arrabal – jodorowski – topor e – panico

 

fernando arrabal

Quando Victor Garcia montou Cemitério de Automóveis, o nome de Fernando Arrabal estava estreitamente ligado ao chamado teatro pânico. O conceito de “pânico” começara a ser elaborado a partir das discussões de Arrabal, Roland Topor, Alexandro Jodorowski, Jacques Sternberg e outros intelectuais, que entre 1960 e 1962 se reuniam no Café de la Paix, em Paris.
Numa conferência em Sidney, por ocasião da montagem australiana de Fando e Lis, em 1963, Arrabal dizia que pânico não era um grupo nem um movimento, mas uma   “maneira de ser” de acordo com uma ideologia que tinha por fundamento a exaltação da moral múltipla.
Arrabal definia o herói pânico como um desertor: Ele tem fantasmas (paranóia e não esquizofrenia), megalomania e modéstia, desespero (e não angústia; ele não se suicida), doenças ou deformações, ciúmes, fetichismo, necrofilia, mitomania. etc.”. O teatro pânico era, em suma, um grande cerimonial presidido por confusão, humor, terror, acaso e euforia.
Nos primeiros anos da década de 60, as publicações,  exposições e filmes de curta metragem do grupo fizeram sucesso em Paris. Topor realizou um happening memorável, com 500 quilos de carne fresca; Jodorowski –  que era um dos melhores encenadores do teatro de Arrabal – inspirado no teatro espanhol do século de ouro (XVI), montou um grande auto sacramental; Gallimard fez aparecer nas livrarias a primeira colecção de livros pânico; Arnaiz pintou o quadro Arrabal Combatendo sua Megalomania. Por outro lado, uma série de directores como Victor García, Jodorowski, Georges Vitaly, Jorge Lavelli, Jerôme Savary, animados pela necessidade de fazer um teatro novo, inquietante e libertador de emoções, encontraram na obra de Arrabal um veículo perfeito para suas propostas.
Na verdade, as novas inquietações em relação ao espectáculo teatral não se circunscreviam ao grupo pânico e aos encenadores que gravitavam em torno dele. Como diz o próprio Fernando Arrabal, o pânico estava no ar. Possivelmente, não o mesmo tipo de pânico, mas a preocupação com um teatro onde a plateia fosse atingida numa relação directa, torturante e muitas vezes física. Apesar de diferirem das tentativas de Jerzy Grotowski, de Peter Brook. ou do Living Theatre, nenhum deles negava a necessidade do teatro se fazer ritual, romper seus espaços convencionais e entrar num contacto mais estreito com o público. Como Antonin Artaud, eles achavam que o teatro devia realizar uma função: “O teatro não poderá tornar a ser ele próprio, ou seja, constituir um meio de ilusão verdadeira, se não fornecer ao espectador modelos verídicos de sonhos, em que seu apetite pelo crime, suas obsessões eróticas, sua selvajaria, suas quimeras, sua noção utópica de vida e das coisas e seu próprio canibalismo transbordem para um plano que não é suposto nem ilusório, mas interior”.
Antonin Artaud elaborara seu Manifesto do Teatro da Crueldade em 1932. Trinta anos depois suas ideias encontraram eco numa nova geração de encenadores. E muitos deles, mesmo ignorando as teorias de Artaud, chegavam por seus próprios caminhos a conclusões semelhantes. O pânico foi inicialmente revelado por Arrabal nos romances “O Enterro da Sardinha” (L’Enterrement de la Sardine), de 1961, e “A Pedra da Loucura” (La Pierre dela Folie), de 1964. As primeiras peças do teatro pânico surgiram em 1964: “A Coroação” (La Couronnement), “O Grande Cerimonial” (Le Grand Cérémonial) e “Strip­Tease do Ciúme” (Strip-Tease de la Jalousie). Dois anos depois ele escreveria uma das melhores peças da sua carreira, “O Arquitecto e o Imperador da Assíria” (L’Architecte et L’Empereur d’Assyrie). Quando a obra foi montada, em 1967, por Jorge Lavelli, seu sucesso projectou o nome de Arrabal numa grande parcela de público que, desinteressada pelas manifestações de vanguarda, ainda não o conhecia. Como ele próprio diria: “Eu acho que o povo começou a dizer, para si mesmo, Arrabal existe”.

