notas soltas performance arte

         ao substituir a narrativa clássica – casual, diacrónica – provoca-se a deslocação de uma organização temporal para uma organização espacial. a sincronia provoca um sentido de atemporalidade que remete para uma obra aberta, universal, logo não temporal.

ainda que a relação – ou equivalência – seja clara entre linguagem e pensamento, nem sempre será cumprido o acerto de que toda a predisposição para o pensamento corresponde a uma forma determinada de falar. tudo passa pela atitude do usuário linguístico (intenção, ironia, etc.) e, pela capacidade de (ele) utilizar uma linguagem capaz de transmitir o dito, é dizer; o que alguns chamam de função poética da linguagem. somos, pois, levados pela sedução da palavra – o falante é responsável pelo que diz e em distinguir as relações entre o que se diz – dito – e o que procura dizer de forma a penetrar no jogo; – o que se fala, o que deve entender quem escuta.

portanto, uma poética acção – a poesia será aquilo que está em movimento e tudo o mais será “prosa”.  e o desejo é um estar em movimento, não parar, actuar… o exposto é tanto retórica quanto conceptual. a acção vai avançando de acordo com suas próprias fissuras, produto de múltiplos confrontos, directos e indirectos que, no terreno experimental, são realmente vividos. as chaves deste acontecer poético: o móvel e o estático.

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acto do conhecimento

 

então | só então | quando adão | adão e eva | estavam | adão e eva estavam | no eden | segue bem o conto de fadas | esse conto de fadas | a mulher | a má | convenceu | convenceu o homem a comer a maçã | a maçã que veio | veio da árvore do conhecimento | e porque era do conhecimento | adão e eva foram punidos | punidos adão e eva | e a mulher | a mulher tem que sangrar | sangra e | e o homem tem que | tem de | ir trabalhar | e esse | esse é o resultado | o resultado do desejo | do desejo do homem | porque | porque a mulher | sugeriu | apenas sugeriu | que era | que era boa ideia | e a ideia | o facto | só o facto de | de que | de que ele | ele pudesse ter conhecimento | conhecimento que | que era | era domínio | domínio exclusivo de deus | então | só então se infere | se infere que | que o cristianismo | o cristianismo é uma religião | uma religião anti-intelectual | e se | se é uma religião | uma religião anti-intelectual | se sim | e | e se tu fores religioso | se fores | não és | não és nunca | e nunca serás esperto | então | então que sejas | que sejas apenas burro | burro para caralhos | e | e sendo burro | sendo assim burro | irás parar ao paraíso

plagiando uma citação de Frank Zappa

carta tipo X

estamos frente à poesia experimental ……………. portuguesa

os poetas sugerem-nos as imagens…….. as cartas comerciais tipo – do césar figueiredo servem uma das cenas (carta tipo X) …………….. bruno vilão e íris santos dão corpo ao acto (entre um poema de fernando aguiar e outro de salette tavares)

o espectáculo “pela leonor verdura” ……. de mandrágora – vai ganhando alma ………… entre o corpo e a palavra

