o diálogo entre as duas mulheres ganhou forma e, digamos, algum vigor. de resto… pouco há a dizer sobre a acção.
duas mulheres sem grandes ventanias. inconscientes, bárbaras e utilizadoras da palavra enlouquecida pela luz. duas mulheres que presidem a cerimoniais bélicos, que poderiam usar um elmo onde flutuassem asas douradas. estas mulheres nascidas das águas…

– não estou tão certa do que afirmas.
disse a segunda mulher. e a primeira atalhou:
– um pintor sabe pintar bem melhor do que um taxista, porque um taxista só precisa de reconhecer as cores de um sinal de trânsito…
e prosseguiu, meio desencantada:
– mas que raio… que coisas devo dizer hoje? é que a mente raciocina, mas o amor move-se sob o sol, a lua, as estrelas… entendes?
– não mesmo…
respondeu a segunda.

de facto, não se lembravam de quase nada. o que será normal nestes espaços de escrita. daí se infere que qualquer das duas figuras não tenha tido tempo para consolidar a memória semântica, tal como é exigido por qualquer autor de hoje às suas personagens. mas elas não entenderam, ao que parece, o fio condutor da história e isso poderá vir a ser grave. pode até vir a afectar as suas memórias. as pessoais. podem  mesmo morrer completamente despenteadas, a meio da surpreendente malha narrativa tecida pela superior capacidade poética e intelectual do autor…
elas são, todavia, portadoras de caras extremamente simpáticas e senhoras de um sorriso desenhado de forma irresistível pelo “escrevinhador”…
– havia uma cara simpática… mas nunca me dei conta de quem era.
disse a primeira. e a outra, após longos minutos de reflexão, transmitiu os seus pensamentos desta forma:
– quem será? mas, querida, já se passaram dez anos… talvez ou, com toda a certeza, tudo venha a ser alterado. a roupa será diferente. outra roupa… a propósito, continuas a usar roupa…?

a questão colocada poderá parecer absurda. mas não. não o é. de todo. a acção decorre noutros espaços. espaços onde os hábitos não questionam o hábito e, assim sendo, o absurdo da coisa suaviza-se. torna-se transparente. enfim, bastante menos absurdo.

– ah, minha querida…! uso. uso roupa. comprei uma saia de serapilheira ontem. linda… e digo-te mais: cai-me bem. cai lindamente. que adianta o conforto, se as meias são do jardineiro? não. não são minhas. mas empresta a tua atenção… com estas meias e uma blusa larga, chegas a sentir prazer em bater à porta do vizinho. e mais… a calcinha larga também me conforta. é que os dias que se passam deixam-nos extremamente despenteadas. e é por isso que opto, sempre, por usar certas palavras no rosto. é. é como pegar num livro e lê-lo com os poros. estou convicta de que desejas ler o meu livro. não. não é possível ocuparmo-nos com enganos. mas eu sei que me olhas e não me queres ver. não? ah…! acertei outra vez, não foi?

o diálogo prosseguiu neste tom e neste ritmo de trompete.
o mal de viver encontramo-lo em cada esquina, em cada encruzilhada. os tempos são outros e, porque o são… entrou no espaço o pintor que não conseguia pintar quadros.
o pintor deitou-se no chão e iniciou um acto místico. devorou, em seguida, cinco sanduíches embrulhadas em papel de um quotidiano mais do que relido. depois do acto, ajoelhou-se e iniciou a sua oração:
– vida, oh vida, vida minha!… coração ausente do coração que é meu. no coração não se manda, disse o mestre. deus me guarde como se fosse eu uma gaivota. mas… se fogo fosse, me queimaria.

o mundo, este mundo que nos proporciona um viver ardente, pressente já as mil maravilhas do ano que se aproxima. e, nesta noite de histórias fantásticas, deparamos com o pintor enlouquecido, transformado…
na mão esquerda, exibe um revólver.
dispara indiscriminadamente e atinge as duas mulheres no peito e… após alguns momentos em que procura reflectir sem sucesso – pois que a sua cabeça não o reconhece mas a sua mão sim… o que era previsível. dispara sobre si próprio.
a morte rodopia, assinala o fim da coisa narrada.

ah!… adoramos histórias de final infeliz.
adoramos histórias onde a morte leva de vencida as figuras que pululam na nossa mente. melhor. muito melhor seria se….

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