imagem de uma encenação de “O Arquitecto e o Imperador da Assíria”

Arrabal existia, mas o governo espanhol não sabia. Nesse ano, seria preso em Múrcia. Foi sua última viagem a Espanha. De volta a Paris, terminou uma nova peça, O Jardim das Delícias (Le Jardin des Délices), para a qual fora buscar a atmosfera em Espanha. A obra, inspirada na fantasmagoria simbólica de um quadro de Hieronimus Bosch, enriqueceu-se com a experiência da prisão. A personagem principal, Lais, era uma artista que vivia reclusa no mundo das quimeras e fantasias de sua infância e adolescência, vividas num internato religioso. Arrabal mostra esse mundo terrível e repressivo, com suas práticas inquisitórias reavivadas na visita a Espanha. Mas a expressão mais clara de sua experiência de preso político foi registrada em 1969, em “E Eles Colocaram Algemas nas Flores” (Ei lis Passérent des Mennotes aux Fleurs, Durante um ano, a peça ficou em gestação. Nesse período ele escreveu “Aurora Vermelha e Preta” (L’Aurore Rouge et Noire), “Bestialidade Erótica” (Bestialité Erotique) e “Uma Tartaruga Chamada Dostoiévski” (Une Tortue Nommée Dostoievsky), preparando-se para registar, à sua maneira, a tragédia dos prisioneiros políticos.
O título, “E Eles Colocaram Algemas nas Flores”, foi inspirado numa frase de Lorca: “Diz às flores que não se envaideçam pela sua beleza. Pois elas serão algemadas e viverão sob os ventos corrompidos da morte”. Essas palavras, pronunciadas pelo poeta pouco antes de morrer, são consideradas por Arrabal um aceno premonitório à repressão que se abateria sobre Espanha.
“E Eles Colocaram Algemas nas Flores” é uma mescla de fantasia e realidade, surrealismo e documentário, através da qual o autor desvela a paródia dos julgamentos políticos, as degradantes condições das prisões espanholas e as etapas do processo que condenam um homem ao garrote vil. Os sonhos, no curso dos quais os prisioneiros experimentam seus únicos momentos de liberdade, são um aspecto da realidade obsessivamente revelada por Arrabal. Em seus delírios oníricos, os detidos liberam seu erotismo, mas não conseguem tirar da memória os seus pavores.
A peça prevê a integração da cena com o espectador. Desde o momento em que o público entra no teatro, começa a participar do espectáculo, pois não se senta onde deseja, mas onde o actor, que o conduz ao espaço de representação, acha que deve ficar. Os planos reservados à plateia praticamente se confundem com os planos da acção. Por assim dizer, o espectador está dentro da peça o tempo todo, gozando do mesmo desconforto que as personagens, torturado por seus sonhos e por sua condição, Arrabal sugere que na metade do espectáculo ou no epilogo o espectador participe realmente da acção, no momento em que os actores, improvisando, convidam a assistência a contar um facto de sua vida, ou pedem voluntários para um ritual sado-masoquista. Em França e nos Estados Unidos, mais da metade da audiência queria participar, o que transformava o espaço cénico numa grande área de psicodrama. Arrabal colocava nessa obra todos os pontos do manifesto de Artaud, alguns dos quais já tinham aparecido em peças anteriores, sobretudo na montagem que Victor García realizou para Cemitério de Automóveis.
Em 1970, Arrabal voltou-se para o cinema e realizou o filme “Viva La Muerte!”, uma adaptação de seu romance Baal-Babilôinia. Seguiram-se A “Árvore de Guernica” (L’Arbre de Guernica) e “Eu Correrei como um Cavalo Louco”, onde os mitos e obsessões de Arrabal são levados ao paroxismo.
Alguns críticos sustentam que Arrabal, onde quer que manifeste seu génio criativo, realiza sempre a mesma obra, delirante e autobiográfica, cuja fonte é a Espanha mística, blasfema, reprimida, repressora, trágica, farsesca e barroca. O próprio Beckett dizia aos juízes de Madrid, em carta que foi lida pelo advogado de Arrabal durante o processo de 1967: “Onde quer que suas peças sejam montadas e elas são montadas em todos os sítios a Espanha está lá”.