em ………………… progresso
e
em ………………… processo

actuantes: bruno & íris ——– encenação: manuel almeida e sousa

teatro nunique

O teatro íntimo, o teatro de costumes, o teatro psicológico, é um teatro morto; ele já não tem ligação com a nossa mentalidade, não tem mais vida que um retrato de Bonnat.
No tempo em que a ciência põe o mundo inteiro na mão de cada homem, os espíritos não podem fazer menos do que alargar a sua amplitude e a sua ambição; hoje, mais do que nunca, o homem e, sobretudo, o artista deve dizer: nihil humanum… O mundo inteiro é o seu atelier, o mundo inteiro é o seu gabinete de trabalho, o mundo inteiro é o seu modelo e ele só pode ter aspirações ao que se poderia chamar o mundialismo ou o universalismo.
Os pintores entraram deliberadamente nesta via, os poetas também, o teatro segui-la-á necessariamente.
Primeiro ponto, naturalmente, supressão das três unidades.
A acção principal não terá, por assim dizer, maior importância do que as outras acções ou fragmentos de acções que a compenetrarão; não se recuará diante de nenhum contraste, nenhuma diversidade, nenhum inesperado, acrobacias, cantos, palhaçadas, tragédia, comédia, piada, projecções cinematográficas, pantominas, o teatro núnico deve ser um grande todo simultâneo, contendo todos os meios e todas as emoções capazes de comunicar uma vida intensa e inebriante aos espectadores. Para aumentar ainda mais esta intensidade, as múltiplas acções desenrolar-se-ão no palco e na sala. Para atingir um realismo mais profundo, desdobrar-se-á algumas das personagens de maneira a mostrar os actos e os pensamentos, tantas vezes em contradição.
Não tendo nem unidade de lugar nem unidade de tempo, isto é, devendo ter simultaneamente cenas em Paris, em New York, em Tóquio, numa casa, no mar, no subsolo, nos ares, nos tempos pré-históricos, na Idade Média, em 1916, no ano 2000, não se põe nele a questão do cenário: a luz, apenas ela, pode ser a pintura neste teatro. Toda uma paleta de projecções coloridas criará a ambiência. Alguns objectos constituirão as referências indispensáveis, assim como as projecções de país, monumentos, inscrições.
Do mesmo modo que no teatro (edifício), ele não poderá ser senão um circo no qual o público ocupará o centro, enquanto sobre uma plataforma periférica giratória se desenrolará a maioria do espectáculo, ligado ainda ao público por actores disseminados no seu recinto.

pierre albert-birot in: revista SIC 1918

Tradução de João Daniel

liber oz

Liber oz

Aleister Crowley

“A Lei do Forte : Esta é a nossa lei e a alegria do mundo.” AL 2.21

“Fazei o que queres há-de ser tudo a Lei .”AL 1.40
“Não tens direito para além de fazer o que queres. Faz isto , e ninguém dira não .” AL 1.42 -3
“Todo homem e toda mulher é uma estrela .” AL 1.3

NÃO HÁ DEUS ALÉM DO HOMEM .

1 – O homem tem o direito de viver a sua própria lei

de viver da maneira que quiser
de trabalhar como quiser
de brincar como quiser
de descansar como quiser
de morrer quando e como quiser

2 – O homem tem o direito de comer o que quiser

de beber o que quiser
de se abrigar onde quiser
de se mover como queira na face da terra

3 – O homem tem o direito de pensar o que quiser

de falar sobre o que quiser
de escrever o que quiser
de desenhar, pintar , esculpir, gravar, moldar, construir como quiser
de vestir-se como quiser

4 – O homem tem o direito de amar como quiser

“pegai vosso quinhão e amai como quiserdes, quando e com quem quiserdes ! “
AL 1.51

5 – O homem tem o direito de matar aqueles que possam frustrar estes direitos

“os escravos servirão.” AL 2.58

Amor é a lei, amor sob vontade .” AL 1.57

Edward Alexander Crowley, mais conhecido por Aleister Crowley, nasce em Lemington, Inglaterra, em 12 de outubro de 1875, faleceu em Netherwood, Hastings, em 1 de dezembro de 1947 – é tido como um dos maiores ocultistas do séc. XX…

Filho de Família puritana, foi criado na seita dos Irmãos de Plymouth. Desde cedo combate o cristianismo, e em 1898 iniciou-se na Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada).

Com a morte da mãe, Crowley recebe uma boa herança. O suficiente pra financiar as suas aventuras e, quando o dinheiro se extingue, Crowley utiliza o dinheiro de diversos benfeitores – amigos, discípulos e amantes – nas suas exentricidades.

A Golden Dawn, em muitos aspectos, é (talvez) o principal ramo do Rosacrucianismo nos últimos 15 anos do séc. XIX. Fundada por  membros da S.R.I.A. (Societas Rosicruciana in Anglia) – Aí se desenvolveram estudos aprofundados de Tarot, de Qabalah e magia.

Ainda que tenha abandonado a Golden Dawn, Crowley continua a divulgar os conhecimentos aí adquiridos, Quer no Astrum Argentum, quer na O.T.O. (Ordo Templi Orientis), ou nos volumes do Equinox.

Na Golden Dawn, Crowley foi apadrinhado e instruído por Alan Bennet (Frater Iehi Aour). Assumiu o nome de Frater Perdurabo (Perdurável) e tornou-se amigo íntimo de Mac Gregor Mathers, a tal ponto que trocou seu nome pelo de Aleister Mac Gregor. Com Mathers combateu a W. Yeats, que pretendia (e mais tarde conseguiu) dividir o comando da Golden Dawn e assumir o Templo de Ísis Urânia, o principal de Londres.

