teatro nunique

O teatro íntimo, o teatro de costumes, o teatro psicológico, é um teatro morto; ele já não tem ligação com a nossa mentalidade, não tem mais vida que um retrato de Bonnat.
No tempo em que a ciência põe o mundo inteiro na mão de cada homem, os espíritos não podem fazer menos do que alargar a sua amplitude e a sua ambição; hoje, mais do que nunca, o homem e, sobretudo, o artista deve dizer: nihil humanum… O mundo inteiro é o seu atelier, o mundo inteiro é o seu gabinete de trabalho, o mundo inteiro é o seu modelo e ele só pode ter aspirações ao que se poderia chamar o mundialismo ou o universalismo.
Os pintores entraram deliberadamente nesta via, os poetas também, o teatro segui-la-á necessariamente.
Primeiro ponto, naturalmente, supressão das três unidades.
A acção principal não terá, por assim dizer, maior importância do que as outras acções ou fragmentos de acções que a compenetrarão; não se recuará diante de nenhum contraste, nenhuma diversidade, nenhum inesperado, acrobacias, cantos, palhaçadas, tragédia, comédia, piada, projecções cinematográficas, pantominas, o teatro núnico deve ser um grande todo simultâneo, contendo todos os meios e todas as emoções capazes de comunicar uma vida intensa e inebriante aos espectadores. Para aumentar ainda mais esta intensidade, as múltiplas acções desenrolar-se-ão no palco e na sala. Para atingir um realismo mais profundo, desdobrar-se-á algumas das personagens de maneira a mostrar os actos e os pensamentos, tantas vezes em contradição.
Não tendo nem unidade de lugar nem unidade de tempo, isto é, devendo ter simultaneamente cenas em Paris, em New York, em Tóquio, numa casa, no mar, no subsolo, nos ares, nos tempos pré-históricos, na Idade Média, em 1916, no ano 2000, não se põe nele a questão do cenário: a luz, apenas ela, pode ser a pintura neste teatro. Toda uma paleta de projecções coloridas criará a ambiência. Alguns objectos constituirão as referências indispensáveis, assim como as projecções de país, monumentos, inscrições.
Do mesmo modo que no teatro (edifício), ele não poderá ser senão um circo no qual o público ocupará o centro, enquanto sobre uma plataforma periférica giratória se desenrolará a maioria do espectáculo, ligado ainda ao público por actores disseminados no seu recinto.

pierre albert-birot in: revista SIC 1918

Tradução de João Daniel

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