Alexandro Jodorowski -el topo

PRIMERO. SEGUNDO MANIFIESTO ‘PÁNICO’. TERCER MILENIO Universo ‘pánico’: ‘Teatro de la realidad’ cuyos dos protagonistas (el espacio y el tiempo) forman su propia estructura. El universo se comporta como si revoloteara por sí solo, pero también como si fuera el holograma topológico del cosmos. [Lógico, inolvidable Topor.] * Secuencia pánica: Todo lo que se piensa y todo lo que se ve en el escenario del ‘teatro de la realidad’. Se desarrolla en un trozo de espacio durante un cacho de tiempo. [ni + ni -] * ‘Pánico’: Arte de vivir y sendero de descubrimiento que no se pierde horadando el laberinto de los conocimientos archivados. Lo poco que sabe el individuo ‘pánico’ lo debe a su ignorancia. El ‘pánico’ no pretende mejorar el mundo, ni inspirar una sóla línea de los ‘panicófilos’. [Personalmente aspiro a la santidad patafísica.] * Confusión: Estado por esencia ‘pánico’, que, con el azar, determina el espacio y el tiempo. [Confunde que un diario actual se atreva a publicar un texto como éste.] * Tiempo: Noción sujeta a [Photo]la confusión ‘pánica’ que puede tener la apariencia de realidad fundamental o de idea útil. La ignorancia de donde proviene el tiempo nos impide precisar si hubo un comienzo [no sólo durante el amor]. La experiencia intenta persuadirnos de que el tiempo transcurre del pasado hacia el futuro. [Únicamente mis lectores más perezosos se preguntan de dónde sacar tiempo para no preocuparse por el tiempo.] * Espacio: Noción sujeta a la confusión ‘pánica’ que puede tener la apariencia de realidad fundamental o de de representación útil. O sutil. * Realidad: Principio (y carácter) confuso. Únicamente podemos explorarla a través de los dos intérpretes de su propio teatro. Observamos confusamente a estos dos protagonistas (tiempo y espacio) sirviéndonos de la experiencia de nuestro pensamiento hacia adentro. Por lo tanto nuestra percepción del exterior, hacia afuera, solo puede ser aún más confusa. [Es asombroso que incluso frases como ésta puedan leerlas mis amados lectores en una publicación no especializada.] * Teoría ‘pánica’: Aparece con olor de bosque como la teoría de la confusión. Surge más de medio siglo después de las dos teorías físicas anteriores: la mecánica cuántica y la relatividad. * Mecánica cuántica: Para el ‘pánico’ es la teoría de lo infinitamente pequeño elaborada por gigantes. Muestra el comportamiento de las partículas elementales y su interacción con la luz [“La torre herida por el rayo”]. Sus productos derivados van del intermediario internet hasta el faxcinante fax. * Relatividad: Para el ‘pánico’ es la teoría de lo infinitamente grande, nacida en una oficina infinitamente reducida de Berna, gracias al ‘técnico de tercera clase’ Albert Einstein. Unifica el tiempo y el espacio pero poniendo en tela de juicio su universalidad. Sus productos derivados van de la bomba atómica hasta las diligencias de la aceleración. La relatividad constata que un navegante que viaje a la velocidad del rayo [de la luz] se estira mientras que su espacio se estrecha. [Síííííííííííííííííííííííí]
Avatares del “teatro de la realidad”:
– Con el primero Newton (como Demócrito) describe el “teatro de la realidad” como si estuviera dominado por el espacio y el tiempo “reales”.
– Con el segundo Planck (con los “cuánticos”) describe el “teatro de la realidad” como si estuviera dominado por la “irrealidad” del espacio y el tiempo.
– Con el tercero Einstein (con los “relativistas”) describe el “teatro de la realidad” como si estuviera dominado por un solo protagonista, el espacio/tiempo.
– Con el cuarto el ‘pánico’ describe el “teatro de la realidad” como si estuviera dominado por el espacio y el tiempo gusaneando en la confusión.