A sua habilidade e vocação para o trabalho mágico e ocultismo eram tais que em 1 ano, domina todos os chamados Graus Externos da Golden Dawn, causando a inveja de outros membros, a ponto de recusarem os Graus Internos da Ordem (o artifício de mudar o nome para Aleister Mac Gregor foi também um meio de franquear-lhe as portas a esses graus).

Do percurso de Crowley na Golden Dawn:

– Adeptus Minor 5º=6º Janeiro de 1900;
– Adeptus Major 6º=5º Abril de 1904;
– Adeptus Exemptus 7º=4º 1909;
– Magister Templi 8º=3º Dezembro de 1910;
– Magus 9º=2º Outubro de 1915.

Crowley e Mathers separaram-se e em 1905, Crowley funda a A:. A:. (Astrum Argentum), Ordem ocultista que segue os ensinamentos da Golden Dawn.

Em 1912 foi convidado por Teodore Reuss, Grão Mestre da O.T.O. desde 1905. A idéia inicial era que Crowley organizasse os Graus Superiores da Ordem e liderasse a Região da Irlanda, Iona e as Ilhas Britânicas. Crowley aceitou de bom grado, uma vez que a Astrum Argentum tinha poucos membros e a O.T.O. já possuía uma fama internacional, o que lhe permitiria atingir um número muito maior de pessoas com seu “evangelho da vontade e do amor”. Permaneceu na O.T.O. até 1921, quando da ruptura na O.T.O., causada pela influência do Tantra Yoga (ou Magia Sexual) no 9º Grau da Ordem, que agradava a uns e desagradava a outros.

Entre 1938 e 1943, Crowley uniu-se a Lady Frieda Harris para corrigir e atualizar o Tarot Medieval.

A primeira edição do Tarot de Crowley foi feita por Carr Collins e a sua Fundação do Santo Graal, apenas em preto e branco.

Crowley faleceu em 01/12/1947, pobre e doente, enfraquecido por seus excessos com a bebida e drogas. Chamado pela imprensa de “O Homem Mais Perverso do Mundo”, deixou a todos os seus inimigos e admiradores “uma obra de imenso valor”, senão pelo conhecimento, talvez pelo esforço, de um homem que dedicou sua vida inteira ao estudo do oculto e da Magia. Crowley assumiu ao longo de sua vida, uma enorme quantidade de nomes e títulos que atribuía a si mesmo. Seguem abaixo alguns dos principais nomes por ele utilizados:

– Conde Vladimir Svareff;
– Master Therion;
– Príncipe Chioa Khan;
– Baphomet;
– Frater Perdurabo;
– Aleister Crowley;
– Aleister Mac Gregor;
– Lorde Boleskini.

Ficou escrito:

“Cada carta é, em determinado sentido, um ser vivo, e suas relações com as vizinhas são o que se poderia chamar de diplomáticas. Ao estudante cabe a tarefa de incorporar estas pedras vivas a seu templo vivente” – O Livro de Toth.

“A Magia é a Arte ou a Ciência de causar mudanças com a Força de Vontade” – O Livro de Thoth.

“Há de se considerar a popularidade pueril do cinema, o rádio e os prognósticos desportivos; as competências da adivinhação e todas as invenções; úteis apenas para satisfazer aos caprichos de algumas crianças mal-criadas que carecem de vontade, de sentido e de propósito” – O Livro da Lei.

“Invoca-me sob as estrelas! O Amor é Lei, o Amor antes do querer. Que nem os tontos equivoquem o Amor, porque há amor e Amor, existem a pomba e a serpente. Escolhe Bem” – O Livro da Lei.

“A Lei é feita da tua vontade. A Lei é a do Amor, o amor sob a tua vontade, não há mais que a Lei; faça-se a tua Vontade” – O Livro da Lei.

“…A caligrafia do Livro deve ser firme, clara e bela. Na fumaça do incenso é difícil ler os conjuros. E enquanto tentas ler as palavras por entre a fumaça, ele desaparecerá, e terás de escrever aquela terrível palavra: Fracasso.

