cena 2 a da performance

       a arte ao envolver o corpo, tem como tema a relação deste com o acto – a atmosfera criada por esta busca de novas linguagens através do corpo aproxima-se do transe xamânico. o poeta-mago, envolto de outras imagens que se projectem de forma repetitiva poderá (deverá)  atravessar territórios plásticos, espaços inimagináveis num contacto directo com o desconhecido – uma outra linguagem mais elástica e que, em delírio, jorra do seu corpo (quando atingido o êxtase do movimento).

o verbo é o entrave, é aquilo que impede o movimento livre. então o actuante prepara o ritual de ruptura com a palavra, tal como o artista  expressionista abstracto se prepara para a sua acção, antes de intervir sobre a sua obra com uma gestualidade enérgica, em nada semelhante à actividade pictórica, relativamente tranquila, que caracteriza os pintores de cavalete.

a arte corporal do poeta é uma forma emergente, o que poderá justificar a ausência de elementos que marquem um estilo. esta acção, cujo suporte é o corpo, contém em si o rufar de tambores e pés e músculos – uma base. o chão. a terra. e os corpos como sombras, agitam-se em transe. o corpo e a terra… pluralidade numa relação de causa-efeito numa explosão de símbolos e signos. um entendimento único, absoluto, verdadeiro, dirigido ao espectáculo construído por “magos” e “bruxos” recuperadores (em processo) de rituais perdidos – um poema intenso, xamânico.

nesta acção focalizada no corpo do artista, devemos abarcar outras morfologias contemporâneas como o vídeo arte, a mail art, a foto performance… porque, ainda que essas acções possam vir a não contar com o corpo do artista (de forma explícita, claro), elas são uma referência ao acto e  à acção do actuante.

partimos, pois, do princípio de que o trabalho artístico é o que é. não é pintura, teatro, metáfora ou qualquer outra coisa – é uma imagem num universo onde tudo são imagens. então, o corpo em movimento vibra, liberta o vapor que exala já o transe. o espectáculo, este espectáculo, ganha forma numa terra selvagem e os poetas-magos atraem a si as forças
telúricas, no bater dos pés nus.

privilegia-se nesta acção a “encenação” – texto-imagem – em detrimento duma dramaturgia assente no texto literário. é pois o retirar e renunciar de e a um teatro dominado e violado pelo texto – há aqui um mergulhar na mais profunda alquimia da palavra (ou no seu total esquecimento)  e a preservação dos mais sagrados princípios do rito teatral. aquele rito que veicula uma energia actuante no “objecto” – o espectador. de realçar e explorar, portanto, os valores vocais – o aparelho “fonador” representa a alma do espectáculo, a individualidade no seu percurso glorioso através dos figurantes demoníacos. e o ruído é o pano de fundo, o elemento não articulado, fatal e determinante para que resulte uma acção poética, onde o antagonismo entre a voz e o mundo – num compasso cuja sequência é bem sentida no som que sublinha este todo como ambiente estético – é um facto. por esta via se alcança o desejável contágio do público, o qual sairá, por certo, mais “responsável e contagiante” do que entrou.

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Guillaume Apollinaire um conto

o guardanapo dos poetas

 

Situado no limite da vida, nos confins da arte, Justin Prérogue era pintor. Uma amiga vivia com ele e poetas o visitavam. Cada um, por sua vez, jantava no atelier, onde o destino colocara, no tecto, percevejos, à guisa de estrelas.
Havia quatro convivas que nunca se encontravam na mesa.
David Picard vinha de Sancerre; descendia de uma família judaica cristianizada, como há tantas na cidade.
Léonard Delaisse, tuberculoso, escarrava sua vida de inspirado com uma expressão que era de se morrer de rir.
George Ostreole, os olhos inquietos, meditava, como outrora Hércules, entre as entidades do beco.
Jaime Saint-Félix sabia muitas histórias; sua cabeça era capaz de fazer a volta sobre os ombros, como se o pescoço fora parafusado no corpo.
E seus versos eram admiráveis.
As refeições não acabavam nunca e o mesmo guardanapo servia, um por um, aos quatro poetas, mas, sobre isso, nada se lhes dizia.
O guardanapo, pouco a pouco, foi ficando sujo.
Eis o amarelo de ovo junto a um rastilho sombrio de espinafre. Esta é a curva de uma boca avinhada e estas cinco marcas cinzentas foram deixadas pelos dedos de uma mão em repouso. Uma espinha de peixe rasgou o tecido como se fosse uma lança. Um grão de arroz secou, colado, num ângulo. E a cinza de cigarro escurece certas partes mais que outras.

