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Dos SIGILOS em progresso

Austin Osman Spare, artista plástico britânico (1886-1956), foi, segundo ele mesmo, iniciado por uma velha feiticeira, tendo ficado para a história da magia como motor daquilo a que se convencionou chamar “Magia do Kaos”. Era um homem de acção, simultaneamente artista e mago. Sendo talvez o primeiro da nossa era a lançar-se no processo mágico experimental a que alguns designam por “Técnicas de Magia Gráfica”, cria os primeiros Sigilos – os seus desenhos e pinturas são reflexo disso -, conseguindo, segundo os seus contemporâneos e seguidores, óptimos resultados.
A sua obra plástica é vasta, mas os seus estudos mágicos encontram-se pouco divulgados entre nós. De realçar, do seu conjunto, O Livro do Prazer, as suas notas sobre a “Escrita Automática”, que os dadaístas e surrealistas aprofundaram, e o testemunho, passado por terceiros, sobre o Alfabeto do Desejo. Todas as suas obras ou anotações mágicas estão impregnadas de símbolos mágicos e de uma ideia base:Qualquer um pode criar os seus próprios símbolos e talismãs mágicos. Um pouco como – voltando aos surrealistas – “a poesia feita por todos”… E a magia, analisada por esta perspectiva, é, obviamente a da poética.
Podemos afirmar que a arte de Spare reflecte desejo, o seu desejo. E esse desejo, pouco transparente ao olhar menos atento, é já um signo mágico – um “Sigilo”.
Em cada um dos trabalhos que realizou – desenhos ou pinturas –  os “Sigilos” estão presentes. Estudá-los (o que não constitui uma tarefa fácil) é estudar as suas técnicas de “conquista” dos objectivos que visava enquanto mago.
Spare tornou-se membro da “Golden Dawn”, tal como Aleister Crowley com o qual privou e do qual divergiu posteriormente. O artista-mago ultrapassou os conceitos mais ortodoxos de ocultismo, centrando-se em todos os aspectos do que se convencionou chamar “criação”, mas também em actos de “destruição”, provocação e diversão mágica/poética. Pondo em jogo elementos como a magia, a ciência e a arte, consta, porém nunca haver caído na armadilha de levar as suas experiências demasiado a sério.

Falar de Sigilos é também falar do artista e mago Austin Osman Spare. Daí esta  pequena introdução sobre essa figura ímpar que marcou o século XX numa área mais do que controversa.

CONSTRUÇÃO DE SIGILOS

A construção de um Sigilo passa, antes do mais, por um processo mágico. É uma “técnica mágica”… O Sigilo é um símbolo, um signo que reflecte um desejo de quem o estrutura. Mas será também um possível talismã. E, igualmente, um segredo expresso pelo seu “construtor”, consciente do objectivo que possui. Para isso o  “construtor” deverá, antes de mais, escrever o seu desejo de forma clara. Em seguida, construir a imagem gráfica desse objectivo. O percurso posterior implica dar poder ao símbolo e esquecer tudo o que foi feito.
Complicado?… Passemos ao percurso:

1.    Ao expressar o seu objectivo por escrito, o “construtor” deverá ser claro. Desejos simples, frases simples e objectivas. Ex: Vou ganhar a lotaria esta semana. Considerando-a como base do Sigilo, passará ao ponto seguinte;
2.    A frase, objectiva, clara e simples, reflecte um desejo: ganhar a lotaria. Uma postura afirmativa: Vou. Um momento: Esta semana. Cortará agora as letras que se repetem. Após o corte, verificará que restam as letras v, u, g, h, l, i, m. Se preferir trabalhar com maiúsculas, teremos: V U G H L I M;
3.    Com estas letras – V U G H L I M – fará um desenho gráfico, como o exemplo dado na figura que se segue, e uma “sentença” (palavra(s) mágica(s)), a qual poderá vir a ser alvo de um acto vocálico emitido pelo aparelho fonador do “construtor”. Ex.: VUG  LHIM. Temos, portanto, um sigilo construído (figura 1), e duas palavras mágicas que poderemos vocalizar repetidamente até que percam todo o significado que lhes imprimimos inicialmente.

figura 1

Da sobreposição das letras resultou uma imagem gráfica. Essa imagem será um dos possíveis exemplos dum sigilo que exprime o nosso desejo e que terá, agora, de ser “carregado”.

1.    “Carregar” um sigilo é dar-lhe vida, vida mágica – poder.