O homem mais perverso do mundo

Dentro do mundo do ocultismo, por vezes, ganharam renome especial pessoas que, pelos seus estudos e investigações, se destacaram em tão árido e enigmático campo. Noutras ocasiões foram os seus praticantes, os magos, os bruxos etc., que ganharam uma significativa popularidade, tanto pelos seus escândalos, como pela sua singular personalidade. Tal foi o caso do inglês Aleister Crowley, recordado no mundo da magia e do esotérico como um ser aberrante, ainda que dotado de um extraordinária talento para as Ciências Ocultas.

Crowley rompeu com todos os moldes ritualísticos então estabelecidos. Se, por um lado, procurou assimilar os conhecimentos clássicos mais diversos, por outro, não hesitou em melhorar tais práticas, introduzindo fórmulas novas e praticando a Magia Verde até níveis que raiavam a obsessão erótica. Foi muito criticado, atacado e caluniado, porém não perturbou. Inclusivamente, encontrava certo prazer em ser o alvo do ódio de uma sociedade que considerava caduca e atrasada. Isso o ajudava a realçar a sua enigmática figura de mago, posto que ele próprio tinha adoptado os nomes de “o homem mais perverso do mundo” e “a Grande Besta 666″ (fazendo referência, com este número, ao Anticristo do Apocalipse).

Para compreender, em parte, a actuação e mentalidade desta mago que, apesar dos seus extravios, raiou o genial, penetrando nos planos mentais e mágicos, nos quais ninguém tinha ousado encontrar antes, há que recordar que nasceu em 12 de Outubro de 1875, o ano em que Helena P. Blavatsky e o seu companheiro, o coronel Olcott, fundavam, em Nova York, The Theosophical Society (A Sociedade Teosófica). E por aquela época achava-se em pleno auge o movimento espiritista em todo o mundo. As irmãos Fox assombravam com as suas experiências e as investigações de William Crookes sobre o espiritismo eram seguidas com grandes interesse pelo público, enquanto as seitas e as sociedades secretas abundavam por todas a parte e havia poucos meses que tinha falecido o francês Éliphas Lévi, autor de vários livros de magia, entre os quais se destaca Dogma e Ritual da Alta Magia.

Crowley veio ao mundo num período de enorme efervescência místico-esotérica, num momento em que a intensa inquietação pelo secreto e pelo oculto alcançava quotas muito elevadas. Abundavam as seitas revolucionárias, os textos teosóficos, os escritos sobre missas negras, os escândalos dos grupos espiritistas e a propagação de doutrinas orientais. Crowley escolheu este mundo e desprezou tão publicamente quanto pode o falso puritanismo que até então havia sido o espelho da sociedade inglesa e, em parte, ocidental. Nesse marco mágico-espiritual desenvolveu-se a personalidade de Crowley, rebelando-se contra todas as normas sociais e religiosas, até ao ponto de ele próprio acreditar ser “A Grande Besta”.

A graduação dos membros Golden Dawn

* Primeira ordem:

– Neophyte – grau zero;
– Zelator – 1.º grau;
– Theorius – 2.º grau;
– Practius – 3.º grau;
– Philosophus – 4.ºgrau.

* Segunda ordem:

– Minor – 5.º grau;
– Adeptus Major – 6.º grau;
– Adeptus Exemptus – 7.º grau.

Uma guerra mágica

Na sua procura de novos segredos místicos ou mágicos, Crowley viajou, entre os anos de 1901 e 1902, pela Índia, Ceilão e Egipto. Com enorme quantidade de escritos e apontamentos, tirados dos mais raros grimórios, regressou a Inglaterra, isolando-se nas suas terras de Boleskine, próximo do lago Ness, na Escócia. Tinha ali erigido um templo em que realizava os rituais mágicos prescritos por Abramelin ou Abra-Melin na sua Magia Sacra, e que eram imprescindíveis para entrar em contacto com os seres do plano astral ou espíritos superiores.

