nota 2 entrevistando

Em Punta Umbria fez a performance que, segundo disse no início, seria a última. Nessa acção queimou uma bandeira da União Europeia e deu todo o espaço a um jovem actuante. Ele é Manuel Almeida e Sousa e, as suas acções, irrompem no espaço (ou espaços) com alguma agressividade mas sempre com um sentido estético invulgar nos meios da performance-arte.
Recentemente, “secundado” ou melhor, bem acompanhado por artistas mais jovens que suportam o movimento e acabam por ter, muitas vezes, maior visibilidade que ele – como foi o caso das performances de Punta Umbria deste ano e de há dois anos atrás. E foi o caso das Acções de Arteséries em Faro (das quais vimos os vídeos). Bruno Vilão e Gonçalo Mattos tiveram espaço privilegiado nessas acções (este último foi – sem sombra de dúvida – a grande surpresa em Edita 2012).
A “glorificação” do movimento-acto, da poesis e do corpo estão sempre presentes na pauta das acções apresentadas por Mandrágora. E esse percurso, vicia e encanta-nos enquanto espectadores activos na mostra.
É com o Manuel que mergulhamos neste diálogo só possível via mail, uma vez que a distância geográfica que nos separa não o permite de outra forma. Comecemos…:

– Em Punta Umbria queimaste a bandeira da União Europeia…!?
– Em Punta Umbria queimei um símbolo. Queimei uma ideia de uma Europa na qual não me revejo. Não queimei a Europa como alguns querem fazer crer, queimei, incendiei sim, valores que recuso enquanto cidadão. Queimei a bandeira da União Europeia da Merkel, do Sarkozy e doutras personagens cinzentas como o Barroso, da mesma forma que os cidadãos gregos queimaram em praça pública a bandeira da Alemanha. Eles, os gregos, (acho eu) não atearam fogo a Berlim, tão só se manifestaram contra as imposições de um governo estrangeiro que os quer (que deseja os povos do sul) escravos.
É a minha leitura e, a minha leitura vale o que vale.
A minha posição é e será a recusa. A de um não alinhado – desde sempre.
E… isso até me diverte, ainda que possa irritar alguns – alguém. Estou-me nas tintas. Se não gostarem… comam menos. Não será agora, no outono da vida, que vou mudar. E, se alguma vez alterar a minha posição de estar nesta sociedade – ou nos campos da estética – é porque perdi a pouca lucidez que ainda carrego às costas.
Aperceber-te-ás que há vampiros capazes de praticar o “mal” (porque se alimentam do teu sangue – da tua liberdade …… viciam-te). São até capazes de activar o obscuro, o outro lado do olhar – e esse olhar maléfico é o não amor, a não entrega solidária, gratuita e livre aos outros.
Os vampiros jogam dados selvagens e viciados – anulam as tuas saudáveis fantasias individuais.
– Marxista?…
– “De tendência Groucho”!… Não, nunca fui marxista. Nunca fui militante de coisa alguma e sempre recusei o culto da vítima tão a gosto dessa ideologia… acrescentemos o cristianismo ao pacote, também ele a carregar com os seus mártires no lombo.
“Marxistas” só gosto de quatro. Os irmãos Marx (Chico, Harpo, Groucho e Zeppo).
O marxismo é tão só uma forma de autoritarismo e, eu, só reconheço uma forma de autoridade: o conhecimento.
Mas o conhecedor jamais será um autoritário. Não necessita. Quem é autoritário, quem recorre ao autoritarismo, não é portador de sabedoria. Debaixo do manto do autoritarismo esconde-se sempre a insegurança e a mediocridade.
Logo não reconheço a autoridade de nenhum estadista – são, os que infestam os corredores do poder instituído, todos eles, uns medíocres que só têm visibilidade porque a primeira fila, a da inteligência e do conhecimento, foi eliminada por decreto.
– A tua performance de Punta Umbria foi a última. Disseste tu…
– Pois disse… ia para o meu país e, quedei-me por Espanha. Ia dormir… e aqui estou. E… ia em demanda da beleza, encontrei um poeta deliciosamente mentiroso…
– os teus companheiros na acção. No acto.
– Nenhum de nós deve seguir o outro. Caminhamos juntos até ao destino. Subimos… encosta acima e, no topo, estaremos aptos para escorregar por ali abaixo. Ou então, frente a uma encruzilhada e cansados, cada um seguirá o seu caminho. A sinceridade deve prevalecer sobre a desgraça, a hipocrisia ou a pena. E os papeis de plástico são para aqueles que deles necessitem. Para nós não.
Portanto somos o que somos neste percurso e portadores dos nossos sorrisos… tudo o resto, que se lixe.
– Quem és tu?
– Estranho… nem eu sei. Talvez… um burguês de nascimento que teima em bombear, como sempre, a cauda dum belo vestido de baile.
Sou, também, um gajo que acredita que a liberdade é una e indivisível (logo, que a liberdade é a unidade e a unidade não é – não pode ser – parcelar. É o todo).
– Outra performance…
– Está em saber movimentar o corpo nu – numa banheira – sobre grãos de arroz e gritar: – Os pecados do lobo são as feridas que resultam do querer centrar-se em si mesmo.
– É o novo tema?
– Pode até ser. Porque não?
Mas…
Não. Quero pesquisar (em processo) os mitos. Os mitos são tão necessários como molas, mas não nos devem influenciar no acto de criação.
Não. Decididamente…!
Vou, vamos actuar sobre a poesia visual/experimental portuguesa – uma outra acção de Mandrágora – com o Bruno a marcar o ritmo da acção. É um projecto dele que apoio incondicionalmente, ainda que esteja cansado destas coisas e inapto para entrar em acção. Ficarei de fora, mas activo.

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