* * *

David, olha o teu guardanapo – dizia a amiga de Justin.
– é preciso comprar guardanapos – dizia Justin – Pensa nisso, quando recebermos.
– O teu guardanapo está sujo, David – dizia a amiga de Justin. – Eu o mudarei da próxima vez. A lavadeira não apareceu esta semana.
– Leonard, olha o teu guardanapo – dizia a amiga de Justin. – Podes escarrar no caixão de carvão. Como o teu guardanapo está sujo! Eu o mudarei logo que a lavadeira trouxer a roupa.
– Leonard, quero fazer o teu retrato escarrando – dizia Justin. – Gostaria até de fazer uma escultura.

* * *

– George, tenho vergonha de te dar sempre o mesmo guardanapo – dizia a amiga de Justin. – Não sei que fim levou a lavadeira, que não há meio de me trazer a roupa.
– Jaime Saint-Félix, sou obrigada a dar-te outra vez o mesmo guardanapo. Não tenho outro hoje – dizia a amiga de Justin.
E o pintor fazia rodar a cabeça do poeta durante todo o jantar, escutando muitas histórias.

* * *

Passaram-se as estações.
Os poetas serviam-se, um por um, do guardanapo e seus poemas eram admiráveis.
Léonard escarrava sua vida mais comicamente ainda e David Picard começou também a escarrar.
O guardanapo venenoso infectou um a um; depois de David, George e Jaime, mas eles não o sabiam.
Semelhante a um trapo ignóbil de hospital, o guardanapo manchava-se do sangue que vinha aos lábios dos poetas, e os jantares não terminavam.

* * *

Na entrada do outono, Léonard escarrou o resto de sua vida.
Em diferentes hospitais, sacudidos pela tosse, como mulheres excitadas pela voluptuosidade, os outros poetas morreram, com poucos dias de intervalo um do outro. E os quatro deixaram poemas tão belos que pareciam encantados.
Atribuíram as mortes, não à alimentação, mas à fome excessiva e às vigílias líricas. Pois, poderia verdadeiramente, um único guardanapo matar em tão pouco tempo quatro poetas incomparáveis?

* * *

Mortos os convivas, o guardanapo tornou-se inútil.
A amiga de Justin quis guardá-lo na cesta de roupa suja.
Dobrara-o pensando: – Está mesmo muito sujo e começa a ter um cheiro terrível.
Mas, o guardanapo desdobrado, a amiga de Justin surpreendeu-se e chamou o amigo, que se maravilhou:
– É um verdadeiro milagre! Este guardanapo, tão sujo, que se exibe com tanta complacência, apresenta, graças à sujidade coagulada e às diversas cores, os traços de nosso amigo que morreu, David Picard.
– Não é? – murmurou a amiga de Justin.
Ambos em silêncio, examinaram por alguns instantes a imagem miraculosa e depois, docemente, viraram o guardanapo.
Mas imediatamente empalideceram, vendo aparecer o espantoso aspecto de morrer de rir de Léonard Delaisse, esforçando-se por escarrar.
E os quatro cantos do guardanapo ofereceram o mesmo prodígio.
Justin e sua amiga viram George Ostreole indeciso e Jaime Saint-Félix a ponto de contar uma história.
– Larga o guardanapo – disse, bruscamente, Justin Prérogue.
O pano caiu e desdobrou-se no chão.
Justin e sua amiga circularam muito tempo ao redor do guardanapo como astros em torno de seu sol e esta Santa Verônica, com seu quádruplo olhar, incitava-os a fugir, além dos limites da arte, até os confins da vida.

Guillaume Apollinaire