Pouco tempo mais tarde, quando tinha vinte e oito anos, contraiu matrimónio com uma viúva chamada Rose Kelly. O casal foi em viagem de núpcias a varias cidades europeias,  chegando ao Cairo. Ali, Aleister convenceu Rose a passar com ele uma noite na Câmara Real da Grande Pirâmide. Seguindo rituais ancestrais, evocaram o deus Thot; tiveram estranhas visões e Crowley saiu da Grande Pirâmide convencido que se encontrava no bom caminho para desenvolver os seus poderes mágicos…

O casal prosseguiu viagem até Ceilão, mas, em 1904, regressou ao Cairo, onde alugou um andar inteiro do Museu Boulak. Ali, Crowley realizou uma série de cerimonias magicas para invocar Thot o deus egípcio da magia. E, no meio de estranhas e surpreendentes circunstâncias, uma potência angélica, que dava pelo nome de Aiwass, ditou a Aleister “O Livro da Lei” (The Book of the Law) ou Liber Legis, no qual se prediz a destruição da civilização, tal como o conhecemos, e se proporciona um guia para formar a Nova Era.

Aleister considerava-se o ser eleito para ensinar o novo caminho, a força mágica que havia de servir de archote à nova civilização, mas o seu credo somente foi aceite por uma minoria, embora actualmente os acontecimentos pareçam dar-lhe razão.

O fim de “A Grande besta”

Com o nome de Thelema (o país em que Gargantua, a personagem criada por Rabelais, constrói a sua fantástica abadia), Aleister Crowley fundou em Cefalú (Sicília), uma abadia mágica (1920), na qual realizou os rituais mais singulares, fantásticos e depravados, com as suas seguidoras. Mas as orgias “sagradas” que se celebravam em Thelema, com consumo de drogas para obter a libertação, para facilitar a viagem astral, não duraram muito. Várias das “irmãs” tiveram de ser hospitalizadas e, em 1923, o governo italiano expulsou Crowley, fechando a abadia ocultista, na qual se tinha intentado penetrar nos arcanos das forças astrais sem considerar meios nem barreiras morais de qualquer espécie.

Crowley morreu de uma degeneração miocardíaca com complicação de bronquite crónica na noite de 1 Dezembro de 1947, em Hastings, com 72 anos. A “irmã” Tzaba, que o assistiu nos momentos cruciais ao passar a grande barreira, recolheu as suas últimas palavras, que foram: “Estou perplexo…”.

Na quinta-feira, 5 de Dezembro de 1947, os restos do ousado ocultista inglês foram incinerados no crematório de Brighton. Estiveram presentes no funeral alguns dos seus amigos, discípulos e admiradores: Gilbert Bayley, “irmãs” Tzaba e Ilyarun, “irmãos” Volo Intelligere e Aossic, o poeta Kenneth Hopkings…

No final de cerimónia fúnebre na capela do crematório, os seus seguidores entoavam o orgiástico Hino a Pã, escrito pelo próprio Crowley, seguido do Réquiem Gnóstico. O acto levantou os protestos da câmara municipal de Brighton e o responsável do crematória viu-se obrigado a desculpar-se pelo sucedido, prometendo que se tomariam medidas para que no futuro não se voltassem a repetir incidentes daquela natureza.

Como epitáfio, perante o seu túmulo, alguns dos seus fervorosos discípulos cantaram o Hino a Satã, de Carducci, e celebraram uma espécie de missa negra.

Fonte:Félix Llaugé e Magic(k).

alfred jarry e a pantaphisica

XL

PANTAPHYSIQUE ET CATACHIMIE

II. – AUTRE FRAGMENT

XL

PANTAFÍSICA E CATAQUIMIA

II. OUTRO FRAGMENTO

Dieu transcendant est trigone et l’âme transcendante théogone, par conséquent pareillement trigone.

Deus transcendente é trígono e a alma transcendente é teógona, por consequência igualmente trígona.

Dieu immanent est trièdre et l’âme immanente pareillement trièdre.
Il y a trois âmes (cf. Platon).
L’homme est tétraèdre parce que ses âmes ne sont pas indépendantes.

Deus imanente é triédrico e a alma imanente, igualmente triédrica.
Há três almas (cf. Platão)
O homem é tetraédrico porque as suas almas não são independentes.

Donc il est donc solide, et Dieu esprit.
Si les âmes sont indépendantes, l’homme est Dieu (MORALE).
Dialogue entre les trois tiers du nombre trois.

L’HOMME: Les trois personnes sont les trois âmes de Dieu.
DEUS: Tres animæ sunt tres personnæ hominis.
ENS: Homo est Deus.

Logo ele é por isso sólido e Deus espírito.
Se as almas são independentes, o homem é Deus (MORAL).
Diálogo entre os três terços do número três.