Jaculatorias (y eyaculaciones, del latín jaculari): Jodorowsky, Topor y yo (como tres músicos de jazz) interpretamos juntos partituras completamente diferentes. * Si Topor, Jodorowsky y yo no hubiéramos sido tan tímidos el ‘pánico’ (y nuestros hijos) tendría varios años más de existencia. Otro arrabalesco: Cervantes y Shakespeare murieron el mismo día con una semana de diferencia, porque Dios, creador de todo, lo ve todo, lo oye todo y lo confunde todo.

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janus o deus

 

sonho e realidade. o mistério. o abstracto – deus. mas não um deus qualquer, o deus janus, o do princípio – o de dois rostos – aquele que emprestou o seu nome a janeiro e gerou a unidade
janus vive a e na montanha. os seus dois rostos vigiam um e outro lado do serro… também em portugal a divindade se instalou nas alturas – serra de sintra – os seus dois rostos vigiavam e defendiam o sagrado premonitório lunar (muito antes da invasão árabe) a norte e a sul. aqui e por influência de janus, resultam dois povoados gémeos – os dois rostos do deus: na encosta sul (hoje concelho de cascais) a aldeia de janes e, na encosta norte (concelho de sintra) a povoação de janas – os dois povoados são um. uma vez que, os dois são a unidade
os nossos sonhos revelam a cerimónia da coroação… uma coroa negra flutua sobre as nossas cabeças. uma coroa negra – da cor da fome de poesia, da cor do anarquismo. uma coroa que brilha no cimo de todas as serras disparando gritos de que o rei foi eleito. um rei nómada, um rei anarquista, mago e… poeta
cada erva… cada raiz… serve-se como num chá e, revela-nos vertiginosas visões
as roseiras disparam os seus espinhos e dos seus botões florescem rosas negras. aos adoradores do caos e dos sultões nada os governa para além do amor ou da feitiçaria – as suas habilidades

conto-te

A

tudo começou quando estava a apertar o tubo da pasta de dentes… precisamente nesse momento. e depois…
depois tomámos consciência do que estava a acontecer. espera…
é isso. havia um pintor que desistiu de pintar quadros e resolveu dedicar-se a outros negócios. e iniciou-se na comercialização de sanduíches enroladas em papel de jornal. com o passar do tempo e farto das sanduíches, despediu-se. é aí, só aí, que se perde na memória das experiências passadas.
mas…
passemos adiante. passemos à história. a verdadeira. ou, em substituição, outra qualquer  mas… de relevância similar.

não.
não consigo escrever nada… tudo o que escrevo perde-se nos dias vividos. no “vou fazer-te lembrar”. e isso desgosta-me. de mim. de e para mim.

quando estava a apertar o tubo da pasta de dentes… nesse preciso momento, tudo começou. ouviu-se vozes. vozes estranhas que debitaram discursos algo confusos. afinal… justificava-se. é que estávamos a atravessar, na horizontal, tempos de guerra. e, nos tempos de guerra, ansiamos por informação. por qualquer informação. ainda que transmitida por tecnologias obsoletas – rádios, vozes interiores…
– como é que sabes de todas essas coisas?
perguntei-me e… respondi em seguida. ainda que inseguro:
– porque…

aqui houve uma pausa. um momento semi-morto que se quebrou quando decidi intervir sobre os meus ou… com os meus maus pensamentos. assim:
– espera um momento…! sabes…? não sei quem sou quando a névoa cobre o vale, não mesmo. entendes? e, a propósito, onde estamos?
claro que não houve resposta. não poderia haver, nem isso seria necessário. necessário seria que… pudesse passar uma noite tranquila, sem solavancos. que pudesse dormir… mas não. estávamos a atravessar um tempo de tensões imponderáveis. um tempo que, num abrir e fechar de olhos, navega incidentes.

nesta história habitam duas mulheres e três crianças.