E como dar poder ao símbolo?
Enviando a imagem para o inconsciente…
Há processos vários para atingir um estado mais receptivo ao acto. Os alquimistas defendiam o contacto amoroso isolado – ou seja, consigo próprios. Por esse processo entravam em estados simpáticos com o seu inconsciente.
Certos  rituais que envolvem a dança e o ritmo podem provocar estados similares, criar momentos mágicos relevantes. O importante, de facto, é criar um momento nosso. Porque somos nós, segundo Spare, a fonte de toda magia. Desta forma, criamos uma barreira contra quaisquer intromissões e mais facilmente acreditaremos no acto em que estamos envolvidos. Não tendo de acreditar cegamente no Sigilo, jamais, porém, se poderá pôr em causa o seu poder.
Em síntese: há que produzir a mudança. Porque a mudança é, com efeito, a essência da Magia. Quando atingido o estado de êxtase, pelo processo escolhido, deveremos, assim, olhar fixamente para o desenho e imaginá-lo dinâmico e poderoso – brilhante.
É durante o êxtase que há que esquecer o significado da imagem. Esta é a fase que levanta mais dificuldades, mas teremos que, a partir dessa altura, vê-lo como um símbolo de poder. Só isso.
Uma nota mais: esqueçamos o acto. Não interferiramos. Preocupemo-nos apenas em “cumprir” as etapas estabelecidas de forma criativa, logo livre. Depois do êxtase e de um olhar fixo no Sigilo, sentiremos o tal poder. Passemos então toda esta energia para o símbolo.

UMA EXPERIÊNCIA EM PROCESSO E PROGRESSO

Da reflexão sobre processos de “encantamento” e de actos de criação, executados por operadores estéticos contemporâneos, concluímos que o acto “mágico” e o processo  de criação artística estão muitas vezes em jogo, que jogam entre si. O rito está presente e a cumplicidade existe. Melhor: cada uma delas explica a outra e as duas são já, em si, uma unidade visível….
Enquanto “actuante” no acto pictórico ou performativo, o artista é, desde logo, um mago. Um “sacerdote” que preside ao acto. O balbuciar palavras ou o gritá-las no percurso da acção fazem parte da pesquisa de um acto de consciência respiratório e do aparelho fonador. Busca do tal êxtase. O performer, no rito, é um mago que terá de manipular o todo para cativar os seus “fiéis” e, enquanto mago, terá de saber libertar-se das máscaras que o cobrem – voltar-se para os “deuses”.
O “actuante”, nestas acções, desenvolve uma “sigilação” no e do espaço. Desenha Sigilos em processo e, em progresso. Desenvolve, por vezes de forma inconsciente, técnicas de magia onde os vários Sigilos dispersos no acto são usados para representar a sequência da acção ou as mais complexas imagens que espelham a sua intenção.
Segundo historiadores e antropólogos os homens das cavernas desenhavam, já, símbolos geométricos ou até mais complexos, onde exprimiam os seus desejos. Por exemplo, uma boa caçada. As imagens, neste caso, são já um alfabeto de desejo, são ou serão os Sigilos dos nossos ancestrais. Também Spare ele se preocupou em criar o seu alfabeto próprio – o “Alfabeto do Desejo”. E, com esses símbolos por si criados, desenvolveu a sua técnica mágica.
Para mim, a acção “performântica” é regida por movimentos secretos e processos invisíveis, compostos pela precariedade do instante e imbuídos de certo automatismo que não resvala, no entanto, para lá da razão. O seu aspecto mágico tem em conta que o movimento do corpo é poderoso e suficiente para evocar algo que está para além dos níveis do consciente. Os sentidos são, também eles, evocados com propósitos que os transcendem. É, portanto, um trabalho em processo que rompe, na necessidade de diálogo entre linguagens estéticas – um novo território, o território do nada.
E é o nada, o vazio, que nos interessa pelo seu poder. Pela capacidade que tem de transmitir o desejo “sigilado” no acto – na acção.

Este trabalho com signos e símbolos mágicos em progresso, leva-nos a campos de acção vários. À consulta de outras experiências e ao desenvolvimento de acções estéticas ou mágicas. Muitos são os projectos ou acções no campo estético onde o lado mágico está presente. Para não ir além do nosso Portugal, limitar-nos-emos a referir nomes como os de António Maria Lisboa, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Ernesto de Sousa bem como tantos outros, ainda vivos ou já desaparecidos.
O fenómeno recente “web” está repleto de informação nestas áreas. Umas mais, outras menos credíveis. A especulação neste campo é vasta, muitos são os “curiosos” que se aventuram ou dizem que se aventuram nestes campos. Nos finais do século XX assistimos ao aparecimento de seitas ditas satânicas que, também elas, se envolvem em experiências na área do “kaos” e exploram os potenciais dos Sigilos. Na minha óptica, o satanismo é, porém, um absurdo. E porquê? Pela simples razão de que Satã não passa de um mito ligado ao cristianismo. E, se o objectivo é pôr em causa a figura de um deus (no caso, o dos cristãos), cultivar o seu oposto será afirmar a existência desse mesmo deus.