O HOMEM: As três pessoas são as três almas de Deus.
DEUS: Tres animæ sunt tres personnæ hominis.
ENS: Homo est Deus.

XLI

DE LA SURFACE DE DIEU

Dieu est par définition inétendu, mais il nous est permis, pour la clarté de notre énoncé, de lui supposer un nombre quelconque, plus grand que zéro, de dimensions, bien qu’il n’en ait aucune, si ces dimensions disparaissent dans les deux membres de nos identités. Nous nous contenterons de deux dimensions, afin qu’on se représente aisément des figures de géométrie plane sur une feuille de papier.

Symboliquement on signifie Dieu par un triangle, mais les trois Personnes ne doivent pas en être considérées comme les sommets ni les côtés. Ce sont les trois hauteurs d’un autre triangle équilatéral circonscrit au traditionnel. Cette hypothèse est conforme aux révélations d’Anne-Catherine Emmerich, qui vit la croix (que nous considérerons comme symbole du Verbe de Dieu) en forme d’Y, et ne l’explique que par cette raison physique, qu’aucun bras de longueur humaine n’eût pu être étendu jusqu’aux clous des branches d’un Tau.

XLI

DA SUPERFÍCIE DE DEUS

Deus é, por definição, inextenso, mas é-nos permitido, pela clareza do nosso enunciado, supor nele um qualquer número de dimensões superiores a zero, se bem que ele nenhuma tenha, caso estas dimensões desaparecessem nos dois membros das nossas identidades.

Contentar-nos-emos com duas dimensões, a fim de representar mais facilmente figuras de geometria plana sobre uma folha de papel.

Simbolicamente, Deus é significado por um triângulo, mas no qual as três Pessoas não devem ser consideradas nem como os vértices nem como os lados. São as três alturas de um outro triângulo equilátero circunscrito ao tradicional. Esta hipótese é conforme às revelações de Anne-Catherine Emmerich, que viu a cruz (que consideraremos como símbolo do Verbo de Deus) em forma de Y, e apenas o explica pela razão, física, de que nenhum braço de comprimento humano poderia ser estendido senão até às uniões dos ramos de um Tau.

Donc, POSTULAT:

Jusqu’à plus ample informé et pour notre commodité provisoire, nous supposons Dieu dans un plan et sous la figure symbolique de trois droites égales, de longueur a , issues d’un même point et faisant entre elles des angles de 120 degrés. C’est de l’espace compris elles, ou du triangle obtenu en joignant les trois points les plus éloignés de ces droites, que nous nous proposons de calculer la surface.

Soit x la médiane prolongement d’une des Personnes a, 2 y le côté du triangle auquel elle est perpendiculaire, N et P les prolongements de la droite (a + x) dans les deux sens à l’infini.

Nous avons:
x = ∞ – N – a – P.

Or

N = ∞ – 0.

et

P = 0.

D’où

x = ∞ – (∞ – 0) – a – 0 = ∞ – ∞ + 0 – a – 0

x = – a.

D’autre part, le triangle rectangle dont les côtés sont a, x et y nous donne

a2 = x2 + y2.

Il vient, en substituant à x sa valeur (-a)

a2 = (-a)2 + y2 = a2 + y2.

D’où

y2 = a2 – a2 = 0

et

y = √0.

Donc la surface du triangle équilatéral qui a pour bissectrices de ses angles les trois droites a sera

S = y(x + a) = √0(- a + a)

S = 0 √0.

Logo, POSTULADO

Até se saber mais e para nossa comodidade provisória, supomos Deus num plano e sob a figura simbólica de três rectas iguais, de comprimento a, saídas de um mesmo ponto e fazendo entre elas ângulos de 120 graus. É do espaço compreendido entre elas, ou do triângulo obtido ao juntar-se os três pontos mais distantes destas rectas, que nos propomos medir a superfície.

Seja x a mediana prolongamento de uma das Pessoas a, 2y o lado do triângulo ao qual ela é perpendicular, N e P os prolongamentos da recta (a + x) nos dois sentidos ao infinito.

Temos:

x = ∞ – N – a – P.

Ou

N = ∞ – 0.

e

P = 0.

Daí

x = ∞ – (∞ – 0) – a – 0 = ∞ – ∞ + 0 – a – 0

x = – a.

Por outra parte, o triângulo rectângulo cujos lados são a, x e y dá-nos

a2 = x2 + y2.