– bom dia.
disse a primeira mulher. e a segunda ficou muda… melhor, não disse. nada disse. os seus olhares fixaram-se – um no outro…
o interessante nisto é que os olhos das duas protagonistas brilharam de felicidade, e as crianças, as três crianças da história, atravessaram a fronteira do razoável e saíram. não mais foram vistas. precisamente. deixaram de pertencer à narrativa.
é aqui que irrompe um corpo ainda jovem. um adolescente que descansa o seu olhar nas duas figuras femininas e resolve entrar na sala contígua onde está, sentado num sofá, um homem. riem-se. um para o outro. saúdam-se e o moço diz:
– fui ao teatro.
o outro nada diz. apenas esboça um sorriso. o jovem volta à palavra:
– fui ao teatro.
– já percebi.
replicou o outro. e ali ficaram no digo-eu-dizes-tu por algum tempo. até que o relógio da sala iniciou o seu movimento circular e o homem se precipitou para o canto da sala onde, encostada, permanecia uma vassoura. o jovem seguiu, sempre, os movimentos do mais velho.
deslumbrado?
é bem possível.
o homem desenha, agora, uma sedutora dança – sempre acompanhado pela vassoura.

como terão dado conta, houve uma curta pausa para que o autor pudesse beber um copo de tinto e comer uma sanduíche de chouriço assado e dois pastéis de bacalhau. e, como é normal nestas coisas literárias, as personagens femininas anteriormente referidas continuam como estátuas, presas pelo olhar, no salão principal da nossa história.

– porque não esfregas, por dentro, com palha de aço…?
perguntou o rapaz.
porém, o nosso homem nada disse para evitar uma quebra que viesse a impossibilitar a visualização do acto. e lá prosseguiu (com a vassoura) numa dança surpreendente.
– limpa como nunca.
tornou o mancebo.
foi então que o homem parou. e, como uma flecha, lançou a vassoura na direcção do outro. este sussurrou… melhor, deixou escapar um sussurro sombrio.
– olha-me. olha-nos. como gotas. gotas cristalizadas e insatisfeitas… ah…! os ossos aos pedaços…
então…
só então se senta. desenvolve-se, neste momento, um surpreendente e vigoroso silêncio. gera-se um calor extremo, talvez empurrado pelo vento. um calor que distrai a aparência das coisas com a sua própria distracção. em seguida, erguendo-se com firmeza, o mais velho apenas diz:
– vai buscar a espingarda!…
boquiaberto, o jovem dispara uma resposta:
– vendeste-a!
e após um breve silêncio:
– da espingarda comemos dois meses… lembras-te?
– um actor não precisa de uma arma de fogo para ter uma espingarda nas unhas! tudo é aquilo que queremos que seja… sabes disso. e há muito.
respondeu prontamente o homem. então, o efebo percorre com olhar ziguezagueante a sala e os seus olhos colam-se à vassoura. e… a vassoura torna-se espingarda. aponta, ensaia movimentos agressivos com o cabo da ferramenta de limpeza. o nosso homem vai colocar-se à sua frente e… ordena:
– dispara!
confuso, o rapazinho só diz:
– com a vassoura?… estás louco?
– repito-te:… um actor não precisa de uma espingarda. tudo são espingardas para ele. a verdade é a espingarda…! e a vassoura… deixa de existir quando a verdade é atingida. vá. pega nessa merda e dispara!
ao ouvir as palavras do mais velho, paira na sua mente uma sensação de estarem, os dois, presos à parede. reduzidos à dimensão de sombras… e percebe que cada um deverá pensar no outro como inimigo a abater.

e nós… prevemos que um bloco de gelo encantado se quebrará, mais tarde ou mais cedo e que os dois homens desta história fazem já parte de uma ridícula fotografia.
porém… o melhor será prosseguir e esquecer tudo. de tudo o resto. talvez muito em breve saibamos soletrar convenientemente a narrativa presente.

prossigamos então e encetemos um outro capítulo o

B

o rapaz está, neste momento, a dirigir o cano da espingarda-vassoura para o seu interlocutor. os seus pensamentos vagueiam… ocupam-se de enganos que se alimentam de rasgos… chega a sentir-se superior a si próprio. e está – quase – a acreditar ser o herói da história. não. ainda não. é invadido, entrementes, pela dúvida e…:
– tomaste os medicamentos?
– claro!… mas não é isso que está em jogo. agora… agora, só quero que me mates! que dispares, sobre mim, um tiro de carabina. um tiro certeiro sobre este corpo devorado pela dança. pelo palco. pelos aplausos incertos do público. quero. exijo que me mates. agora. já!…
o homem falou e as ideias arrastaram-se pelos labirintos. o moço escutou. confuso. os seus fantasmas escorreram-lhe pela testa. não os via, mas… compreendeu. ainda não era tarde. claro. o crime deveria ser consumado. mas… não seria mais natural evitá-lo?
– não posso. não posso, pai. não te posso matar!
a voz do sangue foi abafada por um tremendo gargalhar. e o riso alarve cedeu espaço à palavra:
– não te posso matar, pai!
– pai?… não. o teu pai é… era o meu mestre. estou pronto para a viagem rapazinho. estou pronto para me reencontrar com ele. mata-me! basta um tiro certeiro. aqui!