Da experiência satânica…
Li, numa das muitas digressões que faço “net” fora, um texto curioso sobre sigilos inscritos sobre um pentagrama. Um pentagrama invertido, como é apanágio dos grupos ditos de Satã. O pentagrama é já um signo bem marcado pelas religiões primitivas – não o inverterei; estrela de cinco pontas, tem um significado muito especial: representa a figura humana de pernas e braços abertos. A ponta superior da estrela é a cabeça; os ângulos laterais, os braços; os ângulos inferiores as pernas. o pentagrama tem uma segunda leitura:  o ângulo de topo é também a representação do espiritual, o ângulo superior esquerdo representa o elemento ar, o superior direito é o elemento água e os ângulos inferiores representam a terra (esquerda) e o fogo (direita). Tendo em conta a estrela de cinco pontas – o pentagrama – e tendo em conta as sugestões da tal experiência do grupo “satânico”, desenvolvamos uma acção que abarque esses valores e significados. Em paralelo, desenvolvamos o mesmo acto com uma estrela de sete pontas, a que representa a sequência dos sete dias da semana.

Comecemos pela acção que envolve o pentagrama.
Proposta: uma acção estruturada a partir de cinco Sigilos construídos pela forma indicada na primeira parte deste documento. Porém, os valores em jogo, as frases significantes, obedecem à simbologia da estrela.
Assim, o ângulo superior – a cabeça/espírito – representa o “actuante”, o seu desejo ou vontade, o “eu quero – eu desejo”. Seguem-se os dois ângulos correspondentes aos braços e mãos: as mãos, que tentam apoderar-se do objecto desejado. A esquerda, que envolve o que é relevante que seja realizado – que paira no ar e que desejamos alcançar; a direita, o progresso (o navegar nas águas do desejo) – o “como”. No que respeita aos pés da estrela, existe uma ligação privilegiada com os elementos terra e fogo, os seus tempos e ritmos. Serão dois Sigilos que completam o desejo em jogo de forma afirmativa – o “aqui” e o “agora” – o local e o calor que provoca o desejo.
Em seguida, os cinco Sigilos deverão ser colocados nas posições correspondentes  e  carregados pelo processo mágico escolhido pelo “construtor” do símbolo.

A construção do “Sigilo final” representado na figura obedeceu às seguintes passagens:
1.    para cada ângulo do pentagrama – colocação do Sigilo e das palavras resultantes, um em cada ângulo da imagem de suporte;
2.      dada a inexistência de um alfabeto recreado pelo “actuante”, utilização de um alfabeto esotérico instalado no computador (no caso concreto da imagem, do alfabeto enochiano) para inscrever as palavras resultantes;
1.    arranjo gráfico elaborado sobre um fundo negro, sublinhado a vermelho somente por questões estéticas (recorreu-se a programas gráficos instalados no computador por razões práticas, a acção poderia ter sido elaborada em suporte de papel);
2.    activação – “carregamento” – dos sigilos, conseguida através de um ritual com base na acção corporal ao ritmo de sonoridades que envolveram marcação de tambores.

Da acção com a estrela de 7 pontas…
“Triângulo de 7 pontas” disse-o António Maria Lisboa
Esta estrela possui a seguinte particularidade interessante:

Cada ponta representa um planeta, e uma estrela abre o circuito precisamente na “cabeça” ou ponta superior. É, portanto, de um circuito ou percurso que se trata. Esse percurso tem início no topo, isto é, no Sol, no primeiro dia. Estamos perante o Dia do Sol. Se seguirmos as linhas da estrela como se a desenhássemos sem levantar o lápis do papel chegaríamos à ponta correspondente ao Dia da Lua. Continuando a seguir o percurso (linhas da estrela) passaríamos, sucessivamente, ao Dia de Marte, Dia de Mercúrio, Dia de Júpiter, Dia de Vénus e dia de Saturno… E, se não nos detivermos, novamente ao Dia do Sol. Iniciaremos a viagem por uma outra semana, prosseguiremos no tempo.
Esta é, pois, a Estrela do Tempo. A estrela que marca o ritmo a que estamos sujeitos.


A criação de Sigilos (sete), um para cada dia – um em cada dia, irá “mover” a acção mágica e o desejo expresso, iniciará o seu percurso na “Roda do Tempo”.

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