Pelo que, substituindo x pelo seu valor (-a)

a2 = (-a)2 + y2 = a2 + y2.

De onde

y2 = a2 – a2 = 0

e

y = √0.

Logo, a superfície do triângulo equilátero que tem por bissectrizes dos seus ângulos as três rectas a será

S = y(x + a) = √0(- a + a)

S = 0 √0.

pela leonor verdura

com “pela leonor verdura”, pretende-se uma viagem ao interior de um movimento que neste país ganhou alguma forma nos anos 60. um movimento/projecto que deu corpo àquilo que é a poesia experimental/visual portuguesa.
em “pela leonor verdura” (verso de ana hatherly in “anagramático”) procuramos uma linguagem, na sua raiz, teatral/performativa. e, à semelhança dos autores escolhidos, nele se semeiam letras, na esperança da germinação da palavra e… percorrem-se os textos dos poetas (muitos)

uma acção de mandrágora em processo – com íris santos e bruno vilão a protagonizar a viagem criativa.

 

estação terminal: sociedade guilherme cossoul – estreia (tudo previsto para novembro de 2012)

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai formosa e não segura



CAMÕES

descalça vai para a fonte. leonor pela verdura.
 para a fonte vai segura. leonor e não formosa. 
vai descalça. vai verdura. e não vai para a fonte.
 vai leonor. e vai descalça. pela fonte.
 para a descalça verdura. a fonte vai. descalça.
 pela leonor verdura. pela segura. pela formosa.
 para a descalça. pela e não vai. para a leonor.
 vai e não para. pela formosa. não para a.
 fonte e leonor. vai não verdura. pela descalça. 
para a segura. e não para vai. não para a fonte.
 leonor para. segura vai. para a não descalça.

Ana Hatherly
 – Anagramático
1970, ed. Moraes

 

cena III poesia experimental portuguesa

 

é o experimental que nos move. jogar com a poesia experimental/concreta portuguesa é o desafio de um outro espectáculo de MandrágorA. no palco dois actores – melhor; o bruno vilão e a iris…  e a encenação será de manuel almeida e sousa – depois até poderão vir a ser mais os intervenientes… (seguramente) vamo-nos envolver nisto em processo
e
já. amanhã será o primeiro dia da deliciosa aventura – em novembro, a cena acontece. queremos que aconteça.

disse o bruno vilão sobre este projecto associativo com quase 33 anos: A Mandrágora consegue proporcionar imagens-miragens onde a água assume um novo estado – não é nevoeiro nem bolhas de sabão. “Mandrágora” não se enceta, não se consome, não se utiliza, e portanto não se reutiliza, nem tão pouco se recicla. É um mirabilis liber que nem todos conseguem folhear.

antes da cena III

pode ser | pode muito bem ser | que e o | e o do que | venha do além | e o que | o que me faça cometer loucuras | pode ser | pode muito bem ser | que o mundo invisível | possa e seja | seja e possa | seja demoníaco e | que | que o mundo deva ser excluído | o mundo | o invisível | pode ser | pode muito bem ser | que não seja capaz | capaz de ver | de não ver | não | não sou capaz | pode ser | pode muito bem ser | de conhecer | o que não conheço e | temo | que temo o | e odeio o que odeio | e como odeio quero destruído | pode ser | pode muito bem ser | por isso é que | que o racional prefere | o racional prefere sempre | prefere mesmo o fosso | prefere o fosso à | ponte e | gosta | gosta mesmo | do corte a separar domínios | domínios concretos | domínios | onde todos os invisíveis são iguais e | pode ser | pode muito bem ser | que iguais e maus

pausa e depois subir

pausa longa

subir (pela escada?…)

só depois a escada,
a ascensão.
um progresso – uma longa genealogia…
precisamente. hebreus, gregos e cristãos valorizam especialmente as alturas. as alturas influenciam a moral…
o melhor está no alto
o pior em baixo
o crescimento está preso a essa fantasia ascensionista.
a descendência do homem
será – sempre – ascendência.
e
os prédios com elevador sobem até aos andares – caros
e
tudo – de baixo para cima
clichês biológicos?
adulto é ser crescido – maduro.

porém, as árvores mais altas são possuidoras de raízes profundas

mas
sim… chegamos a este mundo num mergulho
e
de cabeça