as histórias são um bom local para a prática de assassínios e suicídios. carreguemos as armas e disparemos. nunca distraídos. antes com os sentidos alerta, abstraindo-nos do ruído da chuva. e com a atenção devida. ainda que a nossa escrita se resuma a meia dúzia de frases húmidas.
agora sim. a vassoura disparou dois tiros porque o nosso herói acreditou que era…

verdade.
e… a verdade permite-nos passar ao novo capítulo. o capítulo…

C

–    passei hoje pela casa onde nasci. as janelas tiritavam de frio. devia ser do vento da manhã porque em agosto… lá e frente a frente, dialogámos com a memória das vozes rebocadas nas paredes. reclamámos a atenção devida. e indiferentes aos transeuntes, saltámos, jogámos e  descobrimos tudo o que o tempo nos ensinou…

foi assim que o diálogo entre as duas mulheres ganhou forma e, digamos, algum vigor. de resto… pouco há a dizer sobre a acção.
duas mulheres sem grandes ventanias. inconscientes, bárbaras e utilizadoras da palavra enlouquecida pela luz. duas mulheres que presidem a cerimoniais bélicos, que poderiam usar um elmo onde flutuassem asas douradas. estas mulheres nascidas das águas…

– não estou tão certa do que afirmas.
disse a segunda mulher. e a primeira atalhou:
– um pintor sabe pintar bem melhor do que um taxista, porque um taxista só precisa de reconhecer as cores de um sinal de trânsito…
e prosseguiu, meio desencantada:
– mas que raio… que coisas devo dizer hoje? é que a mente raciocina, mas o amor move-se sob o sol, a lua, as estrelas… entendes?
– não mesmo…
respondeu a segunda.

de facto, não se lembravam de quase nada. o que será normal nestes espaços de escrita. daí se infere que qualquer das duas figuras não tenha tido tempo para consolidar a memória semântica, tal como é exigido por qualquer autor de hoje às suas personagens. mas elas não entenderam, ao que parece, o fio condutor da história e isso poderá vir a ser grave. pode até vir a afectar as suas memórias. as pessoais. podem  mesmo morrer completamente despenteadas, a meio da surpreendente malha narrativa tecida pela superior capacidade poética e intelectual do autor…
elas são, todavia, portadoras de caras extremamente simpáticas e senhoras de um sorriso desenhado de forma irresistível pelo “escrevinhador”…
– havia uma cara simpática… mas nunca me dei conta de quem era.
disse a primeira. e a outra, após longos minutos de reflexão, transmitiu os seus pensamentos desta forma:
– quem será? mas, querida, já se passaram dez anos… talvez ou, com toda a certeza, tudo venha a ser alterado. a roupa será diferente. outra roupa… a propósito, continuas a usar roupa…?

a questão colocada poderá parecer absurda. mas não. não o é. de todo. a acção decorre noutros espaços. espaços onde os hábitos não questionam o hábito e, assim sendo, o absurdo da coisa suaviza-se. torna-se transparente. enfim, bastante menos absurdo.

– ah, minha querida…! uso. uso roupa. comprei uma saia de serapilheira ontem. linda… e digo-te mais: cai-me bem. cai lindamente. que adianta o conforto, se as meias são do jardineiro? não. não são minhas. mas empresta a tua atenção… com estas meias e uma blusa larga, chegas a sentir prazer em bater à porta do vizinho. e mais… a calcinha larga também me conforta. é que os dias que se passam deixam-nos extremamente despenteadas. e é por isso que opto, sempre, por usar certas palavras no rosto. é. é como pegar num livro e lê-lo com os poros. estou convicta de que desejas ler o meu livro. não. não é possível ocuparmo-nos com enganos. mas eu sei que me olhas e não me queres ver. não? ah…! acertei outra vez, não foi?

o diálogo prosseguiu neste tom e neste ritmo de trompete.
o mal de viver encontramo-lo em cada esquina, em cada encruzilhada. os tempos são outros e, porque o são… entrou no espaço o pintor que não conseguia pintar quadros.
o pintor deitou-se no chão e iniciou um acto místico. devorou, em seguida, cinco sanduíches embrulhadas em papel de um quotidiano mais do que relido. depois do acto, ajoelhou-se e iniciou a sua oração:
– vida, oh vida, vida minha!… coração ausente do coração que é meu. no coração não se manda, disse o mestre. deus me guarde como se fosse eu uma gaivota. mas… se fogo fosse, me queimaria.

o mundo, este mundo que nos proporciona um viver ardente, pressente já as mil maravilhas do ano que se aproxima. e, nesta noite de histórias fantásticas, deparamos com o pintor enlouquecido, transformado…
na mão esquerda, exibe um revólver.
dispara indiscriminadamente e atinge as duas mulheres no peito e… após alguns momentos em que procura reflectir sem sucesso – pois que a sua cabeça não o reconhece mas a sua mão sim… o que era previsível. dispara sobre si próprio.
a morte rodopia, assinala o fim da coisa narrada.

ah!… adoramos histórias de final infeliz.
adoramos histórias onde a morte leva de vencida as figuras que pululam na nossa mente. melhor. muito melhor seria se….

costura E costuras i limitadas

 

 

as prostitutas
senhoras daquela insegura expressão informática
manipulavam chaves de fendas entre os dedos
e
atentas como gatos egípcios próximos da abstracção
abriam as portas de casas de chá
subiam dilemas como se fossem escadas

é bem possível que tenha esquecido alguma coisa – algum pormenor. mas não tenho culpa. em casa sou
pressionado por um contragosto cabisbaixo
e
com as enfadonhas gotas de chuva a subjugarem-me…

não há máquina de costura que nos valha

espec t acto

“telegramando” poema antónio aragão

e
lá estou eu a fazer mais um espectáculo
agora com poemas estranhos (experimentais… etc & tais)
e
claro.
para meia dúzia de devotos

em vez de me pirar deste rectângulo mal frequentado…

até já
tinha pensado ir para a grécia quando vi (com agrado) um cão anarquista a dar trabalho à bófia
tinha pensado ir para moçambique (que é longe e podia perder a vontade de voltar)
tinha pensado ir para cabo verde…
mas não
que porra…!?
vou-me quedando por aqui…

dêem-me um passaporte de cão!!!
é.  
nunca me entenderei com a humanidade

m.a.s.

destacamos hoje antónio aragão que estará presente em “para leonor verdura” – espectáculo de mandrágora com base na poesia concreta/experimental PORTUGUESA (estreia prevista em novembro de 2012)

 

BATATAS. PESCOÇO. SALSA. ETC.

à mesa do restaurante a facilidade da revolução com granadas nos pratos. o Fagundes exaltou-se e empurrou a roupa: todo sujo de nomes e decorado de sustos. alguém gritou: a sopa está acesa e o estilo do universo não presta. o povo que diga. o povo que meta. entretanto
o Juca empernava com a Micas por baixo da mesa e bebia mais nuvens com cornos no copo. talvez mais manteiga. talvez mais pimenta. a Micas que diga. a Micas que meta. talvez mais salada. talvez mais armas. depois ela ardia uma sacana na testa.
a fome era muita. a revolução incerta. e repetimos as batatas e a maldade da metralhadora muito quente na travessa. e a gente insistia. o povo que diga. o povo que meta. então
pedimos mais guerrilha com azeitonas e cegas luas em lata. a certa altura
comi um país na ponta do garfo. porra era fácil e havia o direito! mas não quis mais santos decapitados nem assombros de vacas. em seguida
contei o meu tempero da revolução à malta. e pus o paraíso no pescoço cortado para não me sujar no retrato.
o povo que diga. o povo que meta.

E HAVIA OS BOIS DA BATALHA DE ALJUBERROTA COM A MÃE SATISFACTA À JANELA MORTA E O GAJO PATRIÓTICU SEMPRE A DESPIR A NOIVA SANTA. CLARO QUE TAMBÉM A MALTA COM OUTRA BANDEIRA DA PÁ!TRIA E O GRI GRI DO ASPIRADOR A CATAGRUAR A GRETA.

pronto: fiquei eterno de camisa e suspeito de salsa.

ANTÓNIO ARAGÃO
“in” Pátria.Couves.Deus.Etc

Enganai-me sempre assim

texto do marquês De Sade

No mundo há poucos seres tão libertinos quanto o cardeal de …. do qual, considerando-se que ainda seja homem saudável e vigoroso, permiti-me guardar o nome em segredo.  Sua eminência tem um acordo feito em Roma com uma dessas mulheres cuja profissão oficiosa é fornecer aos devassos objectos necessários ao alimento de suas paixões; todas as manhãs ela leva até ele uma jovem de no máximo treze a catorze anos, a qual monsenhor só usufrui da maneira inconveniente com que os italianos não raro se deliciam, de modo que a vestal, saindo das mãos de Sua Grandeza tão virgem quanto antes, possa, uma segunda vez, ser vendida como nova a algum libertino mais decente. A matrona, totalmente a par das máximas do cardeal, não encontrando, certo dia, a seu alcance, o objecto quotidiano o qual era obrigação sua fornecer, imaginou travestir como uma menina um belíssimo menino do coro da igreja do chefe dos apóstolos; colocaram-lhe uma peruca, uma touca, saiotes, e todo o aparato falso que se devia impor ao santo homem de Deus. Todavia, não se lhe pôde conferir o que realmente ter-lhe-ia assegurado semelhança total com o sexo que ele imitava; mas essa circunstância muito pouco embaraçava a alcoviteira…
– Ele não pôs as mãos lá nestes dias, – dizia àquela dentre suas companheiras que a ajudava na trapaça ele só visitará, com toda a certeza, o que assemelha essa criança a todas as meninas do universo; assim, nada devemos temer…

A “mãezinha” se equivocara; decerto ignorava que um cardeal italiano era homem de tacto muito delicado, e gosto apurado o bastante para se enganar em semelhantes coisas; chega a vítima, o grande padre a imola, mas ao estremecer pela terceira vez: – Per Dio santo, – exclama o homem de Deus – sono ingannato, questo bambino è ragazzo, mai non fu putana!
E ele verifica… Contudo, nada acontecendo de muito embaraçoso para um habitante da santa cidade nesse lance aventuroso, sua eminência prossegue, dizendo, talvez, como esse camponês a quem se serviu trufas como batatas: Enganai-me sempre assim.  Mas quando a operação terminou:
– Senhora, – diz ele à aia – não vos censuro por vossa confusão.
– Monsenhor, desculpai-me.
– Como vos disse, não vos censuro, mas quando isso acontecer-vos de novo, não deixai de advertir-me, porque… o que eu não vir no primeiro momento, verei com este aqui.

ossos

rasgar a carne

e

mexer com a colher todas as imagens num instante

a poesia está na rua

os poetas que fritem – no óleo dos carapaus – os seus sonetos bem comportados

adoramos o cheiro a pólvora

há sempre os que têm medo de não voltar

é

a mente desintegrou-se

transpira-se uma fadiga de mais um ano de trabalho

e

vamos perdendo controlo sobre o pêndulo que transportámos

são os cigarros que marcam o tempo

faltam-nos relógios

depois de teres uma vida cheia de nada, acaba com ela!…

 

 

 

recordando um acto hoje

sob o tecto desconexo da tua infância
eu ……………………………………………..…. assombrado
soletro navalhas de corte ao meio ……….….. e
tu
……………………………………..…………… com os dedos num botão de prata
e
o porta chaves …………………………………. em silêncio
atravessas as escadas
alcanças uma ilha ……………………………… espantada
há sempre uma flor de fogo na parede
há espectros
há travesseiros
há arrepios
e ……………………………………………….….. ao vento
cabelos cheios de ideias
personagens de uma tragédia absurda por entre cinzeirosque sulcam a monotonia dos dias